sexta-feira, abril 03, 2026

Quaresma - Confissões

 

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Tenho me confessado pelo menos uma vez por ano. Aqui, há somente duas temporadas em que a Igreja estabelece horários para o Sacramento do Perdão: Quaresma e Advento. Para confessar fora desses períodos, é preciso pedir ao padre, se ele estiver disponível antes ou depois de alguma missa.

No ano passado, participei da confissão comunitária com absolvição individual, uma modalidade que eu não conhecia. Após orações em conjunto, cada um vai ao padre só para pedir perdão, sem precisar desfiar toda a lista de pecados, e recebe a absolvição.

Dessa vez, fui enfrentar a confissão individual. Sim, enfrentar, pois é sempre um desafio de humildade e fé. Pedir perdão a Deus é algo de suma importância para nós, imprescindível. É um momento muito grave e sério. Mas tem lá o seu lado cômico, quando se trata de confissão individual. Não devido ao fato de nos confessarmos, mas pela maneira como os padres nos recebem.

Apesar de sabermos, racionalmente, que é com Cristo que vamos falar, que é Ele, sendo Deus, que nos perdoa, penso que temos dificuldade em vê-LO através do padre que está ali e isto nos traz um sentimento desconfortável. Por isso, acho engraçado ver todos ali na fila, saber que estamos sentindo a mesma coisa, todos compenetrados, tensos, como crianças sabendo que fizeram algo errado. E somos "crianças" de Deus mesmo, Ele nos acolhe em sua infinita Misericórdia.

Mas o lugar e o modo como os padres nos atendem, muitas vezes, não ajudam em nada. Eu preferia aqueles confessionários tradicionais, em madeira, o padre entrava pela frente, por uma portinha, e lá ficava, do lado de dentro, no escuro. Nós, os penitentes, ajoelhávamo-nos num genuflexório lateral integrado, com saliências laterais e um pequeno teto; ficávamos também no escuro e escondidos. Mal nos víamos, através de uma treliça, apenas vultos dos dois lados. Dava para perceber que o padre aproximava a orelha da treliça para ouvir melhor o cochicho. Daí essa confissão ser chamada de auricular. :-) Conforme a demora da conversa, ao sairmos da toca, a iluminação da igreja até parecia mais intensa, devido a pupilas dilatadas, se não pela escuridão, pela adrenalina liberada, com o stress. :-)

Hoje, isso tornou-se raro, pelo menos por essas bandas de cá. Há ainda confessionários, lindas peças de madeira que não passam de objeto decorativo.

Cheguei à Catedral na hora marcada para começarem as confissões. Já havia quatro pessoas na fila próxima a um confessionário maior, no fundo da igreja. Fiz a pergunta que quase todos fazem, já sabendo a resposta; perguntei, ao que estava na extremidade, se era fila para confessar. Para que outra finalidade seria aquela fila? :-) Daí a pouco, chegam dois padres, um paramentado e o outro com livrinhos que foi distribuindo sobre aquelas mesinhas de entrada de igreja. A esta altura, a fila já tinha triplicado.

O padre que estava paramentado abriu a porta do confessionário e acendeu a luz. Para meu espanto, descortinou-se o interior da peça, com iluminação feérica; uma saleta, com uma cadeira em frente a outra e uma mesinha ao fundo. Assim era o ambiente destinado ao tête-à-tête sacramental. O jeito era enfrentar aquela epifania.

O segundo padre ressurgiu, agora paramentado, vindo das lonjuras da sacristia, e se pôs disponível para também dar confissão, sentado alguns bancos à frente do confessionário, oferecendo um encontro não tão resplandecente, mas às claras.

Difícil saber qual situação seria menos constrangedora. Entreguei para Deus, o que me couber será. Quando chegou a minha vez, a vaga era com o segundo padre. Ele fez sinal para que eu fosse ao seu encontro e me disse para esperar um pouco, pois ia pedir para colocarem música ambiente na igreja, para diminuir a chance de ouvirem as confissões. Não sei por que ele não escolheu outro dos tantos confessionários que há na Catedral... Paciência.

Após terminar de me confessar e receber a absolvição, fui sentar-me em um banco do outro lado, bem longe, para rezar um pouco. Pude ver que muitos que chegavam depois, em vez de entrarem na fila única, estavam se aproximando do padre do banco. Ele mandou todo mundo voltar para a fila, gesticulando peremptoriamente, com braços que pareciam mais longos do que se poderia imaginar. Os infratores voltaram para trás quase correndo. :-)

Apesar de a igreja estar vazia, com música suave, aquela movimentação tirou minha concentração para rezar. Resolvi ir embora, uma boa caminhada num belo dia de primavera. Mesmo se estivesse nevando, era Primavera para mim.

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