sábado, agosto 15, 2015

A saúde vai bem, obrigado

Publicado também pela KBR Editora Digital em 15 de agosto de 2015
https://cronicasdakbr.kbrinternational.org/2015/08/15/a-saude-vai-bem-obrigado/
https://www.cronicasdakbr.com/2015/08/15/a-saude-vai-bem-obrigado/

Não, não me refiro ao sistema de saúde do Brasil nem do Canadá. É que na província de Quebec, a coisa anda tão complicada que resolvi, quase em desabafo, fazer um apanhado geral da situação, uma espécie de manual de instruções para um eventual usuário incauto, que venha se instalar por aqui, atendendo aos charmosos e atraentes recrutamentos feitos pelas Embaixadas e Consulados do Canadá, por esse mundo afora.

Estou especificando bem que se trata de Quebec, porque o assunto que vou abordar é saúde e aqui a assistência médica é da alçada do Ministério da Saúde de cada província e território. Como nunca morei em outras províncias, não posso dar testemunho, enquanto paciente, a respeito do que acontece no ROC – “Rest of Canada” (expressão usada pelos “Québécois, num antagonismo aos “Canadians”, os ingleses, sentimento que é recíproco – a versão canadense do “nós e eles”).

Longe de mim querer amenizar o que se passa no Brasil no quesito atendimento médico, mostrando que aqui também há problemas graves, mesmo porque a situação é muito pior lá, não resta a menor dúvida. Faço, porém, a prudente ressalva de que é pior não exatamente no que concerne aos médicos (do tempo em que eu ainda morava no Brasil), mas no contexto geral de falta de infraestrutura para atender às necessidades de uma população muito mais numerosa e com uma grande parcela em estado de pobreza. 

Mas vamos lá: como é que um cidadão “monsieur-madame-tout-le-monde” pode ser atendido por um médico na província de Quebec? Se já conseguiu ser um doente cadastrado, com um diagnóstico que demanda acompanhamento, aí os atendimentos seguintes são mais fáceis. Senão... 

Se for uma urgência, melhor ir de ambulância ao hospital, caso contrário, corre o risco de, após uma breve triagem feita por enfermeiros, ter que aguardar um dia inteiro na sala de espera e mesmo nem ser atendido por um médico.

Se não for tão urgente assim, há algumas opções, a saber:

- Se tiver um médico de família (que é um clínico geral), marcar uma consulta que, na melhor das hipóteses, será dentro de duas a três semanas. Consegui a proeza de ter um médico de família, coisa quase impossível por aqui, nos últimos anos. Nem me queixo de ter que viajar para me consultar – os médicos da cidade onde moro já estavam com sua “quota” completa. E não se atende nem meio paciente que ultrapasse a dita quota para a qual são pagos pelo governo, ou seja, pelo povo. 

A minha médica é muito ocupada; tentei marcar, certa vez, para uma consulta de “check-up” e fui informada de que ela estava com a agenda completa para os próximos 6 meses e que eu deveria telefonar de novo dentro de três meses, para tentar uma vaga, em data imprevisível.

- Se não tiver médico de família, ou teve a resposta que eu obtive (ver acima), procurar as clínicas sem marcação de consulta (cliniques sans rendez-vous). Antes, a gente chegava cedão e ficava na fila – recebia uma senha (até um certo ponto) e era atendido por ordem de chegada. Agora, para eliminar as filas, a gente tem que telefonar cedinho (ou na véspera, à noite, em algumas)... Ou seja, é mais ou menos “sans rendez-vous”. O telefone dá ocupado nos milhares de tentativas efetuadas e, quando atende, a funcionária apressada diz, secamente, que já está completo... “por favor, tente de novo amanhã”.

- Se conseguir passar pelo clínico geral (tem que ser o primeiro passo, obrigatoriamente), ele tenta resolver seu problema no menor tempo possível, com um mínimo irrisório de exames complementares e, se o caso tiver que ser encaminhado para um especialista, você é advertido de que, talvez, tenha que esperar não menos que um ano para ser avaliado.

- Se não conseguiu consultar ainda, após incontáveis tentativas, e tiver uma boa grana sobrando, pode procurar uma clínica particular, se houver uma na região. Isso não existia em Quebec, começou há alguns anos, completamente fora do controle do Ministério da Saúde. A conta sobe mais rápido que um foguete (um exemplo[1] : « Pour avoir un dossier à la clinique, les patients doivent débourser 110$ par année. Une urgence de 15 minutes coûte 80$, un rendez-vous de suivi de 20 minutes, 105$ et un bilan de santé de 30 minutes, 150$.») 

E, mesmo se houver uma clínica particular na região, corre o risco de não poder ser atendido no mesmo dia – tentei há um tempo atrás e não consegui. E nem para dia nenhum, pois não estavam mais aceitando novos "dossiers". Mesmo estando disposta a pagar. Quando vi quanto poderia custar, com a conta subindo a cada movimento do ponteiro do relógio, fiquei aliviada com a falta de disponibilidade.

Há quem diga[2] que o problema se deve à penúria de médicos de família. Mas eu tenho uma e não consigo me consultar, quando preciso. “Check-up”? Oublie ça.

Enquanto isso, há clínicas veterinárias em cada esquina, não teríamos dificuldade alguma para marcar uma consulta para a Totoche, nossa gatinha, nem no caso de uma urgência.

Aqui não existem aqueles convênios médicos, como no Brasil, pelos quais qualquer cidadão pode escolher um plano de saúde e pagar mensalidades, a fim de ter cobertura para consultas, exames complementares e internações, quando precisar. Algumas empresas têm convênios com planos de saúde para serviços oferecidos aos seus empregados, mas isso não muda em nada a maneira como se tem acesso a consultas. A única vantagem desses planos conveniados é cobrir serviços dentários e de oftalmologia, que não são cobertos pelo sistema público.

O Canadá está passando por uma fase de transição. Antes, só existia o sistema público de assistência à saúde. Pelo que ouvimos nos noticiários, os médicos alegam estarem sobrecarregados, apesar de ganharem um salário invejável e terem uma carga horária de trabalho privilegiada, no meu entender. Agora, estão aparecendo mais e mais clínicas particulares, mas as mudanças ainda não estão regulamentadas ao gosto de todos. Acho que vamos precisar de paciência... teremos que ser duplamente pacientes!

Nesse meio-tempo, tento ver o lado bom do que vivenciamos. Nesse caso específico, vejo a experiência pela qual estou passando como um exercício de desapego, muito útil para o autoaperfeiçoamento. Não é piada, estou falando sério. No Brasil, sempre trabalhei em hospitais, tinha muitos amigos e familiares médicos, tinha um bom plano de saúde, de modo que tinha fácil acesso a todos os serviços. Ao me estabelecer no Canadá, caí na vala comum dos mortais, com todas as dificuldades que enfrentam. Alguns poderão dizer, e até eu própria penso que foi bom para sentir na pele o que o povão brasileiro sofre. 

Em compensação, estou num país dentre os melhores do mundo em questão de qualidade de vida; com tudo o que acabei de relatar, parece piada também, mas não é. Aqui, pelo menos, não temos medo de sermos assaltados por bandidos da rua, nem do governo. A gente não pode querer ter tudo, não é?

Neste ano de 2015, houve uma pequena melhoria no atendimento, para mim, pois passei a ser uma “doente cadastrada”, portadora de um mal que necessita acompanhamento. Opa! Oba, não! Depois de reais longos e tenebrosos invernos, esperando uma chance de consultar minha médica, para o célebre “check-up”, por sorte ou azar – prefiro considerar que há males que vêm para o bem – meus exames acusaram hipotireoidismo: minha glândula tireóide está funcionando abaixo das expectativas. 

Voilà, matei dois coelhos de uma cajadada só: está justificada a minha preguiça e porque não consigo emagrecer – agora tenho uma boa desculpa! Mas não por muito tempo, pois já estou em fase de tatear qual dose do hormônio tireoidiano deverei tomar para controlar esse mau funcionamento. 

Há ainda um terceiro coelho que saiu da cartola: passei a ter direito a um atendimento sequencial, por uma super-enfermeira, que não é tão apressada como o coelho do país das maravilhas... nem como a minha lacônica médica, que é muito ocupada, como já disse. O atendimento intermediário pela enfermagem foi uma das saídas encontradas pelo sistema para aliviar o peso sobre os médicos. Espero que dê certo.

No final das contas, estou feliz da vida, pois já perdi alguns quilinhos, após o início do tratamento! Não tem jeito, as mulheres – sorry, nem todas – são mesmo escravas da vaidade!


                                                                                      

sexta-feira, julho 31, 2015

Flox e Singles K, lá e acolá

Publicado também pela KBR Editora Digital, em 1º de agosto de 2015

http://www.kbrdigital.com.br/blog/flox-e-singles-k-ca-e-acola/
e
https://www.cronicasdakbr.com/2015/08/01/flox-e-singles-k-ca-e-acola/

Já são cem singles K, cem livros de crônicas da KBR Editora, em cem semanas! Sem cessar! Um desafio enfrentado com criatividade, espírito crítico, humor e disciplina por uma equipe determinada e talentosa, transestatal e transnacional, sob a liderança da Nossa Star, digo, Noga Sklar! Os textos encontram seu destino onde quer que esteja a nossa Editora, nesse admirável mundo virtual, e dali partem para o público, após o devido processamento. Tenho muito orgulho de participar desse time que joga para ganhar... Já festejando 100 gols! Sim, gols cá, lá e acolá, vindo de toda parte, indo para todo lugar! 

Uns estão na peleja desde o início, outros chegaram mais tarde, como eu. Não consigo exprimir quanta emoção foi para mim ter sido convidada a entrar para o grupo. Sempre tenho algum receio de não estar à altura da empreitada e isso se transformou num estímulo para me esforçar e contribuir com o melhor que posso. Tenho aprendido tanta coisa escrevendo essas crônicas semanais, que me sinto imensamente recompensada e só tenho que agradecer por poder fazer parte desta equipe dinâmica e competente. 

Este modelo semanal ou quinzenal de escrever com o compromisso de fornecer matéria para publicação, nos faz exercitar nesta arte tão elevada que é a escrita. É uma atividade deliciosa, que nos mantém em dia com os fatos, ao mesmo tempo que nos incentiva a refletir, a burilar nossas ideias para transmiti-las aos outros. Escrever é algo fascinante. O que fica registrado estabelece uma espécie de sinapse entre neurônios de pessoas diferentes, atuais, futuras e de vários lugares. É a comunicação atravessando os séculos e os quilômetros, deixando vestígios da vida humana e sua evolução, e com o potencial de influenciar quem lê. É mais importante do que a gente calcula!

Hoje, estamos nos contorcendo de aflição e preocupações com o presente e o futuro do Brasil. Oxalá os problemas se dissipem em breve e permitam à pátria amada ser  mãe gentil para todos os brasileiros. Quando, num melhor porvir, lerem nossas crônicas cheias de apreensões e de denúncias do que pensamos estar errado, saberão da gravidade dos acontecimentos desta época e que lutamos de alguma forma para combater os males, mesmo alguns de nós estando longe do país.  

Também fora do Brasil, as coisas não vão nada bem. O mundo está muito conturbado, não se valoriza tanto mais a vida, não só a humana, mas do planeta inteiro. Tantos horrores sendo cometidos e banalizados, tanta ganância, tanto imediatismo... Quando tentamos procurar outros assuntos, em outros lugares, tentando nos afastar de nossas preocupações diárias, nos deparamos com situações dantescas, nem um pouco tranquilizadoras. Às vezes, ficamos tão desiludidos, que falta inspiração para escrevermos nossos textos: dizer o quê? Perdemos a graça.

Vou confessar uma coisa que podem até pensar que é “puxa-saquismo” – e pode até ser – mas é a pura verdade: muitas vezes, eu me motivo lendo os textos e frases da nossa “star” Sklar, tanto em suas crônicas, quanto nas redes sociais, com sua sagacidade e humor inteligente, sempre deixando transparecer um ânimo inabalável. E digo a mim mesma: vou tentar “noglar”, eis aí um verbo que inventei e que uso frequentemente.

Além de editar os textos das crônicas, dos livros, com esmero, conhecimento e sabedoria, além de escrever também e tão bem, ainda fazendo todas essas mirabolâncias com as produções digitais etc etc etc, não sei como consegue estar sempre de bom humor e não ficar exausta. Hats off! 

As flores do meu jardim hoje, esses lindos flox, são para ela, assim como para todos os escritores desse time de sucesso. Por favor, aceitem esse presentinho que escolhi com muito cuidado: é o buquezinho mais lindo e o mais perfumado... Só não faço minhas as “mal traçadas linhas” – que tentação! – senão a Noga mete bronca na correção, sempre justa e democrática, diga-se de passagem.

Quero felicitar a todos pelo ótimo trabalho, faço questão de sempre ler as crônicas. Como já disse, tenho aprendido muita coisa! Que possamos continuar a “noglar” por muito tempo, e que muitos outros centos venham!!!

sexta-feira, julho 17, 2015

Batuque no jardim

Version en français

Também publicada na KBR Editora Digital, em 18 de julho de 2015
https://cronicasdakbr.kbrinternational.org/2015/07/18/batuque-no-jardim/
http://www.kbrdigital.com.br/blog/batuque-no-jardim/
e
https://www.cronicasdakbr.com/2015/07/18/batuque-no-jardim/


Não sei se é por ter completado mais um decênio de vida, ou se esse negócio de lembrar do passado é coisa de expatriado. Talvez seja por ter encontrado tudo tão mudado, em recente viagem à terra natal. "Mas que bobagem, isso é natural..." 

Não vou dizer que é porque estamos no verão, que este ano está estupendo aqui no Canadá; também não vou dizer que é porque gostaria de estar lá... Não, sobretudo neste ano de 2015 d.C., o Brasil está refratário à ordem e ao progresso, está de dar medo, confesso. Só mesmo família e amigos para me motivarem a visitar a terrinha. E esta saudade eu bem posso cultivar, ela é minha... 

Cuidando do meu jardim, uma flor ou outra me transporta no tempo, de vez em quando, pelo poder dos aromas. Cheiro é coisa difícil de descrever, mas a gente lembra. Havia perfumes em certos bairros de BH, provenientes de não sei que planta. Cheiro de árvore mesmo. Podiam me vendar os olhos que eu saberia onde estava. 

Ah... as florinhas de abril tão amarelinhas! Dignamente agrestes, cheiravam a mato mesmo, e brotavam em qualquer lugar: nos barrancos, nos lotes, nos morros, no quintal, na rua... Douradamente amarelas, como se fosse o sol derramado e esparramado.

Mas nem estava pensando em nada disso, quando um vento por acaso vindo do sul, em rajadas, trouxe um som antigo de uma escola de samba que ensaiava na favela do “Morro do Pau Comeu”, em Belo Horizonte. O batuque ficava fraco, sumia, depois ficava mais forte de novo, ao sabor das baforadas do ar. Aquele barulho às vezes atrapalhava, tirava a concentração; mas quase sempre eu entrava na cadência, mentalmente, sem perceber. Era assim quase o ano inteiro, o ritmo em modo subliminar, marcando para sempre minha alma brasileira. 

Interessante como há registros latentes em nosso repertório de memórias, oriundos de eventos e sensações que contribuíram para nos moldar, sem que nos déssemos conta disso, e que, volta e meia, tornam a fustigar nossas emoções e pensamentos, reavivando afeições, revelando nossas feições. 

Pois o som daquela bateria, que há tantos e tantos anos não ouvia, estava em algum recanto dos meus guardados, pronto para sair a qualquer momento, sambando em pleno território canadense.

Num gesto instintivo mais forte que a razão, desviei os olhos para o lado de onde vinha o vento, como se fosse ver algum passista com suas acrobacias, ou uma porta-bandeira emplumada e graciosa a rodopiar, surgindo através da vegetação exuberante que nos cerca nesta época do ano. As árvores pareciam embaladas pelo ritmo, talvez estivessem escondendo seus tambores em suas folhagens abundantes.

Sem anúncio alusivo nem grito de guerra, comecei a gingar e ensaiei alguns passos, como uma tresloucada. Sem poder associar minha mise-en-scène à sonoplastia que me inspirava, meu marido não pôde resistir ao ímpeto de rir, com um certo ar desconfiado, diante daquele súbito gestual... Seria algum ritual primitivo que eu ainda não tinha lhe revelado que costumava praticar? 

Para que o efeito observado nele não causasse alguma consequência irreversível, rapidamente perguntei sobre a origem daquele barulho. Foi aí, então, que ele reconheceu a dança que, pelo menos, acompanhava o ritmo. Claro que já tentei sambar muitas outras vezes, mas sempre acho que meu jeito é um tanto acaboclado, provavelmente como eu e minha brasilidade, que mistura tudo; lembra um pouco, talvez, a dança indígena para chamar chuva, sei lá. Bem que minhas plantinhas estavam precisando de uma chuvinha...

Os tambores ritmados que ouvíamos vinham de uma velha enfardadeira[1], que estava sendo usada numa fazenda dos nossos arredores. Trata-se de uma espécie de trator com dispositivos para comprimir o feno, produzindo os tradicionais fardos em forma de paralelepípedo ou cilindro, que são assim recolhidos. É um trabalho duro – carregar fardos não é fácil. Mas são boas recordações da sua juventude quando, junto com a família e amigos, meu marido enfrentava a labuta diária da fazenda, antes de tomar outros rumos na sua vida. Apesar de não haver muitos momentos de descanso, eram atividades saudáveis, uns ajudando os outros na sobrevivência. Agora existem maquinarias que fazem praticamente todo o trabalho, porém alguns poucos remanescentes dos antigos tratores ainda continuam em uso.

Vivendo aqui, venho aprendendo muita coisa sobre o Canadá, vou me inteirando da História deste país. Acho tudo muito interessante para ampliar meu conhecimento, sem ficar olhando só para o meu próprio umbigo brasileiro. A gente passa a compreender melhor como é que “assim caminha a humanidade”. Por isso, partilho esses traços de cultura com meus leitores e espero que não seja inútil. 

De lá para cá, do nosso tempo de juventude até os dias de hoje, tanta coisa mudou! Embora nem sempre para melhor, não podemos negar que houve algum desenvolvimento e que a vida ficou melhor em muitos aspectos. A tecnologia, por exemplo, ajudou bastante. Sem ela, não poderia estar expondo aqui minhas palavras e meus sentimentos, que ficarão, como tantos outros, disponíveis para quem quiser ler e, quem sabe, encontrar neles alguma graça ou utilidade. 

Não podemos desanimar, não podemos deixar o samba morrer. Faço a minha parte, prometo nunca mais tentar sambar.

sábado, julho 11, 2015

E a caravana passa...

Também publicado pela KBR Editora Digital:
https://cronicasdakbr.kbrinternational.org/2015/07/11/e-a-caravana-passa/
http://www.kbrdigital.com.br/blog/e-a-caravana-passa/
e
https://www.cronicasdakbr.com/2015/07/11/e-a-caravana-passa/



Aquela tarde de verão parecia infinda. Felizmente, sombra e Wi-Fi não me faltavam na pracinha movimentada do shopping, enquanto esperava meu marido. Tínhamos combinado de nos encontrar ali, após minha caminhada pela “Route Verte La Campagnarde”,  e eu chegara mais cedo do que previsto. 

De um ângulo de observação por acaso estratégico, a cada vez que tirava os olhos do meu “dispositivo móvel”, eles se viam diante de uma senhora atenta ao seu tablet, sentada num banco bem vis-à-vis ao meu, em meio ao vaivém da turba. Tive a impressão de já tê-la visto antes, provavelmente também na sua andança pró-saúde. Sim, era ela com quem cruzara, dias atrás, no caminho que faço; tínhamos até trocado alguns comentários banais sobre o clima – o assunto “oficial” do Canadá. 

Sentadas ali naqueles bancos daquela tarde de verão, estávamos como que ausentes, com nossas engenhocas ligadas aos nossos espaços virtuais. Interessante como a tecnologia da comunicação colocou o mundo inteiro conectado, cada um tentando povoar a sua solidão. 

Quase sem tirar os olhos do seu tablet, de vez em quando ela mordiscava algo parecido com uma barra de cereais. Com indumentária e calçados esportivos, cabelos castanhos, com a cabeça baixa, era difícil precisar sua idade. Mas tendo visto seu rosto de perto, eu sabia que parecia ter uns 50 anos, ou até mesmo 60... Como eu.

Na nossa idade, muita coisa vivenciamos neste mundo, presenciamos grandes mudanças no pensamento e no comportamento humano dito ocidental. Mas, ao contrário do que muitos dizem, penso que sempre houve mudanças significativas, isso não é privilégio dos nossos tempos – cada evolução com a devida repercussão nos costumes de cada época. Porém, não arrisco opiniões sobre outros povos “não ocidentais”. Não tenho conhecimento suficiente sobre o assunto.

Vendo aquela senhora, ali diante de mim, com uns ares de mulher realizada e independente, me veio à mente um artigo que li há pouco tempo, sobre a posição da mulher no mundo atual. Muito se falou e se fez em prol da emancipação da mulher e muito se fala hoje sobre igualdade de gêneros; as mulheres continuam reivindicando equivalência de direitos. Parece que ainda existe uma disparidade de salários entre homens e mulheres, não só aqui no Canadá, mas no mundo inteiro[1]. Além disso, a “mulher sapiens” – com o perdão da má expressão de nossa presidente brasileira – reclama  maior participação no comando econômico e político.

Devo declarar de antemão, e felizmente, que não sofri esse tipo de discriminação na minha vida de profissional liberal, mas parece que as estatísticas provam que há realmente tratamentos desiguais às mulheres no âmbito do trabalho. Obviamente, temos que lutar para terminar com esse atraso horroroso.

Por outro lado, creio que há exageros numa nova corrente de pensamento que tem tomado força ultimamente. Acho demasiado dizer que os dois sexos são exatamente iguais em tendências e capacidades, e que só ficam diferentes porque recebem educação direcionada para que se tornem assim. Acho redundante dizer isto, porém parece que há quem não perceba: a anatomia e a fisiologia são diferentes e conduzem a desenvolvimentos físico e psicológico característicos de cada sexo, intrinsecamente ligados a instintos básicos, dos quais não escapamos, como animais que somos.

Contudo, para não ferir susceptibilidades, doravante neste texto, não vou mais escrever “homem” e “mulher”. Vou chamar os antigos homens de GPE (que têm genitália predominantemente externa) e as antigas mulheres de GPI (que têm genitália predominantemente interna). Por favor, GPS continua sendo “Global Positioning System”, e não “grupo provido de seios”. Uma pena que a língua portuguesa não possua artigos, substantivos e adjetivos neutros, como no alemão, e vou ter que usar o masculino genérico. Sorry.

Peço desculpas aos GPE, se estiver errada e que, por favor, me corrijam.

Na minha opinião, nem nas experiências amoroso-sexuais, os GPE são iguais aos GPI, como advogam os defensores da igualdade de gêneros. Acho que os GPI, por mais “liberados” que sejam, mental e sexualmente falando, incorrem no erro de acharem que podem abordar intelectualmente o sexo como os GPE. Não podem. O que vou dizer parece óbvio... e é mesmo. Somos feitos anatômica e hormonalmente diferentes. O nosso cérebro tem conexões diferentes. O nosso sexo é diferente. Porque estamos presos, GPI e GPE, a funções e instintos primitivos distintos, dos quais não escapamos, por mais que queiramos achar que o nosso intelecto os tenha sobrepujado. São índoles que existem independentemente de nossa vontade, instintos mesmo.

O sexo do GPE, o sistema designado para a cópula e reprodução, é um aparelho externo, por assim dizer. É tão comum vermos os GPE fazerem brincadeiras sobre pênis e escroto, como se fossem alguma coisa independente, autônoma, que lhes dá prazer, que muitas vezes os surpreende, como um brinquedo... Como se fosse algo que vem de fora. Parece haver uma sintonia entre esta exterioridade anatômica e a maneira como os GPE experimentam a sexualidade, isto é, o sexo está em um compartimento separado, distinto e independente do recôndito da intimidade dos sentimentos. Obviamente, há muitos GPE que, por força da educação que tiveram, conseguem estabelecer conexões entre os compartimentos mais facilmente. 

Nos GPI, o sexo tem uma posição mais interna, é mais interiorizado. A ereção não é visível como a do GPE e os órgãos genitais de cópula e reprodução não são tão aparentes. Também nos GPI parece haver uma sintonia entre a interioridade do aparelho genital e a maneira como experimentam a sexualidade. Esta parece estar mais associada ao interior de seu ser, não havendo uma divisória evidente que separe compartimentos. O compartimento da sexualidade parece se avizinhar ou mesmo se fundir com o compartimento dos sentimentos, no âmago do estado de ser GPI.

Por esta razão, penso que o GPI não é capaz de ir muito longe em um relacionamento do tipo “amizade colorida”, por exemplo. Ele vai, inevitavelmente, sentir os efeitos da fusão dos compartimentos do sexo e do sentimento – e vai interiorizar a experiência que estiver tendo, por mais que tente intelectualizá-la. E com tantos quantos forem os relacionamentos, e mesmo que sejam contemporâneos. Os relacionamentos não vão ficar isentos de sentimento por muito tempo. Aliás, ouso dizer que um GPI sempre imprime sentimento em seus relacionamentos, desde o início, por mais que tente se convencer do contrário. A não ser que se condicione intensamente para experiências em série e sem compromisso, mas aí já é outra história.

Por outro lado, os GPE embarcam muito mais à vontade numa “amizade colorida” que os GPI. Esta é a “praia” deles. E eles não vão se esforçar para explorar o compartimento interior deles mesmos, se não lhes for apresentada esta necessidade. E essa necessidade é do GPI, é ele que tem que levantar a sua bandeira e estabelecer critérios. 

“Mulher é desdobrável”, como diz Adélia Prado; ela vai se desdobrar para se adaptar às situações, mas não sem estar sacrificando alguma parte da sua interioridade. 

Depois de transcrever um verso da grande poetisa, já tenho salvo-conduto para prosseguir com minha linguagem “antiquada”, usando os termos homem e mulher.

Então, eu acho que, muitas vezes, quando as mulheres pensam que estão ficando mais “modernas” e “feministas”, elas estão é perdendo sua identidade, moldando-se à moda dos homens. E vou mais longe. Sem saber ao certo do que se trata, o homem quer que uma mulher lhe mostre o caminho do sentimento. É aí que ele vai se descobrir e se completar. Se não, ele não vai além da “amizade colorida”, e não vai explorar seus próprios compartimentos internos.

Como sou mulher, e antiga, posso estar sendo muito tendenciosa nessa análise. Seria interessante saber o que os homens pensam da minha colocação...

Ah, já ia esquecendo de contar que, enquanto eu devaneava, o GPE daquela senhora chegou e foram embora, felizes para sempre.








sexta-feira, julho 03, 2015

Dia do Canadá... E Luisa, onde está?

Publicado também na KBR Editora Digital:
https://cronicasdakbr.kbrinternational.org/2015/07/04/dia-do-canada-e-luisa-onde-esta/
https://www.cronicasdakbr.com/2015/07/04/dia-do-canada-e-luisa-onde-esta/


"Change is not made without inconvenience, even from worse to better."
   - Richard Hooker

Esta semana, especificamente no dia 1º de julho, uma de minhas sobrinhas mal se formou na universidade e saiu de mudança para fora de Minas Gerais, convidada para trabalhar em outro Estado. Isso é coisa para se festejar, principalmente dadas as dificuldades que os jovens estão enfrentando para arrumar emprego no Brasil, atualmente. Mas ir instalar-se longe da família é sempre algo dolorido, por mais que represente algum tipo de realização pessoal... eu que o diga, quando me mudei para o Canadá.

Interessantes foram as coincidências e fiquei me sentindo em agradável sintonia: minha mudança também ocorreu em um 1º de julho, um dia dos mais movimentados por aqui. Além de ser o "Canada Day", é o dia das mundanças para os locatários canadenses franceses – “le jour du déménagement” na Província do Quebec – um fenômeno único no mundo. Na época eu nem sabia desse detalhe, igualmente ignorado por minha sobrinha Luisa, que-não-é-aquela-que-está-no-Canadá.

A tradição começou como uma medida humanitária do governo colonial francês da “Nova França”, que proibia os latifundiários de despejar seus arrendatários antes de as neves do inverno derreterem. Isso virou lei e se estendeu aos aluguéis urbanos, cujos contratos tinham que terminar em 30 de abril e os novos iniciavam em 1º de maio (alguns lugares dos Estados Unidos também tinham esse costume, mas somente no Quebec ele perdura até hoje). 

Posteriormente, nos anos 1970, passou-se a adotar a data de 1º de julho, para evitar os problemas relacionados com a transferência de crianças de uma escola para outra, somente algumas semanas antes do fim do ano letivo. Além disso, a mudança sendo efetuada em um feriado, os trabalhadores não têm que sacrificar um dia de trabalho.

Dizem as “más línguas” que a data escolhida foi uma decisão deliberada dos partidários da soberania do Quebec, para desencorajar a participação na festa patriótica do Canadá. Estando ocupados com suas mudanças, ficavam isentos de participar das festividades. Mesmo que o motivo não seja este, convenhamos que a confusão instalada com as mudanças coletivas não ajuda em nada a embelezar o dia dedicado a celebrar o orgulho de ser canadense.

Nas grandes cidades do Quebec, a movimentação das pessoas e tranportadores de cargas parece uma loucura generalizada. As ruas são tomadas por caminhões de mudança, por caminhonetes abarrotadas de móveis e eletrodomésticos amontoados e, muitas vezes, mal acondicionados. Até mesmo bicicletas servem de veículos de carga improvisados. Os preços das transportadoras sobem como foguetes! 

Muita tralha é deixada para trás, em becos ou nos passeios; as cidades tomam o aspecto de um grande depósito de quinquilharias. Muitas pessoas se interessam por estes refugos e os levam embora, mas ainda sobra muita coisa espalhada por todo lado. Não sei se são os proprietários dos imóveis que acabam ficando com a tarefa de limpar os passeios ou se é a prefeitura da cidade. 

Para um povo que se gaba tanto de ser organizado, limpo e de primeiro mundo, o caos que se vê, justamente no Dia do Canadá, é algo surpreendente e assustador.

Ainda mais lamentáveis são os casos de muitos animais domésticos que, como os móveis e equipamentos, são também abandonados, e o trabalho da Sociedade Protetora dos Animais aumenta sobremaneira, nessa época. Nem parece o mesmo lugar onde se ouve tanta gente defendendo os direitos dos bichinhos, durante todo o resto do ano. 

Também inimaginável o volume de pedidos para instalações de telefone, internet, TV a cabo etc etc. São incontáveis as solicitações de reparo de estragos deixados nos imóveis pelos inquilinos. A Província do Quebec é a única no Canadá que não exige dos locatários um depósito bancário preventivo para estas eventualidades... E como não podia deixar de ser, os aproveitadores marcam presença.

Não consigo entender a razão desta loucura que leva todos a se mudarem no mesmo dia. A resposta que se obtém unanimemente é que os contratos de aluguel terminam em 30 de junho. Mas por que esta compulsão em fazer os contratos todos com a mesma data de término? É a tradição, dizem...

Será que essa tradição do povo “québécois” reflete um sentimento de insubmissão que remonta à perda do seu território para os ingleses? Seria, talvez, um desejo recalcado de mudança em outra escala, que se manifesta, inconscientemente, nesse ritual coletivo repetitivo, todo ano, exatamente no Dia do Canadá?

De qualquer modo, espero que todas essas pessoas que tiveram que mudar de casa, tenham horizontes promissores pela frente, e que possam realizar aquilo que buscam como objetivo na vida. 

Quanto ao Brasil, desejo com toda a força do meu coração, que cada vez mais jovens desfrutem da chance de estudar e que tenham vontade e determinação, como minha sobrinha, de aplicar o que aprenderam em prol de um mundo melhor; mesmo que, para isso, tenham que sair do conforto de estar perto da família.

Sei que mudanças sempre envolvem muitos inconvenientes, mesmo quando é para melhorar, como diz Richard Hooker, na epígrafe. Se o sacrifício é feito tendo em vista um bem maior, que seja para nós mesmos, de modo que possamos contribuir com algo de bom, claro que vale a pena!