sábado, abril 25, 2015

Not made in China



Acho interessante conhecer outras culturas e tenho esta oportunidade aqui no Canadá, que é um país aberto à imigração. Os chineses, por exemplo, estão cada dia mais presentes aqui, o chinês já é a terceira língua mais falada, após o inglês e o francês.

Outro dia, fomos jantar em casa de amigos, uma família harmoniosa, casal e dois filhos pré-adolescentes. Quando nos reunimos, sempre surgem temas que enriquecem a nossa bagagem cultural, devido ao caráter “internacional” dos encontros. Ele e meu marido são canadenses, ela chinesa e eu brasileira.

Assunto é o que não falta, na China é assim, no Brasil é assado, o Canadá gelado... E por aí vai, c’est la vie. 

O casal se conheceu na China, em uma universidade, mas o nosso amigo não abria mão de morar no Canadá, pois, segundo suas palavras, a liberdade de que desfrutamos aqui é algo que não se troca por nada. Ela cedeu, embora fosse uma professora de sucesso lá, orgulhosa de seu país, do povo e seus costumes. Como diz Adélia Prado, “Mulher é desdobrável”. 

Os filhos nasceram aqui e falam como quebequenses que são, obviamente. Aprenderam chinês com a mãe e conversam com os avós chineses uma vez por semana, pela internet, o que os mantém em dia com a língua e com as origens maternas.

São verdadeiros chinesinhos na aparência, aos nossos olhos, porém não aos olhos dos chineses. E justamente por causa dos olhos, em ambos os pareceres... Bom, há todas as outras características também, não percebo a diferença em relação aos chineses sem mistura.

Não deve ser fácil para uma pessoa viver num lugar onde sua aparência é diferente daquela da maioria das outras. Pensei que isso lhes traria problemas aqui, desde que soube de alguns comentários quando eles ainda eram pouco mais que bebês. E eu tinha razão.

Quando eram pequenos, as pessoas desconhecidas os ouviam falar e diziam:
- Que gracinha, eles falam exatamente como nós, quebequenses.
O mais velho, que estava mais adiantado no chinês, retrucava:
- Eu sei falar chinês.
Imagino que lá dentro da sua cabecinha havia interrogações e exclamações: “Hã? Claro que eu falo como eles, eu também sou quebequense! A língua que faz diferença que eu fale é o chinês!”. 

Certa vez, já faz alguns anos, eu estava no pequeno “shopping” da nossa cidadezinha, quando vieram correndo os dois pequerruchos:
- Maria , Maria[1]! Bonjour!
E entre abraços e beijinhos, muitos - Je t’aime!
São crianças irresistivelmente adoráveis. 

Em seguida, chegou o pai. Enquanto conversávamos, não me lembro, mas provavelmente sobre trivialidades do clima canadense – alguma nevasca, sem dúvida – veio-se juntar a nós uma outra conhecida minha, por coincidência, prima do pai dos meninos. Eles não se viam há muitos anos e ela ainda não conhecia os priminhos. Após todas aquelas considerações de praxe, foram-se embora os três, a mil por hora, como sempre. Fiquei com a minha conhecida, pondo os assuntos em dia. 
E ela me solta esta:
- Não sabia que meu primo tinha adotado chinesinhos.
- Não, não são adotados, é porque a mulher dele é chinesa – fui logo me apressando em explicar e desfazer o seu equívoco.

Ela, pelo menos, esperou que a família fosse embora para dizer isso. Mas houve outros episódios semelhantes, mesmo na escola que frequentam, lamentavelmente na presença das crianças e diretamente com elas, conforme nos contaram seus pais. Claro que, sendo o pai louro de olhos azuis, o contraste é grande e pode induzir a pensar em adoção, mas sabe-se muito bem que os traços dos povos asiáticos prevalecem na maioria das vezes.

O resultado disso tudo nós vimos na última vez em que fomos visitá-los. O menino estava usando uma camiseta em que estava escrito: “Not made in China”. Seus pais nos disseram que ele faz questão de ir para a escola com esta camiseta. E a menina não quer mais que a fotografemos. Ela que sempre fez tantas poses sorridentes para a minha câmera, agora não quer mais. Não disse por que razão, mas fiquei matutando: “Uai, por que será? Talvez porque lhe tenham dito que ela é diferente... “

Isso me entristece tanto! Vi essas crianças crescerem e me afeiçoei a elas, pessoinhas tão educadas e gentis... Agora estão com um certo quê de amargura, com problemas de identidade, coisa difícil de lidar. Menos complicado, no entanto, porque não é um problema que se origina na maneira como eles próprios veem o mundo, eles são normais. É uma atitude de outros que lhes causa embaraço. Felizmente, são muito inteligentes e os pais são gente muito lúcida e já estão trabalhando para que a situação não assuma maiores proporções. 

Sei que nas escolas, as próprias crianças, muitas vezes sem maldade, fazem perguntas ou comentários dirigidos àqueles que possuem alguma característica diferente dos outros. Até certo ponto, isso é normal, porque estão aprendendo a conhecer o mundo que as rodeia. Mas, algumas vezes, aprendem com os adultos a fazerem discriminações. 

E essa atitude não se limita ao âmbito doméstico e escolar. O próprio governo canadense, a meu ver, adota um sistema discriminatório quando pretende promover a igualdade de chances no mercado de trabalho. Em muitos casos, principalmente quando se trata de admissão à função pública, o candidato a um emprego deve preencher um formulário no qual, além de todas as perguntas relativas ao Curriculum Vitæ, tem que se classificar no caso de pertencer a uma fatia minoritária da população, marcando a opção que lhe couber segundo a língua materna, cor da pele, origem étnica e sei lá o que mais. Se fosse só pela igualdade de direitos, acho que a melhor conduta seria não perguntar nada disso. Aí sim, todos estariam sendo tratados igualmente, não?

Um desses grupos demográficos é o que eles chamam de “minorias visíveis”, definidas como pessoas outras que não autóctones, que não sejam da raça branca ou que não tenham a pele branca. Neste grupo se enquadram negros, mestiços, chineses, japoneses etc. E os meus amiguinhos, será que mesmo sendo canadenses terão que se enquadrar nessa categoria? Fui ler esta classificação no texto da lei e constatei que sim, eles serão classificados como fazendo parte das minorias visíveis. O critério é aplicado até a segunda geração, isto é, mesmo os nascidos no Canadá, se um dos dois genitores for imigrante.

Na minha opinião, as cores da pele, do cabelo e dos olhos são dados aceitáveis para constar em documentos de identidade, como complemento ao retrato, para não deixar dúvidas, pois é claro que a função de tais documentos é identificar. Mas etiquetar as pessoas conforme sua origem étnica, tipo físico e outros babados, para fins de inserção no mercado de trabalho, convenhamos que é um atraso monumental! Inaceitável num mundo que pretende ser desenvolvido.

Se esse é um procedimento difundido também em outros países, não é de causar surpresa que existam tantos conflitos. O ser humano ainda tem muito que evoluir!


[1] Aqui eu sou chamada de Maria, pronunciado Mariá no Canadá francófono, com a imutável tendência oxítona da língua francesa.
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Publicado também pela KBR Editora Digital:
http://www.kbrdigital.com.br/blog/not-made-in-china/

sábado, abril 18, 2015

Intraduzível


Aviar uma receita só não é coisa relegada a segundo plano, porque as pessoas estão cada vez mais tomando remédios para tudo quanto há... e mesmo para o que não há. Mas tornou-se uma atividade paralela, digamos assim, nas farmácias de hoje em dia, que se transformaram em verdadeiras lojas de departamento. Acha-se de tudo, até mesmo estúdio de fotografia credenciado, com direito a tirar retrato para documentos oficiais.
Com o envelhecimento da população canadense, esses estabelecimentos também se transformaram em ponto de bate-papo para os mais idosos e aposentados, principalmente no final do mês, quando recebem suas pensões. Vem-se tornando cada vez mais frequente vê-los na sala de espera do laboratório da farmácia, aproveitando para pôr as notícias em dia, enquanto aguardam sua receita ser aviada.
                Há muitos itens dos quais a compra é mais vantajosa numa farmácia do que no supermercado. Uma vez ou outra, dou uma passadinha pelo departamento de produtos de higiene pessoal, para procurar por desodorantes como os que eu usava no Brasil, tipo spray sem gás comprimido e que não sejam antiperspirantes; daqueles modelos em que a pressão se faz apertando o próprio frasco ou, quando muito, com aquele tubinho com uma bombinha na tampa, para provocar o esguicho. A procura é quase em vão, pois os desodorantes são quase todos vendidos ou em aerossol, ou em bastões, aqueles detestáveis roll on, ou em cremes e loções.
Faço essa busca há anos e raramente encontro, mas não desisto. Existem algumas poucas marcas que oferecem o produto dentro das minhas exigentes especificações. Quando os vejo nas prateleiras, que é coisa rara, compro mais de um, para ter uma reserva, pois nunca sei se vou achar de novo. Confesso que isso se transformou quase numa obsessão, embora eu leve para o lado do divertimento, como um jogo em que se procura um tesouro escondido.
                Falar de desodorante parece um assunto insignificante e até impróprio, diria minha mãe em voz baixa, imbuída pela recatada discrição que o tema requer para alguém do início do século passado... Mas, desculpem-me, torna-se relevante para quem está com a mala cheia de vazios de sua terra natal, seja por metáfora ou pela realidade da mala vazia de fato, guardada já sem nenhum daqueles produtos trazidos da última viagem ao Brasil.
Reconheço que não deveria sequer pensar nisso, considerando tanta coisa que minha família envia, para satisfazer meus caprichos. O carteiro de nossa cidade já até conhece as embalagens do correio brasileiro. Mesmo se o endereço não estiver certo, os pacotes chegam ao destino – mas vai que o carteiro muda, melhor estar com o endereço escrito direitinho.
Esse negócio de se instalar num outro país depois de adultos, nos faz vivenciar um sem-fim de superações, com inopinadas etapas de adaptação e aprendizado, inimagináveis antes de passar pela experiência. A tal homesickness tem mil e uma formas de se manifestar e, às vezes, nos surpreende, como se não fôssemos os protagonistas da nossa própria história. Nem vou mencionar aquela palavra intraduzível, para não reavivar outros vazios.
É claro que há compensações, e não são poucas;  sempre há vantagens e desvantagens em viver aqui ou lá...
Pensando nessas e outras quimeras, enquanto procurava o meu produto nas prateleiras, escutei uma conversa confusa de um grupo de pessoas, vindo da mesma ala onde eu me encontrava. Olhei discretamente para o lado onde estavam e vi três homens que se alternavam na vã tentativa de explicar, em espanhol, o que queriam comprar. Duas jovens responsáveis pelo atendimento à clientela se debatiam ora em inglês, ora em francês, gestualizando formas de objetos e suas funções, sem sucesso. Realmente em apuros, as atendentes já começavam a falar alto, como se o problema dos rapazes fosse surdez. Eles, sem alterar o tom de voz, pareciam serenos e repetiam as mesmas frases várias vezes, como se pudessem se fazer entender, por força da insistência.
Outros clientes começavam a aparecer de todos os lados, com ares de indagação, ninguém se arriscava a entrar no embate linguístico, que permanecia em empate técnico. Um dos curiosos chegou a lamentar que só sabia falar “Hola”, não seria de grande serventia. Sem demora, veio a farmacêutica, triunfalmente a passos largos, pelo corredor, entre clientes e prateleiras. Ela deve saber espanhol, pensei. E todos aguardavam o desfecho, otimistas como eu.
Não, ela não falava espanhol, e foi aí que se deu o desempate; os três clientes estavam prestes a desistir e ir embora, somente com as parcas mercadorias que já tinham juntado no carrinho de compras.
Mas eu compreendia o que eles diziam, que estava fazendo ali parada? Peguei aquela comichão de tentar ajudar e lá fui eu, um pouco temerosa, praticar meu fraco “portunhol”. Feitas breves apresentações, anunciei a possibilidade de tentar traduzir alguma coisa. Eles eram mexicanos, ainda bem, pois eu acho que têm uma pronúncia mais inteligível. Felizmente, consegui o intento de ajudá-los. Os clientes foram me dizendo o que queriam e eu fui anotando a lista traduzida num papelzinho, não sem passar por alguma mímica, e entreguei às empregadas da farmácia, que não me deixaram ir embora enquanto tudo não ficasse resolvido. Ganhei meu dia por ter feito aquela boa ação.
Gracias, gracias, gracias...
Na primavera, verão e início do outono, período em que os agricultores daqui aceleram sua produção, mexicanos e outros estrangeiros originários de países da América Central são contratados para trabalhar nas fazendas canadenses: são os trabalhadores estrangeiros agrícolas sazonais. Aliás, como de costume, tudo aqui é sazonal. Quando chega o frio, eles partem de volta aos seus países, levando as economias que fizeram. Na curta temporada de calor do Canadá, eles ganham mais dinheiro do que se trabalhassem o ano inteiro onde vivem.
Creio que esta é uma boa estratégia do governo canadense. Pelo menos é a ideia que se tem por aqui: ao mesmo tempo que se garante o crescimento da produção do país, esses outros povos recebem ajuda. Antigamente, eram as famílias dos proprietários que trabalhavam nas fazendas; os filhos eram numerosos e davam conta do recado. Atualmente, falta mão de obra para uma produção agrícola cada vez maior e os empregados sazonais vêm preencher essa lacuna.
Não sei se esse método traz benefícios verdadeiros aos países desses trabalhadores, mas parece que sim, pois cada vez maior número de candidatos se inscreve, com o aval dos governos. Será que é bom mesmo?
Como as aves migratórias, no outono, eles voltam para o sul. Fico imaginando a alegria que sentem quando chegam em seus lares. Com que ansiedade suas famílias devem esperá-los, quanto afeto guardado durante meses! Deve ser uma grande festa, todo ano.
E eu, de volta às minhas quimeras, me lembro de uma conhecida e pragmática curiosidade, de um sul mais longínquo:
- E afinal, achou o desodorante? – cochicha Dona Esther, escondendo parcialmente a boca com a mão.
- Achei, sim, mãezinha. Besitos!

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Publicado também pela KBR Editora Digital em 18 de abril de 2015
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sábado, abril 04, 2015

Em busca da lucidez

Crônica também publicada pela KBR Editora
http://www.kbrdigital.com.br/blog/em-busca-da-lucidez/



Tenho acompanhado o drama brasileiro tão atentamente pelas notícias dos jornais e pelas redes sociais, que estou me sentindo in loco. Num certo momento, vi o Brasil ficar praticamente dividido em dois: os que estavam do lado do governo eleito em 2014 e os que estavam contra. Ofensas mútuas, chacotas, vitupérios cruzaram o território nacional em todas as direções, como flechas envenenadas que chegaram a estremecer amizades. O país parecia uma grande família em conflito e estresse. Sofri muito com isso, tive uma “Quaresma” prolongada… assez, merci.

Enquanto isso, os depoimentos vomitados pelos mais que premiados delatores continuam revelando a lama em que estão atolados políticos, empresários, governos e funcionários. E novas operações de investigação estão descobrindo mais falcatruas, que parecem não ter fim. Um escândalo ainda não acabou de ser resolvido e outros já fazem manchete nos jornais.

Com isso, parece que a população entrou num processo semelhante a um ato de contrição, talvez algo como uma penitência, ou quem sabe, uma terapia familiar —abriram-se as cortinas para um segundo ato. Provavelmente atordoadas pela constatação do envolvimento de tanta gente em corrupção — seja pela direita, pelo centro, pela esquerda, no presente ou no passado — muitas pessoas estão concluindo, intempestivamente, que a contaminação é geral. Estão dizendo que todos os brasileiros nutrem o germe da degradação moral, com atitudes comprometedoras que já começam a brotar na interação entre pais e filhos e que se refletem na vida adulta. Li vários textos fazendo esse tipo de acusação, por vezes com conteúdo autopunitivo mesmo: os dardos agora se voltaram contra a brasilidade como um todo.

Além de injustificada e difamatória, enquanto atribuída ao povo de forma generalizada, acho essa conclusão nefasta, pois, ao colocar a atitude corrompida como regra geral, serve sordidamente para atenuar a culpa daqueles legalmente acusados.

Acredito que o autoexame seja um processo válido e de utilidade em muitos casos. Mas quando se trata da análise de um povo, prefiro deixar estudo e conclusões, para que sejam de algum proveito, aos estudiosos de Antropologia, Sociologia, whatever, com especialização na pesquisa sobre esse mesmo povo. No meu entender, o assunto é muito complexo, não basta fazer parte dessa população para dar diagnósticos e prognósticos.

Por curiosidade, fiz uma busca na internet por “percentuais de honestidade do povo”, achando que não encontraria nada. Pois não é que achei? Já foram feitas várias pesquisas em várias cidades do mundo, em forma de testes, e os resultados nas cidades brasileiras não foram dos piores. Mas não acredito na validade desses trabalhos, me pareceram superficiais.

Não conheço percentuais fidedignos de “honestidade do povo” e imagino que deva ser muito difícil avaliar esse parâmetro. Mas há fortes indícios de que ela ainda exista no país. Apesar de não ser assunto da minha área de pesquisa, posso afirmar que, felizmente, ainda há muitos brasileiros que têm dignidade. Prova evidente disso são esses mesmos textos e comentários que mencionei ter lido em jornais, revistas, blogs e redes sociais, em que os autores tentam a análise da situação honestamente, pois são honestos, advogando a urgência de um Brasil mais limpo.

Realmente, é preciso estabelecer tolerância zero para todo tipo de desonestidade, mesmo para atos do cotidiano que parecem inócuos, mas que na verdade estão contaminados pela perniciosidade. Como um caso que presenciei numa fila de banco no Brasil, já faz muito tempo, um exemplo desses atos do dia a dia que, apesar de “pequenos”, são na verdade tão desonestos quanto qualquer outro.

Estava eu aguardando pacientemente minha vez, no último lugar de uma fila de oito, quando chegou uma jovem senhora fazendo uma vistoria no ambiente, como se procurasse alguém. Rapidamente, ela vislumbrou uma pessoa mais à frente na fila. Apressando o passo, com um discreto sorriso nos lábios, se dirigiu a uma outra jovem que estava a dois clientes de ser atendida pelo  caixa. Após amáveis cumprimentos entre as duas, que falavam suficientemente alto para chamar a atenção de todos, eis que a recém-chegada baixou o tom da voz, ao mesmo tempo que entregava uns papeluchos à outra.

Notei que as pessoas na fila começaram a se movimentar com impaciência, como se dessem passos sem sair do lugar. Uma ou outra olhava para os que estavam atrás dela, como se estivesse sondando a disposição do outro para reclamar primeiro. Toda essa tensão se desfez quando ouvimos a jovem da fila dizer à amiga (da onça), alto e bom som, que lhe deixaria o seu lugar e que iria para o último lugar da fila; ela que, naquele instante, já era a próxima a ser chamada a qualquer momento. Teria sido alegado algum motivo de urgência?

Espantada, a amiga foi mudando de cor; de lívida passou a um rubor que quase parecia inspirar cuidados. Muito envergonhada, recusou a oferta, dizendo: “Eu que vou”. Tentava segurá-la no seu lugar mas a outra insistia, gesticulando veementemente para se desvencilhar e se dirigir ao último lugar. Em vista daquele impasse, a revolta dos outros transformou-se em vergonha alheia para a furadora de fila. Para pôr pano rápido, mais do que por bondade, alguém disparou:

— Valeu a lição, gente, vamos deixar as duas lá na frente!

Os outros aceitaram, sei lá se de bom ou mau grado. Por sorte da aprendiz de honestidade, dois caixas livres naquele instante chamavam o próximo, como um gongo que a salvava da vergonha de encarar os outros, saved by the bell.

De minha parte, posso dizer que ganhei o dia por ter presenciado a atitude heroica daquela jovem, que preferia se prejudicar a ser conivente com algo errado.

Antes fossem só casos como esse da fila. Acontece que o brasileiro honesto está passando por uma fase terrível, cercado, massacrado e roubado por criminosos de todos os lados: governantes e políticos em conluio com empresários corruptos, sem esquecer os criminosos de rua, que estão aniquilando o cotidiano do cidadão.

Mas não se pode abdicar da dignidade em hipótese alguma. É preciso abrir as cortinas para um terceiro ato e concluir a terapia, nos conscientizarmos de que nem estamos de acordo com desvios de conduta, nem com conflitos. Não é este o padrão que almejamos para a família Brasil.

Que possamos pensar e agir de forma lúcida para clarear os caminhos obscuros pelos quais tropeça a nossa nação.

Um bom domingo de Páscoa para todos!

sábado, março 28, 2015

Por que Cuba?

Foto by Maria do Carmo
A primavera é realmente um espetáculo maravilhoso! Principalmente quando é tão desejada, depois do longo e tenebroso inverno que tivemos na maior parte do Canadá. Ainda estamos padecendo com temperaturas abaixo do normal para o período, mas o silêncio glacial já começa a ser substituído pelo barulho das águas dos rios que degelam, pelos cantos e gritos das aves, por vezes até assustadores. A gente nem precisa de despertador, pois mal o dia começa a clarear, ainda com tênues alvores, e os alarmes da natureza disparam. Os pássaros deram para cantar tão forte nos últimos dias, que parecem estar reclamando do frio que ainda está fazendo. Eu, para dizer a verdade, já estou quase fazendo panelaço contra uma senhora que não é Presidente mas comanda tudo por aqui, a “Dame Nature”.
As aves migratórias já estão chegando para aumentar ainda mais a algazarra. Também os “snowbirds” estão voltando. Esse é o apelido dado àquelas pessoas que não aguentam mais passar o inverno nesse frio intenso e viajam para o sul dos Estados Unidos, onde permanecem por aproximadamente seis meses. São aposentados que têm um dinheirinho a mais para isso, claro. Alguns têm veículos recreativos enormes, que são casas muito bem equipadas. Outros têm casa própria ou alugam imóveis nos locais para onde migram.
Para os trabalhadores, pobres mortais, restam as curtas férias a que têm direito. Na maioria das províncias do Canadá, o empregado pode tirar férias de 2 semanas após 1 ano de trabalho numa empresa, e adiciona-se mais uma, num total de três semanas após 5 anos. A época em que se pode tirar férias varia segundo critérios de antiguidade e de acordo com períodos disponíveis autorizados pelo empregador.
Oba! Eu podia tirar duas semanas contínuas de férias em fevereiro e uma outra semana em setembro! “Vamos a la playa”! Lá fomos nós, em fevereiro de 2010. Foi a primeira vez que eu me permiti viajar para fora do Canadá, que não fosse para ir ao Brasil.
Por que Cuba? Eu nunca tinha pensado em ir lá. Várias razões foram-me apresentadas e é claro que a principal era dar uma pausa no rigoroso inverno canadense; mesmo uma curta pausa faz grande efeito. Cuba não é muito longe daqui, pelo menos em comparação à Pátria amada; eu tive que concordar com esse argumento do meu marido, pois contávamos com pouco tempo disponível. Não é necessário tomar precauções drásticas, ou seja, não são necessárias vacinas, que seriam fortemente recomendadas se fôssemos a outros países caribenhos ou ao Brasil. Acabei me convencendo também por causa dos preços – não é caro. É um dos destinos de sol preferidos dos canadenses. O Canadá foi um dos raros países ocidentais que não cortaram relações com Cuba.
Uma das providências a tomar antes de viajar foi passar numa loja, como nossa agente de viagem havia sugerido, para comprar itens de alguma utilidade. Nada de muito sofisticado, até mesmo escovas de dente seriam apreciadas pelo povo cubano. Segundo ela, eles são carentes de tudo. Inicialmente, eu achei aquilo um pouco estranho, será que eles não iriam-se ofender? Escova de dente? Mesmo assim, fiz o que fora recomendado.
Num voo direto de Montreal a uma daquelas ilhas a nordeste de Cuba, chegamos à nossa destinação, um all-inclusive resort, que faz parte de um complexo hoteleiro ali situado, onde passamos uma semana. Impressionante a quantidade de quebequenses, parecia uma festa no Quebec.
Havia dois “pesos” em Cuba, quando lá estivemos, não sei se ainda funciona assim. Para o turista, a taxa de câmbio estava a 1,00 Dólar canadense para 0,85 Pesos, no dia em que chegamos.
Os veículos no estacionamento do hotel chamaram minha atenção. Novíssimos! Pertenciam a diretores do resort e outros eram usados para levar os turistas a passeio na pequena ilha. Onde estavam os famosos carros antigos, que tanto vemos em fotos de Cuba? Eu não entendi e fiquei até um pouco desapontada.
Os funcionários, sempre com gentileza a toda prova, além de um profissionalismo impecável, tinham, muitos deles, formação universitária e eram poliglotas, falando no mínimo 3 línguas: inglês, francês e, obviamente, espanhol. Também nada a reclamar do sol e do mar que estavam esperando por nós. Fomos de sorte, tivemos bom tempo durante toda a semana. A areia branca e fina, o mar azul-turquesa intenso! Lindo!
Aquelas lembrancinhas sugeridas pela agente de viagem foram mesmo muito apreciadas pelo pessoal que trabalhava no hotel, ela tinha razão. Mas não posso me esquecer de um vendedor de bijuterias artesanais, que tinha autorização para vender dentro do território do hotel, ao perceber que eu falava "portunhol", que era brasileira, me pareceu mais à vontade em oferecer trocar suas mercadorias por qualquer coisa que pudesse ser útil. Fui correndo ao quarto buscar alguns daqueles itens que havíamos levado, meu marido foi logo separando várias camisetas e eu disse que daria tudo e não levaria nada em troca. Prudentemente, meu marido convenceu-me a trocar sim, senão seria esmola. A alegria nos olhos do vendedor, quando lhe entreguei o que tinha, foi algo tocante. E, afinal, eu também fiquei bem contente em poder escolher uma bela bijuteria.
Como em todo resort, também não faltaram atividades e animadores para divertir os hóspedes: shows, cursos de dança, ginástica etc etc. Para a minha surpresa, em quase todos os jogos de adivinhação e testes, os temas giravam em torno de músicas e filmes americanos: de que filme é tal música? Qual o ator principal de tal filme? Isso me deixou intrigada, dada a inimizade entre Cuba e Estados Unidos. E mais, toda a equipe do hotel que animava os shows e competições, tinha um jeito engraçado de dizer adeus à pessoa que perdia nos jogos; eles diziam: "Ciao, ciao, Mickey Mouse". Eu cheguei a duvidar de que eles detestassem tanto assim os americanos e até comentei intramuros minha impressão de que após a morte de Fidel Castro, os cubanos iriam voltar aos braços dos Estados Unidos. E nem foi preciso que ele morresse, as pazes já foram feitas. Acho que o povo cubano deve estar muito alegre com isso.
De acordo com o nosso guia de turismo, o investimento nestes hotéis era uma experiência que o governo cubano estava fazendo, com 50% pagos pelo Estado e 50% privado – de um outro país que ele não revelou. Suponho que fosse a Espanha, pois toalhas, copos, tudo era “Hecho en España”. Ele também disse que existia um contrato estabelecendo datas – depois de alguns anos eles decidiriam o que fazer – nacionalizar tudo, privatizar ou manter da mesma maneira. E todo esse relato foi feito numa conferência sobre Cuba, para os turistas – coisa oficial.
Pensando nisso agora, fico me perguntando que destino terão todos os investimentos que Dilma Rousseff fez e está fazendo na ilha com o dinheiro do povo brasileiro, ou seja, retirado do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social). Não entendo como e o quê poderemos lucrar. Mesmo porque se o governo do Brasil sonha em ter algum retorno, é bom lembrar que o governo da ilha se reserva o direito de nacionalizar tudo o que lhe caia nas mãos, seja o que for e quando bem lhe aprouver. Será que ficaremos a ver navios?
O hotel estava ótimo, mas eu estava muito interessada em reservar uma excursão para as cidades localizadas na ilha maior, porque queria conhecer a "verdadeira Cuba", nas palavras do próprio guia cubano. Havia várias opções de excursão, eu escolhi uma que oferecia mais opções para conhecer as pessoas e as suas tradições: 75 Pesos por adulto.
Não há população residente nessas pequenas ilhas da região nordeste de Cuba, apenas hotéis. A maioria das pessoas que trabalha ali vive na cidade de Morón. Para atravessar o mar e estabelecer a comunicação entre as pequenas ilhas e a llha maior, uma estrada foi construída com rochas dispostas nas partes mais rasas do oceano. É uma estrada muito sólida que tem resistido a muitos furacões, segundo o guia. A viagem dura uma hora e meia. Então, o pessoal que trabalha no hotel gasta três horas na estrada todos os dias. A estrada é rigorosamente vigiada para impedir a passagem de pessoas não autorizadas. Os cubanos não têm direito de ir a estas ilhas, a não ser que trabalhem lá. ISSO MESMO! Só com autorização especial do governo.
Nas cidades, finalmente vi os velhos carros americanos ainda em uso. Bicicletas são muito usadas e trishaws (rickshaws) são frequentes como táxi. Visitamos uma fábrica de charutos. As mulheres desempenham um papel importante nessa produção, havia apenas mulheres ali. Um detalhe: nenhum sorriso. Achei a passagem por esta fábrica constrangedora.
Tive a impressão de muita pobreza em todos os lugares que visitamos. Pudemos constatar que consumismo realmente não é o forte lá. As lojas são lamentáveis​​, não têm quase nada, tudo é bem diferente do que estamos acostumados a ver. Na entrada das lojas, havia sempre um agente de segurança que deixava entrar uma pessoa de cada vez, só quando quem já estava lá dentro saía. Tudo muito estranho. O contraste entre os resorts e o modo de vida dos cubanos é ultrajante. Acho que um dia, isso vai fazer algum efeito na mente daquele povo. Não sei...
Nas praças e nas ruas, vi muita gente sem fazer nada – jovens e menos jovens; eles não pareciam estar trabalhando. Talvez em férias? Duvidei do que o nosso guia tinha dito sobre a ausência de desemprego em Cuba. Eles nos abordavam, por vezes com muita insistência, pedindo nossos bonés ou nos oferecendo alguma coisa. E ficavam esperando... o pagamento.
Notei uma tristeza no olhar das pessoas, mesmo quando sorriam, como nunca vi antes e isso me incomodou sobremaneira.
Visitamos também uma refinaria de açúcar – com maquinaria do tempo de antes da “Revolución”. Fomos avisados de que, se tivéssemos sorte, veríamos a refinaria em atividade. Mas não tivemos. Quando chegamos lá tudo estava parado, não entendi muito bem por que razão.
Fim da excursão, voltávamos para o hotel, quando um dos turistas do nosso grupo fez uma pergunta, com uma coragem que surpreendeu a todos:
- Por que há tantas fotos de Che Guevara, em todos os lugares em Cuba, e tão poucas de Fidel Castro?
E o guia respondeu sem hesitação:
- É normal; é porque Che Guevara está morto. Quando Fidel Castro morrer, teremos mais fotos dele também.
Fiquei pensando: Será isso mesmo? Talvez, nem Che Guevara nem Fidel Castro...

Publicado também pela KBR Editora Digital em 28 de março de 2015
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segunda-feira, março 23, 2015

Cabras, escorpiões, cobras e lagartos

Nesse final de inverno canadense de 2015 d.C. – o inverno mais frio que tenho presenciado em quase 16 anos vivendo aqui – recebemos visitas diárias inusitadas: perus selvagens em bandos passam de casa em casa à procura de alimento, coisa nunca vista antes. Eles comem grãos que os passarinhos deixam cair dos comedouros, além da mistura de sal e não sei que outros ingredientes usados para derreter a neve das ruas. Estão famintos a tal ponto que deixaram de ser ariscos como de costume e têm vindo quase bater à nossa porta.
            Essa vizinhança natural com animais fez-me lembrar de tempos idos, na minha terra natal – uma associação de ideias que só pode ser explicada por um capricho de neurônios friorentos e nostálgicos, pois o cenário tem tudo do mais extremo oposto que pode haver no planeta. Minha cabeça conseguiu transformar perus selvagens nórdicos ciscando na neve em galinhas a esgaravatar a terra tórrida... E me transportei àquele pedaço do meu país, que eu acreditava ser bom e ditoso – pura inocência de uma criança.
Século XX, no final dos anos 50, início dos 60, tempos da minha infância, Belo Horizonte era uma cidade pacata com aproximadamente 600 000 habitantes. Já tinha uns ares de cidade grande, pelos privilégios de ser a capital do estado, mas era ainda pequena, tipicamente interiorana, onde todas as famílias se conheciam, ao menos pelo nome. Essa incipiente maneira de ser de metrópole desaparecia abruptamente logo que saíamos do centro comercial e da região administrativa da cidade, e nos deparávamos com um ambiente rural que se urbanizava de modo irregular, fora do projeto inicial.
Praticamente todas as casas, mesmo as dos pobres, tinham quintais com árvores frutíferas e hortas. Infalível era a presença de um galinheiro. Além da produção de ovos, vez por outra algum frango ia para a panela. Sem esquecer dos benefícios do equilíbrio ambiental, pois os galináceos controlavam bem a população de escorpiões; os que lhes escapavam eram acondicionados em vidros e levados ao órgão de saúde pública responsável pela produção de antídoto, a Fundação Ezequiel Dias... Sim, Belo Horizonte era um foco desses temidos aracnídeos.
As carroças partilhavam ruas e avenidas com os automóveis; cachorros vira-latas por toda parte e, por vezes, pequenos grupos de caprinos, a praticarem suas habilidades de alpinistas nas ruas íngremes de Belo Horizonte, compunham um cenário intrigante e divertido para nossos primos cariocas que vinham de férias todo ano e pareciam curtir a cidade, como diríamos, híbrida urbano-rural – roça, em outras palavras.
Certa vez, tivemos uma cena de filme – talvez circo seja mais adequado dizer – digna de ser imortalizada. Uma cabra em estado avançado de prenhez conseguiu subir no beiral de nossa casa, entre os dois andares. A casa de esquina tinha o beiral mais baixo de um lado e muito alto do outro, devido às diferenças de inclinação das ruas. Tendo alcançado o fim do beiral, do lado onde a distância ao chão era abissal, a cabra não podia virar-se devido à estreiteza da saliência e tampouco sabia andar de marcha à ré. Pôs-se, então, a berrar apavorada e o fato que a esperava na rua – cabras, cabritos e bode – juntaram-se em coro. Ao que toda a população das redondezas acorreu, enquanto minha mãe, desesperada na ausência do meu pai que estava no trabalho, telefonava para o Corpo de Bombeiros pedindo ajuda.
A multidão se aglomerava na rua, ansiosa, uns tentando encontrar uma solução, outros esperando o desenrolar dos acontecimentos, quando alguém anunciou a todos, em tom de importante comunicado: - “Os bombeiros já estão vindo, o problema está resolvido!” A multidão se agitou mais ainda, naquela grave expectativa. E os bombeiros não tardaram a chegar, estudaram a situação, amarra aqui, amarra ali, um deles se debruçou na janela mais próxima do local onde a gestante se encontrava e, rapidamente a tomou nos braços. Ah... Ouviu-se o suspiro aliviado e em uníssono da multidão, que aplaudiu veementemente o herói. Sã e salva, colocada de volta na rua, a cabra correu o mais rápido que pôde, saltar já não podia devido ao seu estado, e foi juntar-se aos seus companheiros, que já tinham se afastado, assustados com a multidão.
Os bombeiros são mesmo heróis, enfrentam todas as situações, não só em caso de incêndio. E não é só no Brasil, eu também já tive que chamar os bombeiros aqui no Canadá e fui prontamente atendida. Mas não foi por causa de uma cabra, obviamente. Quero registrar aqui minha homenagem ao Corpo de Bombeiros do mundo inteiro.
As favelas de Belo Horizonte estavam ainda se esboçando e as poucas famílias que se instalavam nos morros, eram de gente que vinha em busca de trabalho na nova capital e acabavam se empregando nas casas dos bairros contíguos, nas minas ou construções das proximidades.
Uma pena não terem sido tomadas providências para que essas pessoas pudessem ter melhores salários e condições de habitação. Mas as leis trabalhistas não eram seguidas e, sejamos realistas, a mentalidade escravocrata ainda persistia no subconsciente das pessoas, embora essa ideia não fosse admitida racionalmente. E Belo Horizonte, que foi uma cidade planejada inicialmente, entrou inexoravelmente no ritmo de outras grandes cidades brasileiras, desorganizadas com toda a complexidade dos problemas sócio-econômicos que se sucederam, até os dias atuais.
Naquela época, as taxas de criminalidade eram baixíssimas.  Ninguém tinha medo de outros seres humanos, portas e janelas não eram trancadas, muito menos gradeadas. Os muros das casas eram baixinhos, só mesmo à guisa de marco divisório e enfeite, e serviam também de assento para turminhas de adolescentes, que se reuniam saudavelmente às tardinhas, para bater papo e “paquerar”. Excetuando-se o alcoolismo, não havia consumo nem tráfico de drogas, isso chegou mais tarde a Belo Horizonte.
Nos fins de semana, a programação era ir à casa dos avós, mesmo porque não havia muitas outras opções de diversão. Mas como era gostoso ir à casa da nossa avó. As crianças brincavam até quando conseguiam resistir ao sono e muitos sucumbiam nos colos maternos e paternos, ou nos divãs da casa, saindo carregados. Mas eu era uma das que continuavam acesas, prestando atenção na conversa dos adultos. Não é à toa que fiquei irremediavelmente notívaga, o costume vem desde a infância. Eram comuns os debates políticos, por vezes acalorados – ainda se votava, antes da Ditadura Militar. Outras vezes, eram notícias sobre familiares, esse ou aquele viajou, o filho daquele outro vai trabalhar fora, os parentes do Rio ou do Espírito Santo vão chegar em tal data para o casamento da sobrinha ou da prima. Lá pelas 11 horas, meia-noite, fazia-se uma pausa nas conversas infindáveis, era hora de ir embora.
Ah... As estrelas, estas eram vasculhadas no céu antes do “adeusinho” final. A turma toda parava no jardim em frente à casa, ou no passeio, e punha-se a identificar as constelações, que brilhavam intensamente, sem serem ofuscadas pela iluminação da cidade; só havia luzes incandescentes em postes de madeira bem espaçados, mesmo na Avenida Getúlio Vargas, uma avenida de uma certa importância. A constelação que mais me impressionava era Escorpião, talvez pelo fato de um de meus irmãos ter quase morrido, picado por um e salvo pela injeção do antídoto.
Quando tínhamos a carona de um de meus tios, ele nos deixava até onde o carro podia ir e, com os faróis acesos, esperava que entrássemos em casa. A nossa rua não era pavimentada, embora nossa casa ficasse somente a uns 200 metros da Avenida do Contorno. Isso bastava para que fosse considerada em situação afastada da cidade. Como tudo é tão relativo!
Havia poucas casas no nosso quarteirão e a iluminação pública era precária. Lembro-me que sempre deixávamos alguma luz acesa, para iluminar o caminho de algum transeunte e, no caso de alguém precisar de ajuda, saber onde bater à porta – atualmente, deixamos luzes acesas para espantar ladrão. E muitas vezes bateram à nossa porta, para pedir socorro ao meu pai, que era médico. Era um plantão permanente. Havia até quem pensasse que nossa casa era posto de saúde... Talvez pela simplicidade.
Para além da simplicidade, havia naquela casa uma característica que causava espanto em muitos que a visitavam mais de uma vez: era o fato de estar sempre inacabada; mudavam-se portas, janelas e paredes de lugar, como se fossem móveis. Tudo era mutável... Era surreal. Mas como éramos felizes! Um dia ainda terei que escrever sobre isso...
Belo Horizonte tinha outras vantagens naqueles velhos tempos, uma delas era o clima mais ameno. Não fazia tanto calor como hoje em dia. Em qualquer época do ano, após o pôr do sol o ar refrescava, tínhamos sempre um agasalho à mão. E ir à pé para casa, tarde da noite, naquele friozinho gostoso, bem agasalhados, era um deleite. Nenhuma viv’alma nas ruas, além de nós, perigo zero. Quando chegávamos na Praça Esperanto – confluência de Contorno, Getúlio Vargas, Rua do Ouro, Rua Aimorés – éramos quase empurrados pelo vento que vinha dos lados da Serra da Piedade. Atravessávamos a praça fazendo uma diagonal, da esquina da Aimorés com Grão Pará – pertinho de onde morava a família do então Juiz Moacyr Pimenta Brant, pai do compositor Fernando Brant – passando pelo único poste de luz no centro da praça, galgávamos a esquina da Contorno com Rua Pouso Alto, do outro lado, onde moravam também outras famílias conhecidas – a esta hora todos já a sono solto, tudo fechado. O muro dos Franco tinha acabamento em pedras e havia uma obra de artista, duas pedras com o desenho perfeito dos mapas de Minas Gerais e do Brasil – achar os mapas, cada vez que passávamos por ali, era divertido, um ritual que não podia faltar.
Um quarteirão abaixo e entrávamos na nossa rua, protegidos do vento. Faltava pouco para chegar em casa. Deo gratias, dizia meu pai.

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sábado, março 14, 2015

Outono nas Planícies de Abraham

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Outono é outra primavera, cada folha uma flor.
Albert Camus

Ir à cidade de Quebec é como ir a Ouro Preto, ou a Salvador da Bahia, percorrer o passado que nos forjou; é revisitar histórias que traçaram nosso destino e viraram vitrine de nós mesmos. Nem sempre nos orgulhamos de tudo o que aconteceu ali, mas é o que temos. Há, pelo menos, tantos sonhos de justiça que viveram naquelas construções sólidas, na arquitetura de nossas ancestralidades.

Há um fascínio especial em caminhar pelas Planícies de Abraham, sobretudo quando sabemos que foram palco de batalhas que decidiram o futuro do Canadá. Impossível andar por ali sem pensar nisso, apesar de hoje ser um parque que nos transmite tanta paz.

Igualmente tocante pensar que a cidadela, no alto das planícies, já foi local de reuniões secretas dos Aliados para decidir estratégias que mudariam o rumo do planeta, uma delas a reunião entre Roosevelt, Churchill e o então Primeiro Ministro do Canadá, Mackenzie King, encontro que estabeleceu planos para dar fim à Segunda Guerra Mundial.

Absorta nesses pensamentos, estava eu passeando no parque, numa manhã de domingo, desses de céu azul, azul, sem nuvens. Era outono. Cheguei cedo para desfrutar do silêncio. Enquanto a cidade parecia ainda adormecida, o parque não dormia. Como sempre à escuta, oferecia seus mimos aos visitantes. Pequenos passarinhos, com sua habitual retórica, também lá estavam, balbuciando saudações matinais.

A natureza estava especialmente eloquente naquele dia. As folhas outonais, já caídas em grande número, estalavam esmagadas pelos meus passos, e aquelas que ainda estavam presas aos galhos das árvores resistiam ao vento e murmuravam velhas histórias de memórias distantes, ao sol tépido da manhã. Sentei-me em um banco no alto do parque, de onde podia admirar a beleza da paisagem, tendo diante de mim a vastidão do Rio São Lourenço, bom pano de fundo para o livro que queria ler.

Mal comecei a primeira página e percebi que chegava uma pessoa; com certa hesitação, sentou-se num banco quase em frente ao meu, de costas para o rio. Era um senhor idoso, pensei, e logo me corrigi: se o considero idoso, ele deve ser bem velho, pois idosa já estou eu, mesmo que na cabeça ainda me sinta jovem. Quando finalmente se sentou, levantei os olhos discretamente para vê-lo melhor e, um pequeno sobressalto, ele também me olhava, com um ligeiro sorriso. Sorri também, e gaguejei um bom-dia. Ao que ele me respondeu que eu tinha a melhor vista do parque sentada naquele banco, que era seu favorito. Mais que depressa levantei-me e cedi-lhe o lugar, dizendo que minha intenção era ler, onde quer que eu ficasse seria bom.

— Há espaço para os dois, se não se importar — disse ele, vindo sentar-se no meu banco. — A senhora é madrugadora, chegou antes de mim.

— Desculpe-me, estou de passagem, não moro na cidade — retruquei, tentando ser amável e, ao mesmo tempo, tranquilizando-o quanto ao fato de que o lugar no banco não seria ocupado todos os dias.

Ele continuou sua conversa, que parecia mais um relatório de vida, fazendo-me concluir que não conseguiria avançar muito na leitura. Mas não me importei; ele parecia simpático e inofensivo e, visivelmente, estava precisando conversar.

— Depois que me aposentei, venho quase todos os dias respirar o ar puro do parque. Às vezes, eu vinha com minha esposa, antes da doença.

Ficou pensativo por um momento e prosseguiu:

— Hoje, penso naqueles tempos felizes da nossa juventude. Minha mulher e eu vivemos em tempos mais difíceis, não havia todos os recursos que há hoje para criar uma família, mas as preocupações eram todas superáveis. Depois, momentos dolorosos vieram e perdi minha companheira na batalha pela vida. Justamente eu, que salvei a vida de muitos, não pude fazê-lo para a pessoa que amava tanto. Mas tenho a sensação de missão cumprida, porque estive sempre ao seu lado para confortá-la e dar-lhe tudo de que ela precisava… Tudo o que era possível.

— O senhor fez muito bem, se todos soubessem que ajudar a quem amamos pode fazer-nos um bem ainda maior do que ao outro…

Após a morte de sua doce companheira, ele vendera a casa onde moravam e, como tantas outras pessoas da sua idade, optara por morar em um apartamento, num edifício desses construídos para abrigar idosos que ainda são autônomos, capazes de cuidarem de si próprios. Ali ele esperava continuar, sem incomodar ninguém, até que viesse o momento de se juntar à sua querida.

E acrescentou:

— Desculpe-me incomodá-la com minhas histórias, por favor, continue sua leitura; tenho um compromisso, estou esperando alguém, não demorarei muito por aqui hoje. Dizendo isso, recostou-se, como quem não tem pressa.

Tenho a impressão de que as pessoas aqui no Canadá encaram o envelhecimento e a morte com mais serenidade, com mais naturalidade.

Consegui ler algumas poucas linhas, enquanto o meu vizinho de banco cochilava. Aos poucos, outras pessoas chegavam ao parque, podia-se ouvir os gritinhos e as risadas alegres das crianças. Minha concentração na leitura esvaiu-se completamente no voo de dois lindos gaios azuis, que soltavam seus gritos com pleno vigor. Uma pequena rajada de vento cobriu nosso banco de folhinhas miúdas, como uma chuva de estrelas douradas. Pensei que, com tudo isso, o nosso dorminhoco acordaria, mas não, ele devia estar acostumado.

O sol preguiçoso de domingo se levantava e aquecia o parque. Olhei para as árvores em volta e percebi que as cores já tinham mudado muito. Havia vermelhos em vários tons, havia amarelo e laranja, verdes ainda vários… As folhas estavam brilhantes, pareciam ter luz própria. O outono estava em sua plenitude, o ciclo da vida seguia sua jornada com muita graça e, acima de tudo, sem sofrimento. Identifiquei-me com a natureza, tive a impressão de integrar-me a esse cenário esplêndido e completo em sua dimensão. Por alguns instantes, não senti necessidade de fazer perguntas, compreendi e aceitei minha condição humana intuitivamente.

Um grande suspiro reteve a respiração do senhor ao meu lado por tanto tempo que ele acordou de seu cochilo, assustado. E percebeu uma lágrima descendo de seu olho esquerdo, sem o seu consentimento… Uma lágrima pesada, que seus dedos enxugaram instintivamente.

— Doutor!

Meu amigo teve um sobressalto quando ouviu este chamamento, certamente cada vez mais raro depois da aposentadoria. Olhou para o lado de onde vinha o chamado inesperado e viu um homem que parecia ainda mais velho, e corria em sua direção. Em boa forma, apesar da idade, o homem aproximou-se rapidamente, com um grande sorriso.

— Você me reconhece? Fui seu paciente durante muito tempo e você me curou.

Pelo semblante do doutor, pude concluir que ele não o reconhecera, mas ficou aliviado que seu paciente tivera a gentileza de se identificar e ainda mais feliz em saber que tudo correra bem após o tratamento.

— E como está sua saúde agora? Você parece estar muito bem.

O velho senhor fez um breve relato de seu estado de saúde, concluindo rapidamente que tudo estava bem e que estava muito feliz. Mas não podia ficar ali por muito tempo, tinha uma reunião dominical com os filhos. E acrescentou que tinha sido um presente tê-lo encontrado mais uma vez, para agradecer-lhe por tudo. Em seguida, desapareceu rapidamente em seu caminho, como se fosse um anjo que apenas viera transmitir uma mensagem.

Depois que o paciente se foi, meu amigo confessou-me que aquele encontro fora uma grande recompensa, tinha ficado contente em ver seus esforços reconhecidos.

Neste momento, ouvimos os gritinhos alegres de seus netos o chamando, e ele me explicou que era seu filho mais novo que vinha buscá-lo, acompanhado de sua nora e netos; todos pareciam radiantes com o encontro. Apontando para Jérôme, o neto mais novo, ele disse: este tem os olhos suaves de minha mulher. E voltando-se para Marie-Ève, contou-me que ela também tinha herdado algo de sua avó: o mais belo sorriso do mundo.

Era hora de partir, ele também, para a sua reunião dominical com a família. Tomou Jérôme nos braços e Marie-Ève deu-lhe a mão — seu filho e sua nora caminhando na frente, o avô atrás, com os netos e muitas histórias, lá se foram eles lentamente, deixando no parque vestígios radiosos de vida.

Compreendi a serenidade daquele avô. Ele teve a chance de viver num mundo civilizado que ajudou a edificar. Apesar de todas as dificuldades que teve que enfrentar, tinha feito a sua parte, tanto profissionalmente como em família. Seus filhos tinham sido bem educados, escolhido bem suas companheiras e estavam transmitindo essa boa herança para seus netos. Ele havia ajudado a povoar a Terra com pessoas boas, de bons princípios — isso valia os sacrifícios vividos, e poderia morrer em paz. Não havia sido inútil ter feito o melhor que pôde. Essa ideia me pareceu clara o bastante.

Fiquei ali nas Planícies de Abraham, esperando meu marido, para irmos almoçar juntos. Ainda não era minha hora de partir.

terça-feira, março 03, 2015

Floresta Sem Lobo Mau

Crônica também publicada pela Editora KBR
http://www.kbrdigital.com.br/blog/floresta-sem-lobo-mau/



Durante meus primeiros anos no Canadá, convenci-me de que todas essas mudanças sazonais eram encantadoras, e, a cada estação que chegava, me punha a admirá-la; por vezes, até surpreendia os nativos, que me achavam valente e resistente, diante de tantas intempéries. Realmente, são paisagens lindas e diferentes, sobretudo para quem, como eu, vem de um país tropical: um mesmo lugar muda completamente de aspecto a cada estação do ano.

Ultimamente, porém, comecei a perceber que já estou bem avançada no processo de assimilação, incorporada à nação canadense, ao Quebec, mais precisamente.  Ou seja, como todo quebequense, já estou cansada desses longos invernos, com frio intenso e sem muita trégua. Só no mês de fevereiro foram raras as noites em que tivemos temperaturas acima de 20°C negativos. Além disso, começa a dar um desânimo por ter que abrir caminho na neve todos os dias, deixar passar um é suficiente para que a neve se torne dura como rocha. E aí, só mesmo quando a primavera chegar, coisa incerta por estas bandas de cá.

Há empresas que oferecem o serviço de remoção da neve a domicílio. Mas, qual o quê! O homem da casa prefere ele mesmo se ocupar do assunto, economizando um dinheirinho ao mesmo tempo que se diverte dirigindo um veículo tão prático como a pequena souffleuse. A maioria dos homens gosta de brincar de “carrinho”, não é?

Bem, isso é verdade no início do inverno. Mas após 5, 6 meses tendo que ir lá fora a cada vez que passa o caminhão que limpa a rua, o snowplow — ou charrue à neige em bom “québécois” —, e deixa um muro de neve na entrada da sua casa, aí o divertimento passa a ficar menos interessante. Mas vale a economia, o inverno vai acabar logo, logo, é um bom exercício físico — são as justificativas para dar força a continuar na batalha. Ufa!

Por essas e por outras é que já aprendi todo o repertório de palavrões do quebequense que, diga-se de passagem, é único no mundo inteiro. Resultado da revolta do povo contra o Catolicismo, os termos são todos provenientes do que é sagrado para a Igreja Católica, blasfêmias consideradas, por eles mesmos, os piores palavrões que existem. Mas este é um “casinho filhote”, como diria minha mãe. Vamos deixar o assunto para uma outra vez.

Não vejo a hora de degustar os primeiros sinais de primavera, e ela está chegando aqui no Hemisfério Norte: a gente vai insistindo na ideia, e um dia ela chega. Brevemente entraremos na Temporada do Açúcar no Canadá, entrará em cena novamente o maple syrup (sirop d’érable). Os Estados Unidos são também produtores importantes, mas a província do Quebec é de longe a maior produtora, responsável pela maior parte da produção mundial.

Adoro quando chega o “Temps des Sucres”, pois é sinal de que o longo inverno está acabando… prenúncio da primavera! É doce, mas não é ilusão.

A obviedade do fato de sermos parte integrante da terra é mais evidente nessas altas latitudes. A gente entra no ritmo. O burburinho começa nas florestas de ácer (maple/ érable), as cabanas de açúcar literalmente a todo vapor. As raízes das árvores se espreguiçam e a seiva começa a subir: é sangue novo que circula.

Todo ano se repete o ritual de fazer o sirop d’érable, uma tradição herdada dos ameríndios e muito apreciada por aqui. Embora haja uma produção enorme usando modernos sistemas, existem ainda muitas cabanas de açúcar que utilizam o tradicional método rústico: faz-se um orifício no tronco da árvore e coloca-se o balde para coletar a seiva. Em seguida, esta “água” é fervida em grandes recipientes, dentro da cabana. Por evaporação, a seiva é concentrada para se transformar no syrup 100% natural.

Nos fins de semana, famílias e amigos costumam se reunir nas cabanas para se regalarem com pratos típicos, tocar acordeon e cantar canções folclóricas, ou simplesmente para se divertir enquanto ajudam nos trabalhos. Cada um toma para si uma tarefa.

Andar na floresta não é tão fácil como parece, e isso até que ajuda a perder os quilinhos a mais adquiridos durante o inverno. E por mais que a tecnologia tenha tornado as roupas e as botas de inverno mais leves, elas ainda representam uma considerável sobrecarga, quando se trata de sair coletando essa água toda para levar para a cabana. Quando ainda resta muita neve no solo, a gente não sabe se o pé vai afundar ou não, se vai pisar em algum galho quebrado, ou numa rocha, e se desequilibrar. Não tendo esse costume, pode-se imaginar a lentidão na qual me locomovo e os risos que provoco, a começar pelos do meu marido. Resultado: prefiro ficar na cabana para lavar a louça. Lá fora, só mesmo para bater fotos e respirar o ar puro, sem medo do lobo mau.

A cabana de açúcar faz pensar em um lugar de druida, como se estivéssemos num mundo mágico a nos deliciarmos com uma poção que está sendo preparada. O foguista, aquele que põe lenha na fornalha, é também quem calibra a “poção” ao ponto certo. A água se converte em açúcar. Uma nuvem doce nos envolve, o cheiro é doce, um gosto açucarado nos invade o paladar. O vapor açucarado se condensa no teto e cai em gotas sobre nossos corpos, e é o foguista que opera o milagre dessa transformação.

Os milagres não acabam mais: é água virando creme, caramelo, bombom, bala… Toda a doçura do mundo na cabana.

Aí… tudo vira primavera!