segunda-feira, junho 08, 2015

Sisyphus canadensis

Version en français          
         
Il faut imaginer Sisyphe heureux.Albert Camus
O rebolado do nosso querido planetinha, dando suas voltas em torno do Sol se faz sentir mais intensamente nessas latitudes distantes da linha do Equador, nos escravizando às mudanças sazonais. Gelo-degelo, luz e obscuridade se alternando a todo ano, esta é a nossa realidade. Estamos sempre pensando nisso, fazendo nossos projetos em função desse ciclo. Até os programas de televisão são sazonais aqui, muitos entram em recesso nos cinco meses mais quentes – OK menos frios – simplesmente porque não terão audiência.
A maioria das pessoas sai em busca do Sol, nos horários vagos que têm. A saúde mental daquele que opta por ficar dentro de casa chega a ser questionada. A jardinagem é a atividade mais corriqueira. E uma questão de honra é manter os gramados esteticamente perfeitos. Daí um dos sons estivais mais frequentes ser o dos cortadores de grama motorizados.
Diga-se de passagem que não estou reclamando, pois com o clima gélido que faz aqui no Canadá, na maior parte do ano, ninguém reclama do verão, muito menos eu, com toda a minha tropicalidade em plena forma.
Agora em junho, estamos no auge da manifestação da vida. Tudo brota, tudo cresce, até mesmo as pedras! Os agricultores têm que retirá-las dos campos todos os anos, para não atrapalharem o plantio. Isso me intriga sempre que os vejo catando pedra e me faz lembrar do mito de Sísifo – como não há montanhas na nossa região, as rochas não rolam, brotam da terra. Não explico melhor o fenômeno, porque eu mesma não o compreendi ainda muito bem. O que me foi dito é que emergem do terreno pelo efeito do gelo seguido de degelo (para atualização sobre esse assunto, ver link ao final do texto). O fato é que, a cada primavera, lá estão novas pedras, de várias formas e tamanhos, à cata do Sisyphus canadensis[1]... oops, sendo catadas por ele. Há veículos criados para fazer este trabalho, mas muitos agricultores preferem recolher as pedras manualmente, para evitar danos maiores aos campos.
O centro de nossas atenções, o Sol, está se exibindo em nosso céu até por volta das 21 horas, e mesmo depois que se põe, ainda temos claridade por um longo tempo. Mas tudo que é bom dura pouco. Exatamente no dia 21 de junho, ele estará na latitude norte máxima a que pode chegar, no Trópico de Câncer, ao sul da Flórida. É quando teremos o dia mais longo do ano, o famoso solstício de verão do hemisfério norte. Não pensem que estou esnobando conhecimentos astronômicos! Todo mundo sabe isso aqui, tal é o desânimo que dá só de pensar em ver as horas de claridade começarem a se reduzir, após o solstício.
Mas ainda teremos calor e até canículas nos meses de julho e agosto. As altas temperaturas duram poucos dias, mas o suficiente para incomodar bastante, devido à (h)umidade do ar elevada também. Nessa época do ano, isso aqui parece praia; logo que chegam do trabalho, as pessoas já vão logo se vestindo, ou melhor, se despindo, para colocar shorts, sandálias... e tem mulher que circula de biquini mesmo. Não demora muito tempo e os corpos estão vermelhinhos, mas o pessoal não se importa. Algum desavisado pensaria que o mar está ali mesmo, virando na próxima esquina. Que ilusão, a cidade onde moro é bem no interior do país.
Quinze dias de julho são oficialmente destinados às férias do pessoal da construção civil – todos os trabalhadores de todos os escalões, direta ou indiretamente implicados na construção ou renovação de alguma coisa, entram de férias. Acrescida do volume de turistas que vêm de fora, a quantidade de gente circulando pelas cidades se multiplica assustadoramente. Tudo fica lotado! Festivais em profusão, shows, espetáculos, muitas atividades a céu aberto... O verão é uma explosão de festa, uma euforia generalizada.
Até eu que tenho muito mais horas de Sol do que o povo daqui, entro no ritmo e vou lá fora com mais frequência. Por isso mesmo, minha crônica fica mais curta hoje, tenho que ir cuidar das minhas flores.
Bom verão para quem é do norte! E para quem é do sul, não fiquem tristes, a Terra já está querendo virar o rebolado para o lado de vocês.
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 Atualização sobre o assunto das pedras:
https://maviemontfils.blogspot.ca/2018/05/ate-as-pedras-brotam.html

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Este texto também foi publicado pela KBR Editora Digital em 20 de junho de 2015:
http://www.kbrdigital.com.br/blog/solsticio/

[1] Sisyphus canadensis é nomenclatura inventada pela autora da crônica, fazendo alusão a “Sísifo”, personagem da mitologia grega, condenado a rolar uma grande pedra com suas mãos até o cume de uma montanha, sendo que toda vez que ele estava quase alcançando o topo, a pedra rolava novamente montanha abaixo até o ponto de partida, de onde ele tinha que recomeçar.

Gênesis, segundo Sebastião Salgado

Também publicado pela KBR Editora Digital em 13 de junho de 2015:

http://www.kbrdigital.com.br/blog/genesis-segundo-sebastiao-salgado/


 "O planeta, não tenho dúvida de que se salvará, talvez a gente não se salve." Sebastião Salgado

Recentemente, este respeitável mineiro do Vale do Rio Doce, Sebastião Salgado, foi objeto de um documentário, intitulado “O Sal da Terra”[1], que espero poder ver brevemente. Admiro muito o seu trabalho como fotógrafo. Sua obra é valiosa para a humanidade! A percepção do mundo que deixa transparecer, me surpreende cada vez mais. 

Este personagem é muito mais do que um fotógrafo; trata-se de um estudioso do comportamento da vida em nosso planeta. Além disso, é um contador de casos que me deixa embevecida[2]. Ele tem o dom de falar de uma forma que nos cativa. Contar histórias bem contadas é uma arte.

Que encanto têm as imagens que ele nos transmite, mesmo sem sua câmera, usando suas palavras; como quando, ao ser perguntado qual foi a influência que recebeu para inspirá-lo na luz e composição magníficas de suas fotos, ele responde que foi na fazenda onde nasceu, em Aimorés, seu pai o pegava pela mão, quando ele ainda era pequenininho, e o levava ao ponto mais alto da região, para ver a chuva chegar. É de lá que vem a sua luz, passando através das nuvens, sobre as montanhas de Minas.

Poesia é o que não falta na sua linguagem, por exemplo, quando fala tão amorosamente da presença da sua mulher, que organiza tudo para tornar o seu trabalho perfeito. Mais de 50 anos de cumplicidade! E são tão jovens! A contribuição deste casal, para que possamos “ver para crer” é algo extraordinário. É uma prova de que tudo o que fazemos pode ser feito com beleza e utilizado em prol do bem. 

Ao falar sobre isso, tenho a sensação de colaborar um pouco para a divulgação dessa obra fabulosa e o que ela representa. Mas ninguém melhor do que Sebastião Salgado para nos maravilhar com suas palavras. Nas suas entrevistas, as observações que ele faz sobre o que vivenciou são bastante inspiradoras. Entrei, inevitavelmente, em modo reflexão sobre a nossa presença na Terra. 

Ele começou fotografando seres humanos em situações extremas, em várias regiões do globo terrestre: trabalhadores, grupos excluídos, populações em êxodo, genocídios. Através da fotografia, ele se entremeou com essa gente, como se estivesse ele também vivenciando aqueles infortúnios. O seu poder de empatia com aquilo que fotografa é impressionante; é como se quisesse compartilhar de todo o sofrimento ao qual é submetida a dignidade humana. Num dado momento, ele chegou a ficar doente e seu médico lhe recomendou parar, pois se continuasse, morreria.

Para se recuperar, sentiu necessidade de voltar às suas origens, em Minas Gerais, e diz que encontrou devastada a fazenda onde viveu sua infância; assim como ele próprio estava, naquele momento, desolado. Juntamente com sua mulher decidiu, então, iniciar um projeto de reflorestamento dessa região, o que mudou seu comportamento e o motivou a continuar lutando por alguma coisa. Eles criaram o Instituto Terra e a fazenda se transformou em Reserva Particular de Patrimônio Natural.

O seu interesse pela questão dramática das desigualdades entre os povos, do sofrimento das populações por vários motivos, deu lugar ao interesse por algo mais grave ainda, que é o problema ambiental causado, em parte, pelos humanos. Mais grave porque, na sua opinião, poderá levar à extinção da nossa espécie. Para ele, o planeta não vai ser destruído, nós é que vamos ser eliminados, se continuarmos a agredi-lo. Em suas palavras: “O planeta, não tenho dúvida de que se salvará, talvez a gente não se salve. Nós estamos levando a nossa possibilidade de subsistência no planeta ao limite. Acho uma grande responsabilidade da nossa parte, da nossa espécie, e não só no Brasil, mas no planeta inteiro. Nós estamos abusando do planeta. Hoje existe um aquecimento real do planeta, mais que provado, muito provocado pelo comportamento humano. Mas, que o planeta poderá se refazer depois da gente, não tem dúvida.

A partir desse novo enfoque, ele passa a fotografar animais, ecossistemas, paisagens e povos intocados pelo progresso, no projeto Gênesis, que durou oito anos. Organizou expedições a desertos, aos círculos polares, a florestas tropicais... Buscando o planeta sem as modificações provocadas pela vida moderna, ele encontrou a si mesmo. Teve contato com povos primitivos nessas regiões, viveu no meio deles por períodos de tempo, se metamorfoseando, como se fizesse parte dessas populações. Desta maneira, diz ter conseguido voltar à essência e reencontrar a sua espécie, o que lhe trouxe paz de espírito.

A maneira como o fotógrafo descreve sua interação com o mundo mineral – onde ele também vê vida – é fascinante. Nos mundos animal e vegetal, a reverência com a qual relata sua experiência com as outras espécies é algo comovente.  É com um profundo respeito que os retrata. Ele diz: "Me contaram uma mentira durante toda a minha vida dizendo que eu fazia parte da única espécie racional do planeta. Existe uma racionalidade profunda dentro de cada espécie. E eu tive que aprender a compreender essa racionalidade."

O relato do seu encontro com a tartaruga que conheceu Darwin, em Galápagos, é um caso à parte, simplesmente espetacular[3].

Segundo o artista, ainda há em torno de 45% da Terra em estado intacto, sem ações devastadoras do ser humano, onde as comunidades preservam antigos costumes e tradições. O projeto Gênesis é um clamor à preservação e à recuperação do planeta, para que nossa vida continue viável.

Enfim, é difícil encontrar alguém que tenha tido uma experiência tão vasta como essa, tendo percorrido todas as regiões da Terra, convivendo com populações de todo tipo, em variados estados civilizatórios. E o mais importante, com uma mensagem tão eloquente, através da fotografia! Hats off!

Creio que o artista tem razão. Precisamos mudar nossas atitudes para nos mantermos vivos, do contrário os efeitos naturais em resposta às nossas ações agressivas poderão se voltar contra nós. Estamos agindo irresponsavelmente, com uma visão imediatista. O que parece vantajoso para o progresso hoje, pode nos deteriorar com o passar do tempo e nos tornar inviáveis enquanto espécie. Não sou contra o progresso, pois ele faz parte da índole do ser humano, mas que não seja um processo autodestrutivo.

Atualmente, o Gênesis está em exposição em Curitiba (Brasil), Lisboa (Portugal) e Berlim (Alemanha). Não vejo a hora que a exposição venha a Montreal.

sexta-feira, junho 05, 2015

O Preço da Ignorância

Publicado também pela KBR Editora Digital em 6 de junho de 2015:
http://www.kbrdigital.com.br/blog/o-preco-da-ignorancia/



"If you think education is expensive, try ignorance.Derek Bok

A frase desafiadora de Derek Bok, advogado, educador, escritor e ex-presidente da Universidade de Harvard – “Se você acha que educação é cara, experimente a ignorância.” –, parece ter sido inspirada no que acontece nos países subdesenvolvidos, como o Brasil, onde a experiência da ignorância vem já de vários séculos; sabe-se que o preço pago por isso é caro, mas insiste-se no erro, rejeitando todo e qualquer projeto de melhoria no setor. Francamente, é ignorância se nutrindo de ignorância.

Exemplo disso foi o desvirtuamento dos CIEPs (Centros Integrados de Educação Pública), popularmente chamados de Brizolões. Implantados no Rio de Janeiro, pelo governador Leonel Brizola, nos anos 1980 e 90, planejados pelo brilhante antropólogo e educador Darcy Ribeiro, com projeto arquitetônico de Oscar Niemeyer, destinavam-se a oferecer ensino público de qualidade, em período integral. O horário das aulas estendia-se das 8 às 17 horas, oferecendo, além do currículo regular, atividades culturais, estudos dirigidos e educação física. Os CIEPs forneciam refeições completas aos alunos, além de atendimento médico e odontológico. A capacidade média de cada unidade era para mil alunos.

Com esse sistema, que poderia ter sido implantado em todo o país, as crianças carentes são tiradas das ruas e das mãos dos bandidos que as aliciam em suas quadrilhas, passando a receber a educação necessária para se tornarem cidadãos honrados. E quanto emprego seria criado para tanta gente que funcionaria nesses centros educacionais!

Para os leitores mais jovens, que não conheceram este empreendimento fantástico, que foi descaracterizado por governos que se sucederam ao do Brizola, sugiro assistirem a um velho vídeo que explica muito bem como funcionavam os CIEPs – link na referência[1]. Não estou fazendo propaganda para nenhum candidato a nada, pois os que falam neste vídeo já estão mortos. Tampouco estou fazendo propaganda para partidos políticos, pois não sou de partido nenhum. A minha propaganda é para a Educação! Estou cansada de tanta ignorância no nosso país, que nos faz pagar um preço caro demais.

Qual é o preço? São vidas humanas ceifadas todos os dias: tanto as vidas das crianças desamparadas que se tornam bandidos, quanto as vidas das pessoas que eles atacam. 

Qual é o preço? São os custos altos de prisões ineficazes, que não cumprem o papel de recuperar o preso, pois oferecem condições precárias; também não cumprem o papel de proteger a sociedade, pois os criminosos são soltos inapropriadamente, a meu ver, ou fogem “inexplicavelmente”, para cometer crimes ainda piores. 

Qual é o preço? São as absurdas situações em que vivemos no cotidiano brasileiro, acuados com medos e estresses que desgastam nossa saúde, enquanto poderíamos estar usando nossos neurônios para muitas outras atividades produtivas, em que todos se beneficiariam.

Fala-se em diminuir a maioridade penal. Não consigo entender como isso pode mudar alguma coisa. Alguém é ingênuo ao ponto de achar que os menores deixarão de cometer crimes por causa disso? O que vai acontecer é que vai haver mais presos amontoados nas cadeias e todas as consequências que advêm disso. Eles saem mais deteriorados ainda e mais perigosos para a sociedade. Além disso, há crianças mais jovens que já são criminosos e que não vão ser enquadrados nessa categoria.

Para sanar o problema de imediato, é óbvio que o menor infrator que comete crimes graves deveria receber punição mais severa do que a permitida pelo Estatuto da Criança e Adolescente – este estatuto é que tem que mudar! Que seja preso de verdade e cumpra pena, mas não junto com os maiores! Não deveria ser “promovido” a adulto, pois com a maioridade perde-se, entre outras coisas, a possibilidade de chamar os pais dessas crianças à responsabilidade que lhes cabe também!

Acho que os critérios para punição do menor têm que ser revistos. O que chamam de “crime violento”? Será que não se criou uma tolerância à gravidade das ocorrências? As agressões nas ruas, as invasões de domicílio, de lojas, todos os tipos de assalto a mão armada... O que são? Um bando de meninos que joga um transeunte no chão, corta-lhe o braço com canivete, faca ou caco de vidro, para roubar-lhe a bolsa, carteira, ou celular... Isto não é um ato de violência? É preciso que seja hediondo para considerar esses bandidos perigosos?

As estatísticas que vêm sendo apresentadas, para justificar isso ou aquilo, estão muito aquém da realidade. Quem vive no Brasil sabe disso. Eu que já lá não vivo há muitos anos – e a situação não parece ter melhorado, muito pelo contrário – presenciei cenas terríveis no cotidiano dos cidadãos, que não entraram em estastística alguma.

Vi vários casos de assalto na rua em que morava, no Brasil. A gente gritava, saía para socorrer as vítimas, enquanto os bandos de menores infratores saíam correndo e desapareciam como que por encanto. Um verdadeiro terror! Chamávamos a polícia, eles vinham mas nunca achavam os criminosos... Casos assim não são computados nas estatísticas, pois os criminosos não foram identificados, mas estão acontecendo aos montes. 

Estes dados que escapam aos registros geram análises erradas em estudos que colocam os meninos de rua menos perigosos do que realmente são. Com isso, o Estatuto da Criança e Adolescente continua com critérios no mínimo defasados. Vivemos num mundo surreal no Brasil! Agora, a situação está piorando mais ainda, com esta onda de facadas no Rio!

E que futuro têm esses meninos? Quando não são traficantes de droga, são drogados. Vivem em disputas entre eles, se matam a torto e a direito. Se estivessem nas escolas o dia inteiro, seriam formados para serem cidadãos honestos, capazes de dar bons frutos; não estariam vagabundeando pelas ruas. Na minha opinião, não resta a menor dúvida de que a solução a médio e longo prazo é a Educação, com escola em tempo integral. Mas tem que ser um processo continuado, não se pode abandoná-lo com poucos anos de experiência, como aconteceu.

Uma das primeiras coisas que meu marido observou, na primeira vez em que foi ao Brasil, no trajeto do aeroporto para casa, foi a quantidade de crianças na rua. E perguntou se elas não iam à escola... Eu tive que explicar, muito envergonhada, que nossos cursos são em turnos. Ele ficou surpreso, pois desde que se entende por gente, as escolas aqui no Canadá são em tempo integral, faça neve ou faça sol.

Por falar em neve, acho que seria mais fácil nevar e fazer bastante frio no Brasil do que esperar alguma atitude razoável por parte de nossos políticos e governantes, infelizmente.

É uma reação em cadeia: os governos e políticos que temos são também consequência da ignorância, pela qual o próprio povo paga caro, por não saber votar. 

Ô coisa emperrada, sô!!!

Muito cuidado aí, gente! E vamos continuar lutando por um Brasil digno!