segunda-feira, agosto 06, 2018

Made in Brazil

Temos uma lavadora de roupa encantadora, tamanho bom para nossa casinha que é pequena e só com dois moradores. Ótima, funciona muito bem. Após anos de uso, o tubo que conduz a água para fora da máquina rasgou, tivemos uma pequena inundação ontem, que controlamos a tempo, antes que causasse danos.
Bom, tudo isso para contar que precisamos olhar o número do modelo para comprar outra peça e... SURPRESA! A máquina é feita no Brasil. A companhia é americana, mas a máquina foi fabricada em Rio Claro, São Paulo.
As especificações estão escritas em inglês. Fui lendo... lendo... não me dei conta de que estava lendo o endereço em português. Foi muito engraçado; de repente, soltei aquele uai bem mineiro: Uai, Made in Brazil... e dei uma risada de criança feliz. Só por saber que aquela máquina veio de lá, da minha terra.
Apesar de tudo o que me entristece e envergonha no meu país, após tantos anos morando fora, o amor não acaba. Que coisa!

~~~~~~~~//~~~~~~~~~
https://maviemontfils.blogspot.com/2016/03/e-viva-america.html

terça-feira, julho 17, 2018

Tio Zizi

João Franzen de Lima,
prefeito de Belo Horizonte, 1947
(foto do Arquivo Público Mineiro,
fundo Jornal Folha de Minas)
Não vou escrever sobre a biografia do Tio Zizi, já há várias nos anais da História de Minas e do Brasil[1]. João Franzen de Lima era tio de minha mãe. Ela contava que ele foi como um pai generoso para eles, quando o pai dela morreu. Era adorado por eles.
Temos até uma espécie de anedota familiar, com relação à bondade desse tio querido. Minha mãe sempre foi muito apavorada, desconfiava de tudo e nos instruía para evitarmos toda e qualquer possibilidade de eventos trágicos.
Certa vez, ela estava orientando os filhos para não saírem da escola com ninguém, só com ela ou com meu pai. Ela explicava que havia pessoas más que sequestravam as crianças, as levavam para países longínquos e que nunca mais veriam os pais. Nós até estremecíamos. Ela dizia que, mesmo se alguém chegasse na escola e dissesse que ela ou nosso pai tinha mandado nos buscar, mesmo que dissessem nomes, endereços, qualquer coisa para provar que eram pessoas conhecidas, que não fôssemos com ninguém.
Nesta altura, um de meus irmãos saiu-se com uma alternativa, lançando uma das pessoas mais bondosas e corretas de quem ele se lembrou, colocando minha mãe em xeque: - Mesmo se for Tio Zizi? Ela caiu na gargalhada e saiu-se com outra: - Nem assim, porque pode ser um sósia dele. Claro, ela estava prevenindo alguma confusão que pudéssemos fazer com outra pessoa, pois não tínhamos convívio diário com ele.
Criança costuma ter um radar apurado para detectar a bondade, pelo que veem ou pelo que ouvem falar, e Tio Zizi foi o escolhido pelo meu irmão como exemplo de uma pessoa à prova de qualquer dúvida, com a qual não correria risco algum. E ele tinha razão.
Íntegro, de vasta cultura e curriculum vitae riquíssimo, Tio Zizi era uma pessoa amável, sem nenhuma empáfia. Sorte minha, eu o conheci, era simpaticíssimo. Se a bondade humana pudesse ter uma imagem, esta seria a figura dele.

~~~~~~~~~~~~//~~~~~~~~~~~~
 P.S.: Diga-se de passagem, quem tiver filhos pequenos, aproveite as dicas de orientação da minha saudosa mãe.
~~~~~~~~~~~//~~~~~~~~~~~~~~
[1] João Franzen de Lima (Wikipedia)

terça-feira, junho 26, 2018

Não soltem os cachorros


Tenho medo de cachorros. E eles sabem disso, todos se sentem “atraídos” por mim, mesmo os mansos rosnam e querem me atacar, apesar de eu não fazer absolutamente nada para atiçá-los. Talvez o não fazer nada seja o problema, ou talvez um olhar meu desconfiado possa ser interpretado por eles como uma ameaça e, em defesa, partem para o ataque. Dizem que exalamos um cheiro quando temos medo – da adrenalina descarregada, talvez? Não sei, o fato é que, involuntariamente, provoco frustração em praticamente todos os donos de cachorro que se vangloriam de terem verdadeiros anjos, incapazes de qualquer reação agressiva.
Pouco importa o que me fez ser medrosa assim, pelo uso da razão deveria ter superado essa deficiência, eu sei. Consegui melhorar, mas o problema ainda é grave. E nesse mundo onde cada vez mais os animais merecem mais consideração do que os seres humanos por eles próprios, vou-me aperfeiçoando em minha índole de eremita. Graças ao mundo virtual, posso conversar com muita gente, sem precisar incomodar seus cachorros em seus lares.
Entre os progressos que fiz, um deles foi ter perdido o medo dos pequenos cãezinhos e percebo que eles não se importam mais comigo. É mais uma prova de que minha atitude tem algum efeito sobre a reação canina. Já consegui conviver socialmente com três grandes cães labradores o que, aparentemente, não chega a ser vantagem nenhuma, para quem não sabe o que é ter esse medo intenso que tenho, sobretudo quando são grandes – mesmo que sejam animais sabidamente inofensivos. Eram simpáticos bebezões de nossos ex-vizinhos e, como eram amigos preciosos (os donos dos cães), não tive outra opção senão tentar me acostumar com eles. Na verdade, quis mesmo usá-los como instrumento de superação. O intento não foi um sucesso completo, nunca consegui baixar a guarda.
Não foi surpresa para mim, pois já tentei criar cachorro por duas vezes, com o intuito de superar o meu problema, criando-os desde bebezinhos. Deles eu não tinha medo, mesmo depois de adultos. Mas continuei a ter medo de cachorros estranhos. Além do mais, não fui capaz de ser o elemento dominante da relação, eles é que me dominavam, faziam o que queriam. Da primeira vez, tive uma cadela da raça fila brasileiro. Aos seis meses, ela já estava maior do que eu e isso também não ajudou. Da segunda vez, tentei um fox paulistinha, o terrier brasileiro. Também foi um desastre, ele me driblava sem a menor dificuldade. Enfim, desisti.
Nossa vizinha do lado, atualmente, tem um cão que parece mestiço de boxer com bulldog, talvez seja o que chamam de bulldog americano, não sei – o corpo é compacto, roliço, nem atarracado como o bulldog, nem elegante como o boxer, entre os dois. Parece desenho animado quando ele anda ou corre, as pernas mexem e o corpo se desloca sem rebolado nenhum, inflexível. A cara é horrorosa, de maus bofes, apesar de uma certa tristeza no olhar, com um prognatismo acentuado, os dentes inferiores sempre visíveis. À primeira vista, assusta, é um "colosso" de médio porte. Mas sua “mãe” – a dona do cachorro – nos disse que ele é um doce de criatura, acostumado com vários irmãozinhos gatos. Não é capaz de fazer mal a ninguém, segundo ela.
Pois bem... Vocês sabem que aqui no Canadá, nossos terrenos não são fechados por muros nem cercas. Por lei, os cães não podem circular na rua sem guia, muito menos invadir propriedade alheia. Os proprietários têm que se virar para que seus animais não burlem as leis. Nossos vizinhos de frente colocaram um sistema de choque elétrico na coleira se os cachorros se aproximam de um fio invisível (subterrâneo). Eles têm pena de usar o sistema, mas parece que, ultimamente, os cãezinhos deles estão mais treinados a não virem esbravejar contra nós, “chez nous”... mas demorou. A nossa vizinha do lado – a do desenho animado – colocou um sistema de cercas visíveis em torno do terreno dela. Mas o colossinho escapa frequentemente, não sei como. Várias vezes, o vemos passeando pela rua e, não raro, dá uma passadinha no nosso terreno e não só aqui. Mas – pasmem! – este me obedece. Digo a ele “à la maison” e, apesar do meu sotaque, ele compreende e vai embora. Nunca rosnou nem latiu para mim. Imaginem como fiquei encantada com isso. Quase perdi o medo dele... até ontem.
Ontem, não sei o que deu nele, no colossinho. Um casal, cada qual com um cachorro na guia, passou em frente às nossas casas (sempre passa alguém fazendo caminhada, em companhia de seus cães). Não entendo de raça de cachorro, mas os do casal pareciam muito com o nosso vizinho. Colossinho ficou uma fera, saiu desabalado e aos gritos para atacar os seus congêneres. Foi uma gritaria canina impressionante, latidos escancarados e ininterruptos misturados com rosnados em alto volume, dando a sensação de que algo catastrófico estava ocorrendo. Já presenciei briga de cães vira-lata nas ruas do Brasil, mas esta de ontem estava assustadora. E nem fugir os outros podiam, pois estavam presos na guia. O que os donos deles fizeram foi carregá-los no colo. E o colossinho não perdia o elã, começou a pular para atingi-los. O ataque só acabou quando os nossos vizinhos, proprietários da fera, conseguiram contê-la. Tomara que ninguém tenha se machucado.
Então é esta a doçura de criatura. Fiquei decepcionada. Foi um aviso para mim, que andava confiante demais. Não faz muito tempo, uma senhora mais ou menos da minha idade, foi assassinada por um pitbull que a atacou no quintal dela. São inúmeros os casos de ataques, muitas crianças mortas ou desfiguradas – até recém-nascidos – por cães até então considerados dóceis. Na verdade, ninguém, nem os donos dos cachorros podem prever esses rompantes dos bichos. Eles pensam que conhecem seus animais completamente. Que ingenuidade! Que temeridade! 

Update 27/06/2018: só porque eu disse que os cachorros dos vizinhos de frente não vêm mais, já vieram duas vezes hoje, aqui no nosso terreno... 😡 

Update 11/07/2018: depois do ataque a outros cachorros, a vizinha do lado reforçou a cerca da casa dela.
 

segunda-feira, junho 25, 2018

Pas pressé

Église de Saint-André
Versão em português
English version

Un nouveau prêtre célèbre la messe dans notre paroisse. Partiellement chauve, le restant des cheveux est déjà complètement blanc. Il n’est pas un jeune. Peut-être qu'il a mon âge – nous voyons plus de vieillesse chez les autres. De bonne humeur, grassouillet, joyeux, du genre qui aime chanter et aussi s’adresser au peuple au moment des souhaits pour la "Paix du Christ", et il serre la main de tout le monde assis plus proche du couloir central de l'église – je n’avais vu cela auparavant qu’au Brésil.  
Une certaine paix – je ne sais pas si celle que l'on désire – s'installe vraiment pendant ses célébrations. On plonge dans une relaxation qui provoque de l'anxiété chez les pressés – j'avoue que j'ai dû me contrôler pour ne pas regarder ma montre de temps en temps. Après tout, la messe ne dure pas plus que le temps régulier; il parle moins, ce qui compense les grandes pauses pour réflexion.
Les longs silences étaient renforcés par un bruit de fond, un son continu et modulé. Après un balayage rapide de l'environnement avec mes yeux, pour rechercher la source du bruit et exclure la possibilité d'un acouphène dans ma tête, j'ai attribué le son aux ventilateurs de plafond. J'ai succombé, finalement, aux silences, j'ai embarqué dans un état presque de torpeur qui, avec l'aide de l'effet sonore, m'a transporté à mes quarts de nuit dans les hôpitaux où j'ai travaillé.
La nuit, les sons que nous ne remarquons pas pendant la journée prennent vie et s'intègrent dans le silence. Ce sont des équipements hospitaliers, des réfrigérateurs, des luminaires... des modulations sonores qui habitent l'insomnie de la profession, de temps en temps brisées par des pas dans le couloir, quelqu'un qui tousse, un chuchotement, un téléphone qui sonne, une ambulance qui arrive. Ceci au mieux, quand pleurs et gémissements ont pu être remédiés.
Notre gentil curé nous voit sagement comme ses patients dans cet immense hôpital général où nous vivons. Avec patience et dévouement, il était en train de nous aider à faire face à nos maux, à nous battre pour la Vie de notre âme. La meilleure façon est la sienne: pacifier, offrir un bon traitement, sans hâte. La vie est si courte, pourquoi se dépêcher?

sábado, junho 23, 2018

Sem pressa

Église de Saint-André
Version en français
English version 
Um novo padre está celebrando a missa em nossa paróquia. Um novo idoso. Parcialmente calvo, o restante do cabelo já completamente branco. Talvez tenha minha idade – vemos mais velhice nos outros. Bem-humorado, gorducho, bonachão, daquele tipo que gosta de cantar e que faz questão de se aproximar do povo, na hora de desejar a “Paz de Cristo”, e sai apertando a mão de todos da beirada dos bancos da igreja – coisa que eu só tinha visto antes no Brasil.
Uma certa paz – não sei se a tão desejada – se cumpre mesmo e paira intensa durante as suas celebrações. Entra-se num relaxamento que causa ansiedade nos apressados – confesso que tive que me controlar para não ficar olhando para o relógio. Afinal, a missa não dura mais que o tempo regulamentar; ele fala menos, compensando as grandes pausas para reflexão.
Os longos silêncios estavam reforçados por um ruído de fundo, um som contínuo e modulado. Após uma rápida varredura investigativa do ambiente com meus olhos, para procurar a origem do barulho e excluir a possibilidade de algum acufeno na minha cachola, atribuí o som aos ventiladores de teto. Entreguei-me aos silêncios, finalmente, entrando num estado quase torporoso que, com a ajuda do efeito sonoro, me transportou aos meus plantões noturnos nos hospitais onde trabalhei.
À noite, os sons que não percebemos durante o dia tomam vida e se incorporam ao silêncio. São aparelhagens hospitalares, geladeiras, lâmpadas... modulações sonoras que habitam a insônia do ofício, de vez em quando quebradas por passos no corredor, alguma tosse, uma voz baixa, um telefone que toca, uma ambulância que chega. Isso na melhor das hipóteses, quando choros e gemidos conseguiram ser remediados.
O nosso simpático padre estava sabiamente nos vendo ali como seus pacientes, nesse enorme hospital geral em que vivemos. Ele estava nos ajudando a tratar de nossas mazelas, a lutar pela Vida da nossa alma, com paciência e dedicação. O melhor mesmo é fazer como ele: pacificar, oferecer um bom tratamento, sem pressa. Nossa vida já é tão curta, para que correria?
~~~~
Link relacionado:
Falsíssimo