sábado, setembro 26, 2015

Mudando de assunto

Publicado também na KBR Editora Digital em 26 de setembro de 2015:
http://www.kbrdigital.com.br/blog/mudando-de-assunto/
e
https://www.cronicasdakbr.com/2015/09/26/mudando-de-assunto/




Essa semana, me lembrei de uma de minhas saudosas tias. Quando um assunto a incomodava e ela julgava já tê-lo dissecado à exaustão, costumava perguntar, em tom peremptório e escancarada sinceridade: Vamos mudar de assunto? Se alguém insistisse em continuar, ela dizia que não queria mais falar sobre aquilo e saía da sala, sem a menor cerimônia. 

Eu já sou mais propensa a um bom lero-lero, mas sempre tento me controlar, nem sempre com sucesso, reconheço. Nesse quesito, minha tia se adaptaria aqui no Quebec bem melhor do que eu, e talvez houvesse até uma disputa, entre ela e os “Québécois”, de quem finalizaria a conversa primeiro; a resposta provavelmente chegaria antes da sua pergunta: “On n’en parle plus”.
Por muito, mas muito menos do que estamos vendo acontecer no Brasil, já vi vários políticos e governantes, aqui do Canadá, encerrando o assunto, ao abandonarem o cargo. E não só o cargo, abandonam a carreira política em caráter definitivo, nunca mais se ouve falar deles. Mas... “vamos mudar de assunto?”
Nada pode demorar muito por aqui, tudo tem que ser rápido. Talvez seja influência do clima, pois são poucos os meses possíveis para os trabalhos que devem ser feitos do lado de fora dos abrigos antiinverno – sim, assim podemos chamar as construções, que são cheias de estratégias contra uma guerra desumana, a do frio. E é preciso rapidez antes que venham as toneladas de neve. Acho que é por isso que todos aqui são extremamente apressados.
Dizendo assim, parece que quando o inverno chega, todos se acalmam. Não, o costume está muito arraigado e outros motivos surgem para ter pressa. É preciso sair mais cedo, em caso de haver dificuldades no trânsito, por neve ou gelo. O que tiver que ser feito com a luz do dia, que seja rápido, pois a noitinha começa a cair no meio da tarde. E assim segue a vida no Canadá, gelando e degelando.
Nas autoestradas, então, se os limites de velocidade são entre 60 e 100 km/h, o canadense vai no mínimo a 100, nas pistas da direita, que é para os mais lentos. Enquanto isso, nas pistas da esquerda, passam os bólidos. Mas o que mais me incomoda é que vão todos colados uns nos outros. Dá a impressão de que se sentem desafiados quando o carro da frente se distancia; como se dissessem para si mesmos que também são capazes de correr. Acontecem tantos engavetamentos e os condutores não aprendem...
Pior ainda é quando, além da alta velocidade, decidem se comunicar com alguém por algum dispositivo móvel. O carro vai ziguezagueando perigosamente... mais acidentes! 
Mas, justiça seja feita, estes males das estradas não são exclusivos daqui, são do ser humano, em qualquer lugar do mundo. Aqui, pelo menos, as estradas são de ótima qualidade!
Por essas e outras, prefiro as estradas rurais, que são também muito boas, bem asfaltadas, às vezes britadas. Trânsito quase não há. Máxima de 70 ou 80 km/h que, muitas vezes, não chego a atingir, pois não há carro nenhum colado atrás de mim. Frequentemente, são caminhos mais longos do que se fosse pela autoestrada. Os apressados os evitam, obviamente. Muitos jovens nem conhecem essas estradas... “tant mieux”. Lá vou eu, feliz, conversando com meu GPS.
Mas não são só os humanos que têm pressa nesses climas nórdicos. Logo que o outono vai começando, com temperaturas mais baixas, as aranhas começam a entrar nas casas, não se sabe por onde, pois tudo é tão calafetado! E a produção de teias se faz num ritmo incrivelmente veloz. Foi assim que compreendi que não há exagero algum naqueles filmes americanos que mostram lugares cheios de teias de aranha, que os personagens vão desbravando como se estivessem numa floresta impenetrável. É verdade e não é preciso muito tempo para que um cenário desses tome forma. Ainda bem que não são venenosas.
Ah! E as joaninhas, aqueles insetos coleópteros da família Coccinellidae, que possuem uma carapaça redondinha de cores vistosas, salpicadas de pintinhas também redondas. Tão bonitinhas! Quando me mudei para cá, fiquei admirada de reencontrar esses bichinhos que me encantavam quando era criança, numa Belo Horizonte ainda não completamente urbanizada. Mas fui logo me desencantando, pois uns dois anos após minha chegada, começaram a aparecer joaninhas de uma outra espécie, que invadiam nossas casas, logo que começava a fazer frio.
As joaninhas canadenses são vermelhas e bem adaptadas ao clima, procuram abrigo do lado de fora mesmo. A nova espécie invasora é alaranjada. Dizem que foi importada da Ásia, pelos Estados Unidos, para combater pragas das plantações. Essa espécie mostrou-se altamente invasiva e foi ampliando seu território em direção ao norte, até chegar no Canadá. Cada ano, uma região mais ao norte é invadida. O inseto se transformou, ele próprio, numa verdadeira praga.
O problema é que essas joaninhas asiáticas entram em pânico quando o tempo começa a esfriar e conseguem se meter entre a borracha e a moldura de guarnição das nossas portas e janelas, por incrível que pareça. Com sua carapaça resistente, elas espremem a borracha que faz o isolamento e assim entram, muito hábeis e absurdamente velozes. Em pânico também entro eu, quando elas começam a aparecer aos milhares dentro de casa. Felizmente, parece que houve uma fase de superpopulação que durou em torno de dez anos e, agora, os ataques estão se reduzindo. “On n’en parle plus”.
Apesar de tudo isso, gosto muito de viver no Canadá, e minha estação preferida no ano é esta que ora nos brinda com temperaturas amenas e um céu magnífico. Não vejo a hora de ver, novamente, o espetáculo de cores das folhagens. É um fenômeno de beleza incomparável, mas efêmero, pois as folhas não tardam a cair abruptamente, antes que a natureza inicie sua longa hibernação... O inverno de novo? Vamos mudar de assunto?

sábado, setembro 19, 2015

Falsíssimo

 Era sábado e um lindo sol poente de outono, em pré-estreia na primeira metade de setembro, acentuava os tons que já começam a dourar a paisagem, na cidadezinha onde moro, no interior do Canadá.
Ouço o badalar dos sinos da Paróquia, chamando os fiéis para a missa vespertina, valendo para o domingo, e me dirijo sem pressa à escadaria frontal, galgando o adro da igreja, um prédio imponente, na rua principal da cidade. Um casal de idosos abre a pesada porta central de madeira, e o gentil senhor a segura aberta, me lança um olhar risonho, aguardando que eu passe.
- Merci !
- Ça me fait plaisir.
Um misto de perfume de flores e incenso, atenuado por um aroma de madeira, invade meus receptores olfativos, sem surpreendê-los; são antigos conhecidos. Imagens e pinturas sacras, em suas tradicionais posições, me transportam de volta a um mundo que me é bem familiar. Sempre que entro numa igreja católica, esqueço que sou estrangeira, resgato uma curiosa e prazerosa sensação de pertencimento que me escapou há muitos anos, quando me mudei para o Canadá.
Embora tenha mudado de país por nobre motivo e apesar de toda a segurança e estabilidade que a dupla cidadania pode oferecer, percebo que não sou muito diferente de qualquer outro expatriado; o elo com a nossa história no país de origem rompe-se, de uma certa forma, como se perdêssemos o fio da meada; por certo ficam os laços com a família e amigos e, “dai a César o que é de César”, graças à tecnologia de comunicação, que ajuda enormemente.
Não fosse isso, além de nosso passado não interessar a ninguém no novo país, se não tivéssemos comunicação frequente com os nossos compatriotas, passaríamos a ser considerados quase como mortos. Fico imaginando aqueles tempos em que as cartas eram despachadas em trens ou em navios e demoravam meses para chegarem ao destino. Pobres escravos negros no Brasil, que nem desse recurso dispunham. Dá para compreender o banzo que os acometia.
A cantoria de entrada para a Missa começa e põe fim às minhas divagações... Pouca gente na igreja, quase todos de cabelos brancos, exceto algumas senhoras com cabelos provavelmente tintos que, como no meu caso, não escondem a idade, já com direito a aposentadoria. Este é um quadro que reflete muito bem a tendência por aqui: cada vez menos jovens católicos. Creio que isto está acontecendo com todas as religiões, excetuando-se alguns imigrantes que ainda têm suas crenças.
Iniciados os trâmites de costume, pasmem, vejo lá na frente, sentado ao lado do altar, acólito do pároco, ninguém mais, ninguém menos do que um famosíssimo cronista brasileiro. Nem sabia que ele era tão piedoso e praticante assim. Compenetradíssimo e muito solícito, parece conhecer todos os gestos e passos da função que ora exerce impecavelmente. Achei que ele está um pouco mais magro e pensava que fosse mais careca do que é.
Por rápidos segundos, meus pensamentos multiplicaram perguntas, a primeira delas se estaria eu enxergando bem. Será ele mesmo? Como foi que o célebre escritor veio parar aqui e, ainda por cima, disfarçado de coroinha? Será que veio exilado? O governo mudou de lado? Haverá, por acaso, um novo governante? Não acredito! “Será o Benedito?”
Por que todas as igrejas têm que estar nesse lusco-fusco? Por que não acendem todas as luzes? Deve ser economia, devido à maldita crise, também eclesiástica. Tive ímpetos de mudar de lugar, ir me sentar mais perto do altar, para ver melhor, mas fiquei envergonhada; a igreja quase vazia, o salto do meu sapato, toc toc, todos iam olhar para mim. Pior que celular tocando, me contive. Tratei de me acalmar, já vi tanta gente daqui parecida com gente de lá, deve ser mais um.
Estranho, as combinações de genes não são tão variadas assim. Os seres humanos são mais semelhantes do que pensamos.
Volto a prestar atenção às leituras do folheto dominical, já que estou aqui, afinal, “quem ajoelhou tem que rezar”. E rezo para que a crise no Brasil acabe da melhor maneira possível, sem exílios, sem golpes de lado nenhum. Que os corruptos sejam alijados do poder e punidos conforme determina a lei. Sem roubalheira, tenho certeza de que o Brasil se desenvolverá, propiciando uma vida saudável e segura para todos: é esta a minha esperança.
Junto-me, também, às orações dos fiéis que rezam pelos migrantes que fogem para a Europa, abandonando seus países devastados pela atrocidade das guerras.
Chega a hora da coleta de dons e, para meu gáudio, lá vem o sujeito, no mínimo sósia do outro, passando a cestinha, vou poder vê-lo de perto e tirar minhas dúvidas. Não costumo reparar no rosto do coletor, mas desta vez tenho que fazê-lo; verifico que não é ele e sou tomada por uma vontade irresistível de rir, que chamam aqui de “fou rire”, e que, com muito custo, consigo controlar. Afinal, meu personagem não tem nada de vero, é falsíssimo.
Acabada a missa, saio da igreja com o firme propósito de marcar uma consulta com meu oculista e ainda com uma vontade louca de gargalhar. Se não encontrarmos motivo para rir nesse mundo louco, que seja de nós mesmos, acabamos ficando também ensandecidos.
Balanço final, a crise migratória comoveu realmente todos os recônditos da sociedade humana e nos fez refletir também sobre nossa passagem sobre este ou aquele território, sobre nossa própria circunstância existencial.
Nas orações dessa semana, muitos foram os pedidos para que os refugiados encontrem realmente refúgio, sejam bem acolhidos pelos países que os recebem. Assim seja.
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Publicado também pela KBR Editora Digital em 19 de setembro de 2015:
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quarta-feira, setembro 16, 2015

Crise

Também publicado pela KBR Editora Digital em 12 de setembro de 2015:
https://cronicasdakbr.kbrinternational.org/2015/09/12/crise-2/
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A palavra mais usada no momento atual e em todas as línguas é "crise". Mais uma se juntou, neste mundo já tão desvairado: a mais notória agora é a migratória, verdadeira comoção geral, retratada e amplamente divulgada. A imagem que percorreu o mundo, daquela criancinha morta, deixada na praia pelas ondas do mar, exorta à hombridade. O coração da humanidade foi tocado, fustigado. Todo mundo está à beira de uma crise existencial.
Para ser sincera, ando muito desiludida com os rumos que o ser humano vem tomando e fiquei admirada com o fato de que as pessoas ainda se comovam ao verem crianças mortas. O afogamento deste pequerrucho me causou enorme tristeza mas, por outro lado, fiquei aliviada com a reação do mundo, comovido com o que aconteceu.
Este episódio me fez lembrar de um caso, entre outros, de um menininho de dois anos que morreu afogado aqui no Canadá, há pouco tempo, em águas pluviais – imaginem! – na vala de drenagem que existe à beira das ruas e estradas. Um instante de distração dos pais – será? – e a criança desapareceu. Mais tarde foi encontrada afogada. Eu não vi a cena, não houve divulgação de fotos. Mas quando soube do caso, tive um aperto tão forte no peito, que pensei que estava com angina. Não vi muita gente comovida. Será que a maioria das pessoas precisa ver para se comover?
E já que o assunto é crise e criança, seria uma grave omissão de minha parte não mencionar as crianças do Brasil que não têm uma vida minimamente normal, condenadas ao cárcere domiciliar sem serem criminosas; as crianças do Brasil que morrem todos os dias, vítimas da violência de crimes de toda sorte; as crianças do Brasil que são irremediavelmente transformadas em monstros criminosos – esse é o pior escândalo, transformar crianças em criminosos é muito pior do que causar sua morte.
Voltando à crise migratória, a questão é onde encaixar toda essa população que se evade, deixando tudo para trás, em busca de paz. Pelo que li nos noticiários, estas últimas levas de migrantes que estão chegando à Europa são de sírios que estavam em acampamentos de países vizinhos ao deles. Apesar de não estarem em zonas de bombardeio e perigo iminente, são famílias que sonham com uma vida melhor do que simplesmente sobreviver.
Aqui no Canadá, em pleno período de campanha eleitoral, cada candidato quer se mostrar mais receptivo aos refugiados, exigindo rapidez nos processos de aceitação. O Premier Stephen Harper, que também está na corrida eleitoral, está tendo que “rebolar” para satisfazer a opinião pública, ao mesmo tempo que tenta manter os critérios de avaliação de imigrantes, para evitar o risco de entrarem terroristas infiltrados na leva de refugiados.
Além de enviar importantes somas de dinheiro aos países necessitados de ajuda, que já acolhem os fugitivos, o Canadá está tomando medidas concretas para acelerar o processo de entrada desses imigrantes, mas sem negligenciar a segurança dos cidadãos canadenses. Já existe um grande contingente de refugiados no Canadá, que é um país acolhedor. Mas uma invasão em massa pode desestruturar qualquer um, por mais que haja infraestrutura. E um país desestruturado não poderá oferecer as melhores condições de vida desejadas.
Acho boa a ideia de ajudar os países onde os fugitivos já se encontram em acampamentos, para que possam ter uma vida mais normal. Ou, quem sabe, a ideia do milionário egípcio, citada por Ângela Dutra de Menezes[1], de comprar uma ilha e fundar um país para os que fogem da violência do Oriente Médio.
O mundo está conturbado demais. Não sei o que será das gerações futuras. Mais um motivo para darmos melhores possibilidades às crianças de hoje. Quem sabe, assim, elas encontrarão soluções mais promissoras.

quinta-feira, agosto 27, 2015

O último aceno: bye bye verão!

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English version

 “O sol vai se pondo na janela / As árvores e os postes correndo para trás / Lá vou eu nesse comboio sem trela / Trem que não pára, tempo fugaz”
(Janela Real III, M.C. V.-Montfils)

O mês de agosto chega ao fim. Inevitável constatar que o verão vai dando seus últimos suspiros, suas últimas baforadas quentes do vento amigo que vem do sul. O outono não tardará e já vemos sinais disso no verde cansado das folhagens, algumas já revelando seus últimos anseios, metamorfoseados em diversos matizes, que vão sangrar beleza aos nossos olhos, brevemente.

Antes que a natureza entre em hibernação, as cores da paisagem farão um espetáculo feérico, para nos deixar maravilhados. Felizmente, nos é permitido sentir a beleza; ela é frágil mas nos imprime sensações reconfortantes que alimentam nossa esperança.

No meu jardim, excetuando-se as flores anuais que plantei, das quais cuido com muito carinho, e que ainda estão vigorosas, restam poucas das silvestres, que estavam tão lindas, mas já começam a perder o viço. Não há nada que eu possa fazer para mudar esse percurso, elas cumpriram o papel que lhes cabia.

Um novo ano letivo começa (fim de agosto/início de setembro), os ônibus escolares estarão por toda parte, tingindo de laranja as ruas e estradas. Irão levando o futuro dentro das cabecinhas dos jovens, que se preparam para enfrentar uma jornada que não será nada fácil, com desafios incalculáveis. Em pouco tempo, essas crianças que hoje pegam a condução para a escola cedinho, voltando a casa ao final da tarde, estarão crescidas e a elas caberá agir e decidir.

Tudo passa tão rápido...

Todos os habitantes deste país se apressam em terminar as atividades que ainda são possíveis antes que a neve comece a cair. Na nossa região, isso pode acontecer a qualquer momento, logo que o verão vai acabando. Os ventos gélidos vindos do vizinho polo norte, logo, logo, começarão a soprar e a desnudar as árvores.

Dentro de pouco tempo, o céu e suas correntes de ar mostrarão o caminho do sul vivificante às aves migratórias; com seus gritos lancinantes, elas irão embora nos alertando que virá, para nós, o tempo do silêncio frígido e inflexível das águas, da lenta e inóspita brancura que esconde os segredos da vida.

Mas a neve traz alento quando a claridade do dia nos falta, refletindo e intensificando as luzes que restam para iluminar a escuridão. Na verdade, nós, canadenses, não temos medo. Reclamar é só uma questão de praxe. Tudo já está preparado para enfrentar o inverno e, por isso mesmo, a melhor postura é a de que “basta a cada dia o seu mal” [1], un jour à la fois.

Os sistemas de aquecimento estão funcionais, aquilo que tinha que ser reparado já foi. Janelas e portas estão prontas para não deixar passar sequer uma réstia de ar. Os telhados estão prontos para receber e despejar o peso do gelo. A lenha já está estocada para o caso de faltar eletricidade.

Falta recolher o que está lá fora, que usamos no verão, mas isso ainda pode esperar. Ainda está cedo também para a troca de pneus: por lei, somos obrigados a trocá-los o mais tardar em 15 de dezembro, mas sempre trocamos antes, pois a neve não conhece as leis dos homens.

Os armários já começam a se transfigurar... As roupas e lençóis mais leves de verão já estão indo para o baú, depois de lavados, e os agasalhos mais leves já retornam aos cabides. Tudo de leve ainda... slowly but surely. Casacos, gorros, luvas, cachecóis, meias de variadas espessuras, esperam sua vez para se espreguiçarem fora dos guardados.

Ah! E as botas! Vou poder usar aquelas novas que comprei para o inverno passado e não pude calçar porque estava com o dedinho do pé machucado! Lembrar delas agora me deu o mesmo prazer de quando as comprei.

Mas a melhor parte da indumentária de inverno, na minha opinião, são as luvas. Quando era criança, achava elegantes e charmosas as fotos antigas de minha mãe e minhas tias, usando luvas. Assim como as personagens dos filmes. Ficava encantada e me dava vontade de imitar os gestos das mocinhas, que ficavam mais graciosos com esse acessório. Pude ter essa catarse aqui, no inverno, usando minhas próprias luvas. Nada mais chique que pegar uma bolsa com a mão enluvada. E que charme, então, dar aquele adeusinho estando assim bem equipada!

Bye bye verão! À la prochaine !
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[1] “Não vos inquieteis, pois, pelo dia de amanhã, porque o dia de amanhã cuidará de si mesmo. Basta a cada dia o seu mal.” Mt 6: 34

sexta-feira, agosto 21, 2015

Duas solitudes

Publicado também pela KBR Editora Digital em 22 de agosto de 2015:

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         “Je peux voir les belles couleurs des solitudes. Elles se donnent la main de longs bras. ”  (L’enfant ailé, da autora)

Está ficando cada vez mais difícil escrever sobre os problemas do Brasil, parece que estamos chovendo no molhado, sem produzir frutos. Ninguém mais está aguentando ouvir falar das falcatruas e dos ódios que se acirram, colocando irmão contra irmão. Os escândalos se multiplicam, se agravam, nada se resolve a contento. Isso acaba minando a psique de qualquer um.

Mas não consigo me anestesiar diante de tanto desvario, fico com a sensação de que não posso me calar, pois quem cala consente. Não gostaria que o povo brasileiro se fragmentasse em solitudes, como se diz aqui no Canadá.

A expressão “duas solitudes” surgiu no romance do escritor Hugh MacLennan, fazendo alusão à falta de comunicação e de vontade de se comunicar, e ao distanciamento cultural entre os canadenses de origem inglesa e francesa, em seu livro intitulado “Two Solitudes”, publicado em 1945.

Mas o Canadá já tinha mais que duas solitudes, quando o autor usou a expressão, pois os povos autóctones, que são os índios e os inuits (esquimós), de tão isolados e distanciados, são esquecidos por muitos que abordam essa problemática. Diga-se de passagem que, mesmo entre os autóctones inuits e indios, não há entrosamento.

Atualmente, temos uma solitude a mais, que é a dos imigrantes. No meu caso é diferente, pois eu me casei com um canadense, passando a ter convívio com as entranhas do país. Mas as famílias que imigram e que não têm algum elo forte como esse, permanecem sempre um pouco à parte. Para os que têm costumes e tradições diferentes, por mais que sejam criadas leis de “acomodações razoáveis”, que aceitam essas diversidades para que se sintam bem, não se consegue a integração entre os povos.

Embora não haja animosidades evidentes, estes desencontros causam uma constante tensão, existe um descontentamento latente que paira civilizadamente no ar.

Quanto ao Brasil, com muita tristeza, tenho observado a fragmentação da população. Vários antagonismos estão surgindo, ou talvez melhor dizer recrudescendo. Alguns estão seguindo uma certa tendência mundial (branco x negro, homo x heterossexual... e por aí vai). Mas há um deles que é próprio do Brasil e que podemos resolver mais rapidamente, se quisermos: é a rivalidade que está dividindo o país, entre adeptos do PT e do PSDB, partidos até bem semelhantes, mas que se confrontaram nas últimas eleições presidenciais; a maneira como as campanhas eleitorais foram conduzidas e o resultado apertado a favor da candidata do PT deixaram uma sequela em parte da população, que está sendo difícil de superar. Tanto os políticos de ambos os lados quanto os partidários deles estão perpetuando a disputa ad æternum, num sintomático jogo entre “nós e eles”, trocando acusações, sem buscar soluções.

A situação está tão grotesca que, se alguém apresenta alegações justas contra um político ou governante, mesmo que o faça sem partidarismos, vem logo um oponente dar exemplos criticáveis do outro lado, sem sequer considerar o mérito da questão; virou uma briguinha mesquinha. Numa sociedade madura, os dois grupos da população, que apoiaram os candidatos, ao descobrirem erros, seja de quem for, deveriam se unir e tentar ajudar o país a se livrar desses problemas. Falta humildade, sobra arrogância.

Os ódios estão chegando a tal ponto, que há cidadãos armando verdadeiras batalhas verbais, às vezes até chegando às vias de fato, como se cada um estivesse defendendo ardentemente a própria mãe...

Não nos iludamos, historicamente sabemos que os nossos governantes e políticos nunca cuidaram do povo como quem os escolheu para defender seus direitos, missão para a qual recebem altos salários, pagos por este mesmo povo; nunca foram como mães, jamais trataram o povo brasileiro nem como irmãos. Muito menos agora, que estamos presenciando roubos de tal monta que jamais poderíamos imaginar. E é justamente o povo que está sendo assaltado.

Creio que esta belicosidade que se instalou na população se deve à desorientação do governo e à grave situação de crise que impera, causando mal-estar geral e desequilíbrio emocional em muitos. Mas minha preocupação é para que não se solidifiquem “duas solitudes” – “nós e eles” –, cada qual interessada em defender o seu lado, esquecendo de que seus políticos não estão cuidando das questões graves que existem e que merecem ação imediata.

Seja qual for a causa que tenha desencadeado esse caos em que o Brasil está atolado, é preciso pensar em sanar os problemas o mais rápido possível, deixando as picuinhas de lado. Essas rivalidades e desentendimentos não levam a nada, só aumentam o nível de stress que já está elevadíssimo, só pioram a situação.

Não devemos imitar os políticos e governantes que se engalfinham, cada um querendo levar mais vantagem que o outro. A repetição dessa atitude no seio da população só traz inconvenientes. Em estado de irritabilidade e raiva, não conseguimos raciocinar direito. Temos que juntar nossas cabeças e colocá-las para pensar e analisar melhor o que está acontecendo no país, isentos de partidarismos; só assim poderemos ajudar a encontrar soluções inteligentes para os males que nos afligem, sejam eles quais forem, venham de onde vierem. Disso depende nossa vida futura no Brasil.

Esses ataques mútuos entre cidadãos só enfraquecem o poder de decisão da sociedade. A politicagem, pejorativamente falando mesmo, a bandidagem, a roubalheira, que estão grassando no nosso país, são muito graves. Não podemos tornar vãos nossos esforços, não podemos desperdiçar nossas energias nos digladiando entre nós mesmos, enquanto a bandalheira continua. Temos que agir contra os prejuízos que nos foram causados e precisamos correr contra o tempo. Se o povo não se unir, certamente sairá perdendo mais uma vez.

Não deixemos imperar o signo do “nós e eles” que querem impingir no âmago da população. Isto, sim, é golpe. Porque somos todos da mesma salada. Se existe um “nós e eles”, eles são os políticos e governantes nos sugando, nós, o povo brasileiro.