http://www.kbrdigital.com.br/blog/mudando-de-assunto/
e
https://www.cronicasdakbr.com/2015/09/26/mudando-de-assunto/
Essa semana, me lembrei de uma
de minhas saudosas tias. Quando um assunto a incomodava e ela julgava já tê-lo
dissecado à exaustão, costumava perguntar, em tom peremptório e escancarada
sinceridade: Vamos mudar de assunto?
Se alguém insistisse em continuar, ela dizia que não queria mais falar sobre
aquilo e saía da sala, sem a menor cerimônia.
Eu já sou mais propensa a um
bom lero-lero, mas sempre tento me controlar, nem sempre com sucesso, reconheço.
Nesse quesito, minha tia se adaptaria aqui no Quebec bem melhor do que eu, e
talvez houvesse até uma disputa, entre ela e os “Québécois”, de quem
finalizaria a conversa primeiro; a resposta provavelmente chegaria antes da sua
pergunta: “On n’en parle plus”.
Por muito, mas muito menos
do que estamos vendo acontecer no Brasil, já vi vários políticos e governantes,
aqui do Canadá, encerrando o assunto, ao abandonarem o cargo. E não só o cargo,
abandonam a carreira política em caráter definitivo, nunca mais se ouve falar
deles. Mas... “vamos mudar de assunto?”
Nada pode demorar muito por
aqui, tudo tem que ser rápido. Talvez seja influência do clima, pois são poucos
os meses possíveis para os trabalhos que devem ser feitos do lado de fora dos
abrigos antiinverno – sim, assim podemos chamar as construções, que são cheias
de estratégias contra uma guerra desumana, a do frio. E é preciso rapidez antes
que venham as toneladas de neve. Acho que é por isso que todos aqui são
extremamente apressados.
Dizendo assim, parece que
quando o inverno chega, todos se acalmam. Não, o costume está muito arraigado e
outros motivos surgem para ter pressa. É preciso sair mais cedo, em caso de
haver dificuldades no trânsito, por neve ou gelo. O que tiver que ser feito com
a luz do dia, que seja rápido, pois a noitinha começa a cair no meio da tarde.
E assim segue a vida no Canadá, gelando e degelando.
Nas autoestradas, então, se
os limites de velocidade são entre 60 e 100 km/h, o canadense vai no mínimo a
100, nas pistas da direita, que é para os mais lentos. Enquanto isso, nas pistas
da esquerda, passam os bólidos. Mas o que mais me incomoda é que vão todos
colados uns nos outros. Dá a impressão de que se sentem desafiados quando o
carro da frente se distancia; como se dissessem para si mesmos que também são
capazes de correr. Acontecem tantos engavetamentos e os condutores não
aprendem...
Pior ainda é quando, além da
alta velocidade, decidem se comunicar com alguém por algum dispositivo móvel. O
carro vai ziguezagueando perigosamente... mais acidentes!
Mas, justiça seja feita, estes males das estradas não são exclusivos daqui, são do ser humano, em qualquer lugar do mundo. Aqui, pelo menos, as estradas são de ótima qualidade!
Mas, justiça seja feita, estes males das estradas não são exclusivos daqui, são do ser humano, em qualquer lugar do mundo. Aqui, pelo menos, as estradas são de ótima qualidade!
Por essas e outras, prefiro
as estradas rurais, que são também muito boas, bem asfaltadas, às vezes britadas. Trânsito
quase não há. Máxima de 70 ou 80 km/h que, muitas vezes, não chego a atingir,
pois não há carro nenhum colado atrás de mim. Frequentemente, são caminhos mais
longos do que se fosse pela autoestrada. Os apressados os evitam, obviamente.
Muitos jovens nem conhecem essas estradas... “tant mieux”. Lá vou eu, feliz, conversando com meu GPS.
Mas não são só os humanos
que têm pressa nesses climas nórdicos. Logo que o outono vai começando, com
temperaturas mais baixas, as aranhas começam a entrar nas casas, não se sabe
por onde, pois tudo é tão calafetado! E a produção de teias se faz num ritmo
incrivelmente veloz. Foi assim que compreendi que não há exagero algum naqueles
filmes americanos que mostram lugares cheios de teias de aranha, que os
personagens vão desbravando como se estivessem numa floresta impenetrável. É
verdade e não é preciso muito tempo para que um cenário desses tome forma.
Ainda bem que não são venenosas.
Ah! E as joaninhas, aqueles
insetos coleópteros da família Coccinellidae,
que possuem uma carapaça redondinha de cores vistosas, salpicadas de pintinhas
também redondas. Tão bonitinhas! Quando me mudei para cá, fiquei admirada de
reencontrar esses bichinhos que me encantavam quando era criança, numa Belo
Horizonte ainda não completamente urbanizada. Mas fui logo me desencantando,
pois uns dois anos após minha chegada, começaram a aparecer joaninhas de uma
outra espécie, que invadiam nossas casas, logo que começava a fazer frio.
As joaninhas canadenses são
vermelhas e bem adaptadas ao clima, procuram abrigo do lado de fora mesmo. A
nova espécie invasora é alaranjada. Dizem que foi importada da Ásia, pelos
Estados Unidos, para combater pragas das plantações. Essa espécie mostrou-se
altamente invasiva e foi ampliando seu território em direção ao norte, até
chegar no Canadá. Cada ano, uma região mais ao norte é invadida. O inseto se
transformou, ele próprio, numa verdadeira praga.
O problema é que essas
joaninhas asiáticas entram em pânico quando o tempo começa a esfriar e
conseguem se meter entre a borracha e a moldura de guarnição das nossas portas
e janelas, por incrível que pareça. Com sua carapaça resistente, elas espremem
a borracha que faz o isolamento e assim entram, muito hábeis e absurdamente
velozes. Em pânico também entro eu, quando elas começam a aparecer aos milhares
dentro de casa. Felizmente, parece que houve uma fase de superpopulação que
durou em torno de dez anos e, agora, os ataques estão se reduzindo. “On n’en parle plus”.
Apesar de tudo isso, gosto
muito de viver no Canadá, e minha estação preferida no ano é esta que ora nos
brinda com temperaturas amenas e um céu magnífico. Não vejo a hora de ver, novamente,
o espetáculo de cores das folhagens. É um fenômeno de beleza incomparável, mas
efêmero, pois as folhas não tardam a cair abruptamente, antes que a natureza inicie
sua longa hibernação... O inverno de novo? Vamos
mudar de assunto?
Nenhum comentário:
Postar um comentário