sábado, julho 18, 2020

Pandemônio


- Ninguém sabe nada sobre esta pandemia.
É o que vem dizendo meu marido, todo esse tempo. Ele tem razão. Estudos, autoridades, médicos e até especialistas estão perdidos em um emaranhado de informações discordantes e incoerentes. Esta pandemia está um pandemônio.
Pobres pacientes, pobres médicos que estão no front da batalha. Mal conseguem ver o rosto dos doentes, por trás da imagem de um vírus terrível, sem saber quais armas do arsenal de medicamentos podem usar, sem ter muito tempo para decidir, diante de casos que podem evoluir rapidamente para o êxito letal – ou não.
Meu marido não é da área médica, mas ponderou algo interessante. Ele chegou a aventar a hipótese de que não só o “novo” Coronavírus esteja em causa da doença. Com tantas variantes e variáveis, não excluo essa possibilidade.
Nessa confusão toda, deixei-me influenciar por declarações de alguns especialistas e acreditei que estaríamos livres do perigo de contágio no mês de julho, antes mesmo de as vacinas estarem disponíveis. Tinha até me comprometido a tocar um sininho que temos em casa, no dia de Nossa Senhora do Carmo, 16 de julho, para comemorar.
Como bem disse minha prima, Maria de Lourdes: “você havia feito a promessa de que se a pandemia estivesse extinta hoje [16 de julho], festa de N. Sra. do Carmo, você tocaria o sino de sua casa. Eu acreditei que, no dia de hoje, estaria liberada para comparecer à igreja do Carmo, aqui em BH. Aparentemente, nós não temos motivos para cumprir o que nos propusemos. Porém, com a fé que temos e por esse motivo sabermos que o tempo de Deus é diferente do nosso, te proponho o seguinte: toque, badale bem o seu sino hoje, e eu passarei em frente à igreja, pois ainda não temos permissão para entrar. Faremos, assim, um ato de fé, com a CERTEZA de que a solução já existe, apenas ainda não nos é possível saber.......” Acabei tocando mesmo, num ato de fé e de humildade. Agradeço à minha querida prima.
Vou continuar rezando para que haja vacinas eficazes, com a graça de Deus e auxílio da Virgem Santíssima.

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sexta-feira, julho 10, 2020

A estrelinha

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Céu claro, as estrelas brilhavam. Apesar de não ter lua, havia um brilho discreto. As cortinas abertas, os quadrados da janela se desenhavam suavemente sobre o chão. Não havia muitas luzes nas ruas da cidade, como hoje, contávamos com a claridade natural.
- A estrelinha virá hoje à noite? – os dois pequenos perguntavam à irmã mais velha sobre a famosa visita, cada vez que ela ficava encarregada de tomar conta deles, enquanto seus pais estavam fora.
- Vocês sabem que ela vem somente se vocês já estiverem deitados e que não se pode acender a lâmpada.
A menina e seu irmão mais novo esperavam impacientemente a chegada da estrelinha. Eles se apressavam em se deitar. A irmã apagava a luz do quarto deles e lhes dizia que iria chamar a estrelinha, pela janela do quarto contíguo.
-        Boa noite, linda estrelinha, você pode vir hoje? – dizia ela em tom mais alto, para que a estrela a escutasse.
-        Sim, já vou!
A estrelinha entrava no quarto dos pequenos, falava com uma voz fininha e doce, muito gentil. Sua aparência não era muito nítida na penumbra, ela parecia uma nuvem branca. Era um tanto nebulosa.
Meu irmão menorzinho era muito pequeno ainda; lembro-me dele muito atento, em pé no seu berço, com as mãozinhas firmemente agarradas na grade, seus grandes olhos bem abertos. Ele parecia encantado!
Acreditávamos nessa história, mas no limiar da dúvida. Lembro-me de tê-la seguido, para verificar se encontraria minha irmã no quarto ao lado. Ficava intrigada por que as duas não se apresentavam nunca juntas, sempre era uma ou outra. Mas a estrela foi mais rápida do que eu. E fui advertida de que se me levantasse de novo da cama durante tão nobre visita, a estrela não voltaria nunca mais.
Nossa estrelinha nos dava bons conselhos e ia embora tão rapidamente como quando chegava. Depois, minha irmã voltava ao nosso quarto e nós dois sempre ficávamos pedindo para que ela a chamasse de novo.
Mas era hora de cantar. Nossa irmã tocava violão e cantava lindas canções para ninar meu irmãozinho. E eu aproveitava aqueles deliciosos momentos.
Os anos se passaram, minha irmã era realmente uma estrela que brilhava em tudo o que fazia. Finalmente, ela partiu para sempre. Mas as doces lembranças e seus belos ensinamentos ficaram em nossos corações.
Até logo, « estrelinha »!
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A boa causa   






La petite étoile

Illustration de la tempête
d’étoiles filantes des Léonides
du 12-13 novembre 1833.
© Domaine public
  


         Le ciel clair, les étoiles brillaient. Même si la lune n’était pas présente, il y avait une lueur. Les rideaux ouverts, les carreaux de la fenêtre se dessinaient doucement sur le plancher. Il n’y avait pas beaucoup de lumières pour éclairer les rues de la ville comme aujourd’hui, on comptait sur l’éclairage naturel.
- La petite étoile, viendra-t-elle ce soir? – les deux petits demandaient à leur grande sœur à propos de la fameuse visite, à chaque fois que leur sœur était supposée de les garder pendant que leurs parents seraient absents.
- Vous savez, tous les deux, elle vient seulement si vous êtes déjà couchés et il ne faut pas allumer la lumière.
La fillette et son frère plus jeune attendaient avec impatience l’arrivée de la petite étoile. Ils se dépêchaient d’aller se coucher. La sœur plus âgée éteignait la lumière de leur chambre et leur disait qu’elle allait appeler l’étoile par la fenêtre de la chambre contiguë.
-        Bonsoir, ma belle petite étoile, est-ce que tu peux venir? – parlait-elle un peu plus fort, pour que l’étoile l’entende.
-        Oui, j’arrive !
La petite étoile entrait dans la chambre des petits, elle parlait d’une voix douce et aiguë, très gentille. Son apparence n’était pas claire dans la pénombre, elle ressemblait à un nuage blanc. C’était nébuleux, en tout cas.
Mon frère plus jeune était très petit encore; je me souviens de lui très attentif, debout dans son lit bébé, avec les petites mains fermement accrochées  à la barrière de sécurité, ses grands yeux bien ouverts. Il semblait enchanté !
On croyait à cette histoire, mais au bord du doute. Je me souviens de l’avoir suivie, pour me certifier si je trouverais ma sœur dans la chambre à côté. Ça m’intriguait pourquoi les deux ne se présentaient jamais ensemble, c’était toujours l’une ou l’autre. Mais l’étoile était plus vite que moi. Et j’avais été avertie que si je me levais encore du lit lors de la noble visite, l’étoile ne reviendrait plus jamais.
Notre petite étoile nous donnait de bons conseils et partait aussi vite qu’elle arrivait. Ensuite, ma sœur revenait dans notre chambre et nous, tous les deux, nous lui demandions de l’appeler encore.
Mais c’était l’heure de chanter. Ma sœur jouait de la guitare et chantait de belles chansons pour endormir mon frérot. Et moi, je profitais de ces bons moments.
Les années passèrent, notre sœur était vraiment une étoile qui brillait dans tout ce qu’elle faisait. Finalement, elle est partie pour de bon. Mais les doux souvenirs et les belles choses qu’elle nous a apprises sont restés dans notre cœur.
Au revoir, « estrelinha » !

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A boa causa    

terça-feira, julho 07, 2020

Ecos e reflexos

Minha saudosa irmã
-        Alô! – digo eu, ansiosa, em interurbano para o Brasil. Eu que liguei, deveria esperar a pessoa do outro lado dizer alô primeiro. Mas é que demorou um pouquinho, fui logo eu mesma dizendo alô. Mais uma fração de segundo e minha irmã respondeu: - Alô! – Que susto! Sabia que não era ela, mas a voz era dela. Foi aí que compreendi por que, tantas vezes, confundiam nossas vozes pelo telefone. Tinha pouco tempo que minha adorada irmã tinha morrido, foi um choque ouvir sua voz, não sei definir o que senti.
A ocorrência de eco era muito comum em ligações daqui para o Brasil, por telefone fixo. Atualmente, não sei se ainda existe esse problema, há muito não faço ligações internacionais por telefone fixo.
Lembrei-me desse episódio ao conversar com uma amiga sobre a semelhança da voz da sua filha com a dela, em um vídeo que ela publicou em rede social. Ela comentou que não consegue perceber isso, porque a gente não ouve a voz da gente como realmente é; ela se surpreende quando grava algum áudio e ouve depois.
Dizem que é porque a gente ouve a nossa própria voz por dentro, conduzida pelos meandros internos até chegar no ouvido, e por fora, após ser emitida e conduzida pelo ar exterior. Quando ouvimos a gravação, o som vem só pelo ar, sem as modulações internas.
Falando em estranhar a própria voz em gravações ou no telefone, outro estranhamento que é muito frequente é o que acontece quando vemos nossos rostos nas fotografias. Tanta gente reclama, não gosta! Dizem os entendidos que a razão disso é bem simples, se não for algum problema de ordem psicológica com relação à própria imagem.
Mesmo que discreta, todos temos uma certa assimetria facial, ou seja, uma metade do rosto nunca é idêntica à outra metade. E nós estamos acostumados a ver nossa imagem sempre no espelho, onde ela aparece invertida. Ou seja, não nos vemos como os outros nos veem, que é o que sai numa fotografia, considerando-se que a técnica foi boa; que não seja um retrato infame de algum documento, claro; essas fotos são quase invariavelmente horríveis.
Se invertermos a foto em um editor de imagem (passando o que está à direita para a esquerda e vice-versa), encontraremos um rosto que estamos acostumados a ver, o do espelho. Mas não é como os outros nos veem. Já fiz esse teste e funciona mais ainda no meu caso, pois tenho uma assimetria ocular mais acentuada, a coisa fica evidente.
Certamente, não são só nossas vozes e nossos rostos que percebemos de modo diferente do que os outros percebem. Os nossos sentimentos e atitudes nem sempre são vistos pelos outros da mesma forma que nós. Assim como nós também não percebemos as atitudes e sentimentos dos outros como eles próprios percebem. Como seremos nós, afinal? Um combinado do que percebemos e do que os outros percebem de nós?
Nem tanto ao mar nem tanto à terra, mas poderíamos tentar mudar o tom de voz; mais suave se falamos alto demais, ou mais alto, se falamos muito baixo e ninguém escuta. Quem sabe até tentar dar uma melhorada no visual, para ficar mais ecológico, digamos assim, para tornar o meio ambiente mais agradável para nós e para os outros. Et cetera...
~~~~~~ (desnecessário seria dizer, mas pode haver metáfora neste conteúdo)