Tenho
me confessado pelo menos uma vez por ano. Aqui, há somente duas
temporadas em que a Igreja estabelece horários para o Sacramento do
Perdão: Quaresma e Advento. Para confessar fora desses períodos, é
preciso pedir ao padre, se ele estiver disponível antes ou depois de
alguma missa.
No
ano passado, participei da confissão comunitária com absolvição
individual, uma modalidade que eu não conhecia. Após
orações em conjunto, cada um vai ao padre só para pedir perdão,
sem precisar desfiar toda a lista de pecados, e recebe a absolvição.
Dessa vez,
fui enfrentar a confissão individual. Sim, enfrentar, pois é sempre
um desafio de humildade e fé. Pedir perdão a Deus é algo de suma
importância para nós, imprescindível. É um momento
muito grave e sério. Mas tem lá o seu lado cômico, quando
se trata de confissão individual. Não devido ao fato de nos
confessarmos, mas pela maneira como os padres nos recebem.
Apesar de
sabermos, racionalmente, que é com Cristo que vamos falar, que é
Ele, sendo Deus, que nos perdoa, penso que
temos dificuldade em vê-LO através do padre que está ali e isto
nos traz um sentimento desconfortável. Por isso, acho engraçado ver
todos ali na fila, saber que estamos sentindo a mesma coisa, todos
compenetrados, tensos, como crianças sabendo que fizeram algo
errado. E somos "crianças" de Deus mesmo, Ele nos acolhe
em sua infinita Misericórdia.
Mas o lugar
e o modo como os padres nos atendem, muitas vezes, não ajudam em
nada. Eu preferia aqueles confessionários tradicionais, em madeira,
o padre entrava pela frente, por uma portinha, e lá ficava, do lado
de dentro, no escuro. Nós, os penitentes, ajoelhávamo-nos num
genuflexório lateral integrado, com saliências laterais e um
pequeno teto; ficávamos também no escuro
e escondidos. Mal nos víamos, através de
uma treliça, apenas vultos dos dois lados. Dava para perceber que o
padre aproximava a orelha da treliça para ouvir melhor o cochicho.
Daí essa confissão ser chamada de auricular.
:-) Conforme a demora da conversa, ao sairmos da toca, a iluminação
da igreja até parecia mais intensa, devido a pupilas dilatadas, se
não pela escuridão, pela adrenalina liberada, com o stress.
:-)
Hoje, isso
tornou-se raro, pelo menos por essas bandas de cá. Há ainda
confessionários, lindas peças de madeira que não passam de objeto
decorativo.
Cheguei à
Catedral na hora marcada para começarem as
confissões. Já havia quatro pessoas na fila próxima a um
confessionário maior, no fundo da igreja. Fiz a pergunta que
quase todos fazem, já sabendo a resposta;
perguntei, ao que estava na extremidade, se era fila para
confessar. Para que outra finalidade seria aquela
fila? :-) Daí a pouco, chegam dois padres, um paramentado e o
outro com livrinhos que foi distribuindo sobre aquelas mesinhas de
entrada de igreja. A esta altura, a fila já tinha triplicado.
O padre que
estava paramentado abriu a porta do confessionário e acendeu a luz.
Para meu espanto, descortinou-se o interior da peça, com
iluminação feérica; uma saleta, com uma cadeira em frente a
outra e uma mesinha ao fundo. Assim era o ambiente destinado ao
tête-à-tête sacramental. O jeito era enfrentar aquela epifania.
O segundo
padre ressurgiu, agora paramentado, vindo das lonjuras da sacristia,
e se pôs disponível para também dar confissão, sentado alguns
bancos à frente do confessionário, oferecendo um encontro não tão
resplandecente, mas às claras.
Difícil
saber qual situação seria menos constrangedora. Entreguei para
Deus, o que me couber será. Quando chegou a minha vez, a vaga era
com o segundo padre. Ele fez sinal para que eu fosse ao seu encontro
e me disse para esperar um pouco, pois ia pedir para colocarem música
ambiente na igreja, para diminuir a chance de ouvirem as confissões.
Não sei por que ele não escolheu outro dos tantos confessionários
que há na Catedral... Paciência.
Após
terminar de me confessar e receber a absolvição, fui sentar-me em
um banco do outro lado, bem longe, para rezar um pouco. Pude ver que
muitos que chegavam depois, em vez de entrarem na fila única,
estavam se aproximando do padre do banco. Ele mandou todo mundo
voltar para a fila, gesticulando peremptoriamente,
com braços que pareciam mais longos do que se poderia imaginar.
Os infratores voltaram para trás quase correndo. :-)
Apesar de a
igreja estar vazia, com música suave, aquela
movimentação tirou minha concentração
para rezar. Resolvi ir embora, uma boa caminhada num belo dia de
primavera. Mesmo se estivesse nevando, era Primavera para mim.
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