segunda-feira, agosto 29, 2022

Tudo é graça

 

Neste domingo, o Evangelho foi o de São Lucas [1], em que Jesus conta a parábola do primeiro e do último lugar e diz que "quem se eleva será humilhado e quem se humilha será elevado".

Já narrei muitas graças que recebi, as quais sempre interpretei como sendo para me trazer conforto e consolação. Algumas vezes [2], tive alguma demora para compreender a "mensagem", o "encontro". Hoje, compreendi após ouvir o Evangelho, e não foi reconfortante, de imediato.

Tenho participado, duas vezes por mês, da equipe de acolhida, nas missas dominicais, em minha paróquia, e foi-me determinado ficar em uma das portas laterais. Creio que são resquícios da pandemia, agora já sem a necessidade das medidas sanitárias. Ficamos com o bom legado de receber atenciosamente os fiéis, para que se sintam bem acolhidos.

Nos domingos em que não estou escalada para este serviço, notei que há um senhor que fica na mesma porta. Nunca havia acontecido a coincidência de estarmos os dois em serviço, no mesmo dia. Hoje, para minha surpresa, aconteceu. Fiquei sabendo depois.

Sempre chego mais cedo e já fui-me instalando na "minha" porta. Quando ele chegou, notei que estava com um ar inquisitório, sequer respondeu ao meu "bonjour". Após alguma vacilação, indo e vindo, criou coragem e veio, com um ar irritado, perguntar-me se eu estava escalada para a acolhida. Respondi afirmativamente e fui em direção ao quadro de avisos, para verificar a escalação mais uma vez. Ele me seguiu e a organizadora veio ao nosso encontro, confirmando que sim. Ao que ele indagou o que ele faria, então. O fato é que a porta central estava desfalcada, seria para um de nós dois ficar ali. Dispus-me, prontamente, a me deslocar, mas foi ele que recebeu essa incumbência, afinal.

No contexto geral, a porta central é até mais importante, é por onde entra a grande maioria das pessoas. Seguindo esta lógica, nem ele nem eu escolhemos o "primeiro lugar". Porém, de um certo modo, tomamos por certo que aquela porta lateral era nosso lugar marcado, o que passou a configurar um tipo de privilégio. Eu me senti humilhada ao ser inquirida e ele também, provavelmente, ao ter sido destinado à porta central. Aconteceu uma partilha de humilhação, digamos assim. Coisa muito suave, ninguém foi massacrado.

No entanto, esta sensação abateu-me, de certo modo, até "digerir" o Evangelho e compreender a bênção que recebi, motivo de regozijo, em vez de tristeza. Isso foi me acontecer justamente neste domingo. Não se deve tomar o "primeiro lugar", nem tomar por certo algo, como privilégio.

Lembrei-me de meu marido, que, na sua ética, digamos assim, sempre aconselhava a "ne pas prendre pour acquis", e de minha mãe que, quando nos punia, sempre dizia que era "para Deus abençoar".

Da próxima vez, não vou me esquecer de perguntar onde devo instalar-me para acolher os fiéis.😊 

O episódio vale para reflexões mais profundas, também, obviamente, no exercício da humildade.

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Links relacionados:

[1] Lucas 14, 7-14

[2] Graças recebidas

[3] "Tudo é graça"

[4] Todas as páginas


quinta-feira, agosto 18, 2022

Nosso destino

 

https://eglisevivante.ca/

Na festa da Assunção de Nossa Senhora, contemplamos a promessa de nosso próprio destino, se também escolhermos nos unir a Cristo.

Infelizmente, nem todos os padres têm o dom de nos comunicar as verdades da fé de forma clara. Quando ouço uma homilia que é bastante didática, fico maravilhada. Estava triste pelo rodízio de padres na cidade de Saint-Hyacinthe, desanimada de perder o ótimo padre que tínhamos na nossa paróquia. Mas ouvindo esta homilia do substituto, fiquei contente. Felizes somos nós que teremos o Padre Serge Pelletier como nosso próximo pároco!

No dia em que comemoramos a Assunção de Nossa Senhora, ele discorreu brilhantemente sobre a importância desta celebração, principalmente, por ser o anúncio daquilo que vai acontecer conosco, se escolhermos ter Jesus em nossa vida.

Segue uma tradução do que ele disse (link do vídeo ao final do texto)...

A festa da Assunção de Maria existe desde os primeiros cristãos, que celebravam seu destino especial, por ser sem pecado e mãe de Jesus. Mais tarde, a Igreja estabeleceu o dogma da Assunção.

Ele propõe as seguintes reflexões: o que é a ressurreição da carne? Como vai ser nossa aparência quando estivermos no Céu? Em que esta festa muda nossa vida agora? Nossas festas cristãs têm sentido somente quando elas vêm nos ajudar a nos converter, hoje. E a festa da Assunção de Maria tem um impacto sobre nós. Acreditaremos em nosso futuro, que nos foi prometido, a partir da certeza do que somos agora. A carta de São Paulo aos Filipenses fala sobre nossa identidade, que temos nossa cidadania no Céu. Como se já tivéssemos um passaporte celeste em nosso bolso e esperamos Jesus, que mudará nosso pobre corpo à imagem do Seu corpo glorioso. Já somos cidadãos do Céu, temos nosso endereço lá, nós pertencemos ao Céu.

Jesus passou seu tempo a nos dizer que Céu e Terra estão juntos. O Reino já está no meio de nós. E quantos santos descreveram experiências de êxtase extraordinárias, que têm uma duração limitada no tempo, mas que lhes pareceram muito, muito longas, e que eram como o Céu se estendendo em um sonho.

Ele narra uma experiência de êxtase que alguém lhe descreveu como algo que ele estava quase a não suportar. O padre nos explica que nosso corpo não pode "conter o Céu", precisamos de um outro corpo para isso. Mas estas experiências nos mostram que o Céu é já agora!

E, então, constatamos que podemos mudar a forma de nos vermos. Se somos cidadãos do Céu, somos alguém, somos amados, temos valor. Da próxima vez que vocês se olharem no espelho, digam: - sou cidadão do Céu. E tentem acreditar nisso. Vocês verão que não é tão óbvio assim.

Ele cita, também, São João que menciona como é grande o amor que o Pai nos cumulou, Ele quis que fôssemos chamados filhos de Deus. E nós somos. Somos capazes de nos perceber com os mesmos olhos do Senhor, quando Ele nos olha? Deus nos vê como seus filhos, Jesus nos vê como seus irmãos, como cidadãos, com Ele, do Reino. Já, agora. Nossa realidade é bem mais ampla do que a que nós enxergamos ou a que nós tocamos. Muito maior! E São João termina dizendo que desde já, nós somos filhos de Deus, mas o que seremos não se mostra ainda claramente.

E, assim, voltamos à questão: como será nossa aparência do outro lado? O padre faz uma analogia com as lagartas, que se transformam em borboletas, mas que não sabem como serão após a mudança. As lagartas não são capazes de olhar para cima, não vêem as borboletas voando.

Mas temos indícios muito edificantes e reconfortantes de como seremos. Ele nos lembra da resposta de Jesus sobre a viúva de sete irmãos, dizendo que nós não nos casaremos nem nos daremos em matrimônio após a Ressurreição. Seremos como os Anjos... Mas nós tampouco sabemos como são os Anjos.

Mas há pistas nas aparições de Jesus. Algumas pistas que nos dão ideia. As pessoas não o reconhecem à primeira vista. Quer dizer que houve uma transformação. Mas é o mesmo. Até Maria Madalena o confunde com um jardineiro. Os discípulos tiveram necessidade de ver suas chagas. Quando os discípulos de Emaús caminharam lado a lado com Ele, não O reconheceram; eles O reconheceram quando Ele partiu o pão. E, ainda, Jesus fez, por uma segunda vez, o milagre da Pesca Milagrosa, quando João disse: é o Senhor! E Pedro se jogou na água para encontrar-se com Ele.

Então, somos a mesma pessoa, mas somos transformados. Em linguagem informática, diríamos que somos, então, a versão 2.0, versão melhorada. E houve, também, a Transfiguração, que nos diz um pouco como poderá ser nossa aparência. Através desses exemplos que podemos compreender melhor a expressão: teremos um corpo glorioso.

Mal posso esperar, diz ele, não tenho nenhuma ideia como será, mas me parece alguma coisa mais leve, menos pesada... mas é preciso, diz Paulo, que o que é mortal se revista da imortalidade. É preciso passar pela morte, para ter o corpo glorioso. Esta é a nota triste de hoje, mas é preciso. Jesus passou, Maria também. E eles entraram no Céu. Sabemos, dizia Paulo, o corpo, nossa morada na Terra, deve ser destruído, mas Deus construiu para nós uma morada eterna no Céu.

O nosso pároco conclui que ele não sabe como será, mas sabe uma coisa: a festa da Assunção nos confirma isso; vou permanecer eu mesmo e não retornarei (põe-se por terra a teoria da reencarnação), serei eu mesmo, em minha identidade, porque o Senhor me ama como eu sou. Além disso, vou reencontrar os que eu conheci e vou reconhecê-los. E esta é uma boa notícia! A fé cristã nos ajuda em nossos momentos de luto, com a consolação de saber que a separação não é definitiva, vamos nos reencontrar.

A ressurreição da carne não tem nada a ver com o corpo tal qual ele é agora, mas sim com a conservação de nossa experiência, de nossa identidade.

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Homélie de l'abbé Serge Pelletier 16 août 2022

Assunção de Nossa Senhora

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sexta-feira, agosto 12, 2022

Bem-aventurados os mansos

Meu pai era pura mansidão.
Eu que bati esta foto, final
da década de 1960.

Certas coisas que os pais falam para os filhos, durante a infância, ecoam por toda a vida, com repercussões boas ou más. A criançada acredita piamente naquilo que os pais dizem... Digamos que, pelo menos, era assim, antigamente.

Hoje em dia, as crianças vão muito cedo para a escolinha, para diversas atividades fora de casa, onde há a influência de outros adultos a quem ficam subordinados, por disciplina ou por estarem em situação de aprendizado, considerando os mestres como outros "donos da verdade". En passant, nem tanto só crianças, jovens que entram na universidade, normalmente muito jovens, também sofrem esta "ascendência", por assim dizer.

Lá vou eu desenvolvendo um assunto filhote. Stop!

Como eu ia dizendo, o que os pais falam é sempre muito importante! Tive sorte de ter os pais que tive, e digo isso mesmo depois de velha, após ter passado por vários ambientes diferentes, conhecido gente de todo tipo, devido aos cursos e lugares por onde passei e à minha profissão. Viva os meus pais!

Como vem aí o Dia dos Pais no Brasil, segundo domingo de agosto, vou falar do meu. Claro, sem jamais me esquecer de minha mãe, que exerceu ótimas influências sobre mim, também.

Uma recomendação feita por meu pai, quando eu era bem pequena, ficou gravada no meu cérebro. Não me lembro mais quais foram as circunstâncias que o motivaram ou se foi, talvez, pelo meu jeito de ser mesmo. Lembro-me de que ele me disse para continuar sempre mansa como eu era, pois "Bem-aventurados os mansos... "

Reparem bem o tempo verbal que usei - pretérito imperfeito - eu era! Mais crescidinha, meus irmãos falavam que eu tinha virado uma "oncinha". E, cada vez que eu ficava brava, já perdendo terreno nas bem-aventuranças, vinha o remorso, logo em seguida... hahaha

Viu como valeu a pena o conselho paterno? O arrependimento é a alma do negócio - oops! - é o negócio da alma!

Que Deus ilumine muito os pais!

Feliz Dia dos Pais!

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Nota: meu pai era pura mansidão!!!

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Deus Todo-Poderoso tenha compaixão de nós, perdoe os nossos pecados e nos conduza à vida eterna. Amém.

Jesus, Maria, José, meu coração vosso é.

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Bem-aventurados os mansos

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segunda-feira, agosto 08, 2022

Ato de fé

 

Direção Espiritual do Padre Paulo Ricardo

Para voltar ao tema, quando necessário, sem precisar ficar procurando no Blog do padre. Lembrete importante: o texto que vem com o vídeo é bom, mas a explicação dele no vídeo é mais completa, muito melhor!!!

O ato de fé, parte I: O que é um ato de fé?

O ato de fé, parte II: Como fazer um ato de fé?

O mecanismo do ato de fé

Direção espiritual

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"Creio, Senhor, mas aumentai minha fé."

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domingo, julho 31, 2022

Ma sœur

 

Maria Leonídia
*23/04/1950
+29/04/2001
Português

À mon avis, il y a des personnes qui naissent deux fois, sans l'ombre d'un doute. L'une d'elles est ma sœur. Leonídia est née dans ce monde dans lequel nous vivons le 23 avril 1950 et est née de nouveau, mais au monde du bonheur absolu, le 29 du même mois, 51 ans terriens plus tard.

Elle était quelqu'un de spéciale. Dans notre noyau familial, c'était l'un des piliers les plus solides que nous ayons eus. Sœur responsable et zélée, elle a aidé à nous tous. Fille exemplaire, elle s'est dévouée sans relâche au bien-être de ses parents.

Elle avait une intelligence rare et une vaste culture ; elle connaissait les courants philosophiques, idéologiques, théologiques, littéraires, juridiques ; je ne peux pas énumérer tout ce qu'elle savait... Elle réussissait tous les examens pour admission à n'importe où. Partout où elle allait, elle était respectée et très appréciée, non seulement pour ses connaissances et sa grande compétence, mais aussi pour sa finesse d'esprit et sa civilité à toute épreuve.

Mais elle ne trouvait pas d'importance à son succès. Je me souviens toujours, avec un certain sentiment de culpabilité, qu'elle n'a pas voulu chercher des photos de sa graduation en Droit à la Université Fédérale de Minas Gerais (UFMG), ayant reçu plusieurs prix, dont le plus important, le Prix Rio Branco (1977, cliquez ici). J'aurais pu acheter les photos. Celles que nous avons sont de sa graduation à la Faculté de Lettres. Médailles, elle en possédait plusieurs, qu'elle remporta au cours de sa vie, bien cachées, vouées à l'oubli. Sa modestie était d'une nature non négociable. Nous avons souvent appris ses réalisations dans la profession à travers d'autres personnes, car elle ne se vantait de rien.

Ce qui était vraiment important pour elle, c'était le témoignage de la foi. Je pense que le travail qu'elle aimait le plus était de catéchiser les enfants et les adultes. Les week-ends, au lieu de se reposer, elle allait travailler pour notre paroisse et la seule récompense était la joie d'enseigner l'Amour prêché et transmis par Jésus.

Si elle vivait encore parmi nous, elle ne voudrait pas lire ce que j'écris, je le sais. Elle n'avait pas de vanités. Mais je dois lui rendre hommage, je l'admire et la remercie beaucoup pour tout ce qu'elle a fait pour nous.

Ce texte n'est pas à la mesure de la grandeur de son âme, mais peut-être l'aimerait-elle maintenant que nous nous souvenons de prier pour elle ou de demander son intercession auprès de notre Sauveur. Elle s'est déjà occupée de moi quelques fois, dans des situations où j'étais en souffrance, ce qui est quelque chose d'inhérent à notre vie ici, dans ce monde. Autant j'essaie d'interpréter rationnellement comme "pensée magique" les cas dans lesquels j'ai ressenti qu'elle intercédait pour moi, autant je ne peux pas réduire la consistance des faits au simple hasard.

Mais ceci devient trop triste, ce qu'elle n'était pas. Je viens d'avoir un flashback souvenir de ses rigolades. Je vais défaire mon froncement de sourcils, j'imagine que, là où elle est, elle doit trouver tout ce verbiage primitif très drôle. Plus risible que les comédies qui la faisaient rire aux éclats. Si nous voulions rire, tout ce que nous avions à faire était de regarder une émission comique ou un film, avec elle, et on se dilatait la rate.

Tiens, c'est ainsi que je veux me souvenir d'elle aujourd'hui, avec une grande joie pour la chance d'avoir vécu avec elle pendant de si bons moments.

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Liens connexes:

La petite étoile

O Prêmio Barão do Rio Branco (Maria Leonídia, 1977)

Em família

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sexta-feira, julho 22, 2022

Reescrever - nas Planícies de Abraham

 

Français

Escrevi este texto há muito tempo, quando participei de um grupo convidado pela antiga KBR Editora, liderado pela escritora Noga Sklar. Os personagens são fictícios. Hoje, o reescrevi com algumas adaptações e modificações. Lembrei-me da minha irmã, que redigia magnificamente, e me deu o seguinte conselho: escrever é a arte de cortar palavras... que não são necessárias, claro. Não me lembro de quem é o autor dessa frase. Segui o conselho, cortei palavras, até parágrafos inteiros 😊

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"A identidade dela sou eu."

A cidade de Québec nos mergulha numa sensação do universal, como se fosse a história de toda a humanidade e de cada um de nós. É como ir a Ouro Preto, percorrer o passado que nos forjou; é revisitar histórias que traçaram nosso destino e viraram vitrine de nós mesmos. Nem sempre nos orgulhamos de tudo o que aconteceu ali, mas não podemos mudar o passado. Há, pelo menos, tantos sonhos de justiça que viveram naquelas construções sólidas, na arquitetura da nossa ancestralidade.

Há um fascínio especial em caminhar pelas Planícies de Abraham, sobretudo quando sabemos que foram palco de batalhas que decidiram o futuro do Canadá. Impossível andar por ali sem pensar nisso, apesar de hoje ser um parque que nos transmite tanta paz.

Absorta nesses pensamentos, estava eu passeando no parque, numa manhã de domingo, desses de céu azul, azul, sem nuvens. Cheguei cedo para desfrutar do silêncio. Enquanto a cidade parecia ainda adormecida, o parque não dormia. Como sempre à escuta, oferecia seus mimos aos visitantes. Pequenos passarinhos, com sua habitual retórica, também lá estavam, balbuciando saudações matinais.

A natureza estava especialmente eloquente naquele dia. As folhas outonais, já caídas em grande número, estalavam esmagadas pelos meus passos, e aquelas que ainda estavam presas aos galhos das árvores resistiam ao vento e murmuravam velhas histórias de memórias distantes, ao sol tépido da manhã. Sentei-me em um banco no alto do parque, de onde podia admirar a beleza da paisagem, tendo diante de mim a vastidão do Rio São Lourenço, bom pano de fundo para o livro que queria ler.

Mal comecei a primeira página e percebi que chegava uma pessoa; com certa hesitação, sentou-se num banco quase em frente ao meu, de costas para o rio. Era um senhor idoso, pensei, e logo me corrigi: se o considero idoso, ele deve ser bem velho, pois idosa já estou eu, mesmo que na cabeça ainda me sinta jovem. Quando finalmente se sentou, levantei os olhos discretamente para vê-lo melhor e, um pequeno sobressalto, ele também me olhava, com um ligeiro sorriso. Sorri, também, e gaguejei um bom-dia. Ao que ele me respondeu que eu tinha a melhor vista do parque sentada naquele banco, que era seu favorito. Mais que depressa levantei-me e cedi-lhe o lugar, dizendo que minha intenção era ler, onde quer que eu ficasse seria bom.

— Há espaço para todos, se não se importar — disse ele, vindo sentar-se ao meu lado. — A senhora é madrugadora, chegou antes de mim.

— Desculpe-me, estou de passagem, não moro na cidade — retruquei, tentando ser amável e, ao mesmo tempo, tranquilizando-o quanto ao fato de que o lugar no banco não seria ocupado todos os dias.

Ele continuou sua conversa, que parecia mais um relatório de vida, fazendo-me concluir que não conseguiria avançar muito na leitura. Mas não me importei; ele parecia simpático e inofensivo e, visivelmente, estava precisando conversar.

— Depois que me aposentei, venho quase todos os dias respirar o ar puro do parque. Às vezes, eu vinha com minha esposa, antes da doença.

Ficou pensativo por um momento e prosseguiu:

— Hoje, penso naqueles tempos felizes da nossa juventude. Minha mulher e eu vivemos em tempos mais difíceis, não havia todos os recursos que há hoje para criar uma família, mas as preocupações eram todas superáveis. Depois, momentos dolorosos vieram, pois perdi minha companheira na batalha pela vida. Justamente eu, médico, que salvei a vida de muitos, não pude fazê-lo para a pessoa que amava tanto. Mas tenho a sensação de missão cumprida, porque estive sempre ao seu lado para confortá-la e dar-lhe o meu amor…

Após a morte de sua doce companheira, ele vendera a casa onde moravam e, como tantas outras pessoas da sua idade, optara por morar em um apartamento, num edifício desses construídos para abrigar idosos que ainda são capazes de cuidarem de si próprios. Ali ele esperava continuar, sem incomodar ninguém, até que viesse o momento de se juntar à sua querida.

E acrescentou:

— Desculpe-me incomodá-la com minhas histórias, por favor, continue sua leitura; tenho um compromisso, estou esperando alguém, não demorarei muito por aqui hoje. Dizendo isso, recostou-se, como quem não tem pressa.

Consegui ler algumas poucas linhas, enquanto o meu vizinho de banco cochilava. Aos poucos, outras pessoas chegavam ao parque, podia-se ouvir os gritinhos e as risadas alegres das crianças. Minha concentração na leitura esvaiu-se completamente no voo de dois lindos gaios azuis, que soltavam seus gritos com pleno vigor. Uma pequena rajada de vento cobriu nosso banco de folhinhas miúdas, como uma chuva de estrelas douradas. Pensei que, com tudo isso, o nosso dorminhoco acordaria, mas não, ele devia estar acostumado.

O sol preguiçoso de domingo se levantava e aquecia o parque. Olhei para as árvores em volta e percebi que as cores já tinham mudado muito. Havia vermelhos em vários tons, havia amarelo e laranja, verdes ainda vários… As folhas estavam brilhantes, pareciam ter luz própria. O outono estava em sua plenitude, o ciclo da vida seguia sua jornada com muita graça e, acima de tudo, sem sofrimento. Identifiquei-me com a natureza, tive a impressão de integrar-me a esse cenário esplêndido e completo em sua dimensão cíclica. Por alguns instantes, não senti necessidade de me fazer perguntas, compreendi e aceitei minha condição humana intuitivamente.

Um grande suspiro reteve a respiração do senhor ao meu lado por tanto tempo que ele acordou de seu cochilo, assustado. E percebeu uma lágrima descendo de seu olho esquerdo, sem o seu consentimento… Uma lágrima pesada, que seus dedos enxugaram instintivamente.

Neste momento, ouvimos os gritinhos alegres de seus netos o chamando, e ele me explicou que era seu filho mais novo que vinha buscá-lo, acompanhado de sua nora e netos; todos pareciam radiantes com o encontro. Apontando para Jérôme, o neto mais novo, ele disse: este tem os olhos suaves de minha mulher. E voltando-se para Marie-Ève, contou-me que ela também tinha herdado algo de sua avó: o mais belo sorriso do mundo.

Era hora de partir para a sua reunião dominical com a família. Tomou Jérôme nos braços e Marie-Ève deu-lhe a mão — seu filho e sua nora caminhando na frente, o avô atrás, com os netos e muitas histórias, lá se foram eles lentamente, deixando no parque vestígios radiosos de vida.

Compreendi a serenidade daquele homem. Ele teve a chance de viver num mundo civilizado que ajudou a edificar. Apesar de todas as dificuldades que teve que enfrentar, tinha feito a sua parte, tanto profissionalmente como em família. Seus filhos tinham sido bem educados, escolhido bem suas companheiras e estavam transmitindo essa boa herança para seus netos. Ele havia ajudado a povoar a Terra com pessoas boas, de bons princípios — isso valia os sacrifícios vividos, e poderia morrer em paz. Não havia sido inútil ter feito o melhor que pôde. Essa ideia me pareceu clara o bastante.

Fiquei ali nas Planícies de Abraham, esperando para me encontrar com meu marido. Ainda não era minha hora de partir.

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P.S.: Escrevi este texto há muito tempo, quando participei de um grupo convidado pela antiga KBR Editora, liderado pela escritora Noga Sklar. É ficção. Hoje, o reescrevi com algumas adaptações e modificações. Lembrei-me da minha irmã, que redigia magnificamente, e me deu o seguinte conselho: escrever é a arte de cortar palavras... que não são necessárias, claro. Não lembro quem é o autor dessa frase. Segui o conselho, cortei palavras, até parágrafos inteiros :-)

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Outono nas Planícies de Abraham

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Réécrire - sur les Plaines d'Abraham

 

Português 

J'ai écris ce texte ça fait longtemps, quand je participais d'un groupe invité par l'ancienne KBR Editora, dirigé par l'écrivaine Noga Sklar. L'original est en portugais, mais je l'avais écrit en français aussi. Les personnages sont fictifs. Aujourd'hui, je l'ai réécris avec quelques adaptations et modifications. Je me suis rappelée de ma sœur, qui rédigeait magnifiquement, et m'avait donné le conseil suivant: écrire est l'art de couper des mots (escrever é a arte de cortar palavras)... qui ne sont pas nécessaires, naturellement. Je ne me rappelle plus c'est qui l'auteur de cette phrase. J'ai suivi le conseil, j'ai coupé des mots, même des paragraphes entiers 😊

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"Son identité c'est moi."

La ville de Québec nous plonge dans une sensation de l'universel, comme si c'était l'histoire de toute l'humanité et de chacun de nous. C’est comme parcourir le passé qui nous a façonnés; c’est comme revisiter les histoires qui ont forgé notre destin et sont devenues la vitrine de nous-mêmes. On n’est pas toujours fiers de tout ce qu’il est arrivé, mais on ne peut pas changer le passé. Au moins, il y a tant de rêves de justice qui ont vécu dans ces constructions solides, dans l’architecture de l'ancestralité.

Juste de se promener sur les Plaines d’Abraham, il y a quelque chose qui magnétise, surtout quand on sait qu’elles ont été la scène des batailles décisives pour l’avenir du Canada. Impossible de marcher sur ces champs sans penser à cela, malgré la paix que le parc nous transmet aujourd’hui.

Absorbée dans ces pensées, je me promenais dans le parc un dimanche matin, le ciel bleu, bleu, sans nuages. Je suis arrivée tôt pour profiter du silence, tandis que la ville semblait encore dormir. Le parc ne dormait pas. Toujours à l’écoute, il s’offrait généreux en petits soins, pour accueillir les visiteurs. Les mésanges, entre autres, avec leur habituelle éloquence, étaient toujours là, prêtes aux salutations matinales.

La nature était spécialement bavarde cette journée-là. Les feuilles automnales, tombées déjà en grand nombre, craquaient écrasées par mes pas, et celles encore accrochées aux branches des arbres résistaient au vent et murmuraient de vieilles histoires de souvenirs lointains, au soleil frais du petit matin. Je me suis assise sur un banc placé en haut, d’où je pouvais admirer la beauté du paysage. Devant moi, la vastitude du fleuve Saint-Laurent était la toile de fond parfaite.

Je venais de commencer à lire un livre, et j’ai remarqué qu’une personne arrivait; avec une certaine hésitation, le monsieur choisissait un banc en face. C’était un vieux monsieur, j’ai pensé, puis je me suis corrigée: si je le considère vieux, il doit être très vieux parce que moi, je suis déjà vieille, même si je me sens encore jeune dans ma tête. Quand il s’est finalement assis, j’ai levé mes yeux discrètement pour le voir mieux, et un petit sursaut, j’ai vu qu’il me regardait également, avec un léger sourire. J’ai souri aussi et bégayé un timide bonjour.

Il m’a répondu et m’a fait savoir que j’avais la meilleure vue du parc, assise sur son banc favori. Je me suis levée rapidement et je lui ai offert ma place, je ne voulais que lire, n’importe où j’étais ce serait bon.

- Il y a de la place pour tout le monde, si cela ne vous dérange pas – a-t-il dit et s’est assis à côté de moi – vous êtes une lève-tôt, madame, vous êtes arrivée avant moi.

- Excusez-moi, je suis de passage, je ne viens pas d'ici - je lui ai dit pour essayer d'être gentille et en même temps le rassurer du fait que le banc ne serait pas occupé tous les jours.

Et il a continué sa conversation, qui ressemblait plus à un rapport de vie, ce qui m’a fait conclure que je n’avancerais pas beaucoup dans la lecture. Mais cela ne me dérangeait pas, il avait l'air gentil et inoffensif et, clairement, il avait besoin de parler.

- Après ma retraite, je viens presque tous les jours, pour respirer de l’air pur du parc. Parfois, je venais avec ma femme, avant qu’elle ne tombe malade.

Il est resté pensif un instant et a repris:

- Aujourd’hui, je pense aux temps heureux de notre jeunesse. Ma femme et moi, nous avons vécu dans une époque où tout était plus difficile, il n’y avait pas toutes les ressources d’aujourd'hui pour élever une famille, mais les soucis étaient tous surmontables. Des temps plus pénibles sont venus, car j’ai perdu ma compagne dans la bataille pour la vie. Justement moi qui ai sauvé la vie de beaucoup, en tant que médecin, je ne pus le faire pour l’être que j’aimais tellement... Mais je garde le sentiment de mission accomplie, car j’étais toujours à ses côtés pour la réconforter et pour lui apporter mon amour...

Après la mort de sa douce compagne, il a vendu la maison où ils vivaient et, comme tant d'autres à son âge, a choisi de vivre en appartement, dans un immeuble de ceux construits pour les personnes âgées qui sont encore autonomes. C’est là qu’il espère continuer à vivre, sans déranger personne, jusqu'à ce qu'il vienne le temps de rejoindre sa bien-aimée.

Et il a ajouté:

- je suis désolé de vous déranger avec mes histoires; s'il vous plaît, continuez votre lecture; j’ai un rendez-vous, j’attends quelqu'un, je ne serai pas longtemps ici, aujourd'hui. Cela dit, il s’est penché en arrière, pas pressé.

J’ai lu juste quelques lignes, alors que mon voisin était assoupi. Peu à peu, d’autres personnes ont commencé à arriver au parc, on entendait les petits cris et les rires joyeux des enfants. Ma concentration s’est évanouie complètement au vol des beaux geais bleus, qui lâchaient leurs cris pleins de vigueur. Un petit coup de vent a amené de petites feuilles de tremble sur lui. Elles sont tombées comme une pluie d’étoiles en or. J’ai pensé que notre dormeur se réveillerait, mais non, il devait être habitué.

Le soleil de dimanche montait paresseux et réchauffait le parc. J’ai regardé les arbres autour de moi et j’ai remarqué que les couleurs avaient déjà beaucoup changé. Du rouge en plusieurs tonalités, du jaune à l’orange, encore du vert… Les feuilles étaient brillantes, elles semblaient avoir leur propre lumière. L'automne était à sa plénitude, le cycle de la vie suivait son cheminement en beauté et, surtout, sans chagrin. Je me suis identifiée avec la nature, j’ai eu l’impression de m’intégrer à ce scénario splendide et complet dans sa dimension cyclique. Pour quelques instants, je n’ai pas eu besoin de me poser des questions, j’ai compris tout intuitivement, j’ai accepté ma condition humaine.

Un gros soupir a retenu le souffle du monsieur pendant un moment assez long pour qu’il se réveille de son état d’absence. Et il a remarqué une larme qui coulait, à son insu, de son œil gauche… Une lourde larme que ses doigts ont jointe instinctivement.

À ce moment, on a entendu les cris joyeux de ses petits-enfants l’appeler et il m’a expliqué que c’était son fils plus jeune, sa femme et leurs enfants, tous radieux de le rencontrer. C’était l’heure de partir pour son rendez-vous de dimanche.

Il a pris dans ses bras son petit-fils Jérôme, qui le regardait avec les beaux yeux doux de son épouse et sa petite-fille, Marie-Ève, lui a donné sa petite main. Elle aussi avait hérité quelque chose de sa grand-mère, le plus beau sourire qu’il n’y a. Son fils et sa belle-fille marchaient en avant, le grand-papa en arrière avec les petits-enfants et beaucoup d’histoires, ils sont partis lentement, en laissant des traces rayonnantes de vie dans le parc.

J’ai compris la sérénité de cet homme. Il a eu la chance de vivre dans un monde civilisé qu’il a aidé à bâtir. Ses enfants avaient été bien élevés, avaient bien choisi leurs compagnes et ils transmettaient ce bon héritage à ses petits-enfants. Il avait aidé à peupler la Terre avec de bonnes personnes et ceci valait le coup de vivre et de mourir en paix. Ce n’était pas inutile d’avoir fait de son mieux. Cette idée me semblait assez claire.

Je suis restée sur les plaines d'Abraham, j’attendais l'heure de rejoindre mon mari. Il n’était pas encore le temps de partir.

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P.S.: J'ai écris ce texte ça fait longtemps, quand je participais d'un groupe invité par l'ancienne KBR Editora, dirigé par l'écrivaine Noga Sklar. L'original est en portugais, mais je l'avais écrit en français aussi. C'est de la fiction. Aujourd'hui, je l'ai réécris avec quelques adaptations et modifications. Je me suis rappelée de ma sœur, qui rédigeait magnifiquement, et m'avait donné le conseil suivant: écrire est l'art de couper des mots (escrever é a arte de cortar palavras)... qui ne sont pas nécessaires, naturellement. Je ne me rappelle plus c'est qui l'auteur de cette phrase. J'ai suivi le conseil, j'ai coupé des mots, même des paragraphes entiers :-)

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