segunda-feira, maio 04, 2015

Que terra é essa?

Publicado também pela KBR Editora Digital em 02-maio-2015
http://www.kbrdigital.com.br/blog/que-terra-e-esta/




E, mais uma vez, o mundo todo ficou transtornado com outra catástrofe, agora o terremoto no Nepal. Quando vi as primeiras imagens, tive uma sensação horrível, vendo aquelas pessoas sendo retiradas dos escombros, elas próprias quase transformadas em escombros, tudo da mesma cor. Embora já tenhamos visto inúmeros outros casos semelhantes, cada vez que isso acontece, ficamos abalados, claro. Que terra é essa? Que vida é essa que nos inflige tantos desastres e perturbações? São tantas provações e desassossegos!

Essas catástrofes nos deixam interrogações sem fim. Mas há quem retruque prontamente: - O mundo é assim, fazer o quê?. Queria eu poder pensar desse jeito, como pó da terra que somos, mas o danado do sopro nas narinas[1] vira por vezes vendaval. 

Como se não bastasse o clima gélido do Canadá, aqui também acontecem terremotos. A cada ano, o leste do país sofre uma média de 450 tremores[2]. Embora geralmente imperceptíveis, os abalos sísmicos são reais e bem registrados. Especialistas acreditam que há chances de que um grande terremoto ocorra no Quebec, como já aconteceu no passado, com relatos de consequências devastadoras em 1663 e outros não tão destrutivos, mas significativos, em 1925 (6,2 na escala Richter), 1935 (também 6,2) e em 1988 (5,9). 

No caso da Colúmbia Britânica, no extremo oeste do país, onde se registram abalos sísmicos quase todos os dias, a causa é o fato de estar sobre os limites de placas tectônicas e o risco de grandes terremotos ainda é maior. No Quebec, o fenômeno não é bem explicado, já que a província não se encontra numa região de falha geológica. Há um estudo[3] que tenta explicar o que acontece aqui pelo movimento de placas deslizando verticalmente, em direção ao centro da terra. Estas placas estariam longe da superfície e esse deslocamento se combinaria com a dinâmica de rebote pós-glacial da crosta terrestre: após o fim da última era glacial, a crosta terrestre está subindo lentamente, liberada do peso enorme do gelo. 

Seja lá o que for, isso mete medo. Não é difícil constatar quão frágeis nós realmente somos. 

Eu nunca tinha “sentido” um terremoto antes de me mudar para cá. Quando criança, os estrondos surdos que ouvíamos, que faziam tilintar os cristais na cristaleira de minha mãe e tremelicar as janelas, nos faziam pensar que fossem terremotos. Mas havia sempre alguma voz que vinha tranquilizar a todos, dizendo que eram as detonações de dinamite nas minas subterrâneas da cidade vizinha, Nova Lima – nós morávamos perto de um morro que nos separava de Nova Lima. 

Nada para tranquilizar, saber que havia explosões abaixo dos nossos pés. Essas perfurações foram feitas em vários sentidos, como formigueiros, havendo galerias subterrâneas que chegam a ir além da Praça Sete, no centro de Belo Horizonte. A “Mina Grande” do grupo “Morro Velho” já está desativada, mas ainda existem outras que continuam extraindo o nosso ouro e mandando para fora do país. Essas minas de Nova Lima são exploradas por companhias inglesas desde 1834, até hoje [4].

Mas voltando aos terremotos... Pouco tempo depois que me mudei para o Canadá, fui acordada por um abalo sísmico, 4,7 na escala Richter. Não estávamos no epicentro, mas mesmo assim foi o suficiente para me arrancar do meu pesado sono matinal. Atordoada com o despertar forçado, não associei o sacolejar da cama ao barulho estranho que vinha das profundezas do meu travesseiro, um som grave como se fosse um motor possante longínquo ou talvez um rosnado... Isso, um rosnado de uma enorme caixa acústica distante. Só fui pensar no barulho mais tarde, diga-se de passagem, com uma sensação horrível em retrospectiva. De imediato, a minha impressão foi de que o movimento rápido da cama para um lado e para o outro, repetidas vezes, fosse uma brincadeira de mau gosto do meu marido, para me acordar. Imaginem que cena... Levantei a cabeça, já interpelando: - O que é isso? 

Eu estava realmente perturbada com aquilo, pois ele nunca havia feito nada parecido e nem seria possível para ninguém agitar a cama naquela rapidez, como se fosse uma leve bandeja nas mãos. Ao perceber que estava sozinha no quarto e que não havia mais movimento nenhum, pensei: Será que foi um pesadelo? Não, não podia ser, eu ainda estava sob o impacto daquela sensação desagradável tão real e que não tinha nada a ver com vibrações de dinamitação.

Fui procurar meu marido e ele, tranquilo no seu computador, respondeu à minha pergunta, antes mesmo que eu a formulasse: 
- Parece que foi um pequeno terremoto, o computador balançou, tudo parece ter tremido por alguns segundos. Vamos ver o noticiário mais tarde, devem falar sobre isso. 

E não tardou muito, a notícia estava nas manchetes dos jornais online e também nos noticiários da TV. Ainda bem que naquela época eu não sabia que um abalo sísmico sempre tem réplicas, pois teria ficado preocupada; e se houve não foram sentidas.

Um sismo leve como esse me deixou tão assustada, fico pensando no pavor que devem causar esses grandes terremotos, com os agravantes dos estragos e das perdas imensuráveis que provocam. É realmente como se a terra estivesse rosnando e trincando os dentes, enquanto sacode as presas. Que terra é essa?

Agora, começaram a se intensificar as campanhas para ajuda ao Nepal. Espero que não aconteça como no Haiti. O mundo inteiro aderiu generosamente, arrecadando e doando bilhões de dólares a instituições que se prontificaram a auxiliar as vítimas. Organizações internacionais bem equipadas cuidaram dos resgates, da limpeza, forneceram alimento e água aos sinistrados. Numerosos funcionários, médicos, enfermeiros, especialistas em desastres naturais estiveram lá, muitos ainda estão bem instalados. Mas de todo esse dinheiro que foi doado, grande parte se evaporou, não se sabe como foi aplicado; outra parte alegam ter sido consumida para pagar todo esse pessoal da ajuda humanitária em suas viagens e estadias nos locais atingidos e para financiar todo o material usado. Sequer um tostão chegou às mãos dos sobreviventes que perderam tudo: além de familiares, não têm mais casa nem emprego – tudo desapareceu na poeira dos escombros. 

A ajuda humanitária não foi capaz de reestruturar o país, de coordenar ações para reorganizar a sociedade. Muitos haitianos fugiram e, ainda hoje, 5 anos após o terremoto, há milhares vivendo em tendas improvisadas, obtendo víveres que lhes fornecem as instituições internacionais que continuam perpetuando, digamos assim, essa desoladora situação. Analistas chegam a dizer que existe uma indústria da filantropia. Pode até ser bem intencionada, mas não se desenvolveu ainda um método capaz de desmontar o círculo vicioso que se formou no Haiti.

Quando não são as catástrofes da natureza que causam danos, são os próprios humanos que não dão o melhor de si mesmos – para não dizer coisa pior.

Espero que o povo e o governo do Nepal não se deixem dominar pela indústria da filantropia. Que eles procedam à recuperação do seu país com suas próprias decisões. Ajuda humanitária, sim, mas indústria da filantropia, não. 



[1] Gênesis 2:7
[2] http://www.earthquakescanada.nrcan.gc.ca/zones/eastcan-eng.php
[3] http://www.uqam.ca/entrevues/2007/e2007-170.htm
[4] http://www.anglogoldashanti.com.br/Paginas/QuemSomos/Historia.aspx

sábado, abril 25, 2015

Not made in China



Acho interessante conhecer outras culturas e tenho esta oportunidade aqui no Canadá, que é um país aberto à imigração. Os chineses, por exemplo, estão cada dia mais presentes aqui, o chinês já é a terceira língua mais falada, após o inglês e o francês.

Outro dia, fomos jantar em casa de amigos, uma família harmoniosa, casal e dois filhos pré-adolescentes. Quando nos reunimos, sempre surgem temas que enriquecem a nossa bagagem cultural, devido ao caráter “internacional” dos encontros. Ele e meu marido são canadenses, ela chinesa e eu brasileira.

Assunto é o que não falta, na China é assim, no Brasil é assado, o Canadá gelado... E por aí vai, c’est la vie. 

O casal se conheceu na China, em uma universidade, mas o nosso amigo não abria mão de morar no Canadá, pois, segundo suas palavras, a liberdade de que desfrutamos aqui é algo que não se troca por nada. Ela cedeu, embora fosse uma professora de sucesso lá, orgulhosa de seu país, do povo e seus costumes. Como diz Adélia Prado, “Mulher é desdobrável”. 

Os filhos nasceram aqui e falam como quebequenses que são, obviamente. Aprenderam chinês com a mãe e conversam com os avós chineses uma vez por semana, pela internet, o que os mantém em dia com a língua e com as origens maternas.

São verdadeiros chinesinhos na aparência, aos nossos olhos, porém não aos olhos dos chineses. E justamente por causa dos olhos, em ambos os pareceres... Bom, há todas as outras características também, não percebo a diferença em relação aos chineses sem mistura.

Não deve ser fácil para uma pessoa viver num lugar onde sua aparência é diferente daquela da maioria das outras. Pensei que isso lhes traria problemas aqui, desde que soube de alguns comentários quando eles ainda eram pouco mais que bebês. E eu tinha razão.

Quando eram pequenos, as pessoas desconhecidas os ouviam falar e diziam:
- Que gracinha, eles falam exatamente como nós, quebequenses.
O mais velho, que estava mais adiantado no chinês, retrucava:
- Eu sei falar chinês.
Imagino que lá dentro da sua cabecinha havia interrogações e exclamações: “Hã? Claro que eu falo como eles, eu também sou quebequense! A língua que faz diferença que eu fale é o chinês!”. 

Certa vez, já faz alguns anos, eu estava no pequeno “shopping” da nossa cidadezinha, quando vieram correndo os dois pequerruchos:
- Maria , Maria[1]! Bonjour!
E entre abraços e beijinhos, muitos - Je t’aime!
São crianças irresistivelmente adoráveis. 

Em seguida, chegou o pai. Enquanto conversávamos, não me lembro, mas provavelmente sobre trivialidades do clima canadense – alguma nevasca, sem dúvida – veio-se juntar a nós uma outra conhecida minha, por coincidência, prima do pai dos meninos. Eles não se viam há muitos anos e ela ainda não conhecia os priminhos. Após todas aquelas considerações de praxe, foram-se embora os três, a mil por hora, como sempre. Fiquei com a minha conhecida, pondo os assuntos em dia. 
E ela me solta esta:
- Não sabia que meu primo tinha adotado chinesinhos.
- Não, não são adotados, é porque a mulher dele é chinesa – fui logo me apressando em explicar e desfazer o seu equívoco.

Ela, pelo menos, esperou que a família fosse embora para dizer isso. Mas houve outros episódios semelhantes, mesmo na escola que frequentam, lamentavelmente na presença das crianças e diretamente com elas, conforme nos contaram seus pais. Claro que, sendo o pai louro de olhos azuis, o contraste é grande e pode induzir a pensar em adoção, mas sabe-se muito bem que os traços dos povos asiáticos prevalecem na maioria das vezes.

O resultado disso tudo nós vimos na última vez em que fomos visitá-los. O menino estava usando uma camiseta em que estava escrito: “Not made in China”. Seus pais nos disseram que ele faz questão de ir para a escola com esta camiseta. E a menina não quer mais que a fotografemos. Ela que sempre fez tantas poses sorridentes para a minha câmera, agora não quer mais. Não disse por que razão, mas fiquei matutando: “Uai, por que será? Talvez porque lhe tenham dito que ela é diferente... “

Isso me entristece tanto! Vi essas crianças crescerem e me afeiçoei a elas, pessoinhas tão educadas e gentis... Agora estão com um certo quê de amargura, com problemas de identidade, coisa difícil de lidar. Menos complicado, no entanto, porque não é um problema que se origina na maneira como eles próprios veem o mundo, eles são normais. É uma atitude de outros que lhes causa embaraço. Felizmente, são muito inteligentes e os pais são gente muito lúcida e já estão trabalhando para que a situação não assuma maiores proporções. 

Sei que nas escolas, as próprias crianças, muitas vezes sem maldade, fazem perguntas ou comentários dirigidos àqueles que possuem alguma característica diferente dos outros. Até certo ponto, isso é normal, porque estão aprendendo a conhecer o mundo que as rodeia. Mas, algumas vezes, aprendem com os adultos a fazerem discriminações. 

E essa atitude não se limita ao âmbito doméstico e escolar. O próprio governo canadense, a meu ver, adota um sistema discriminatório quando pretende promover a igualdade de chances no mercado de trabalho. Em muitos casos, principalmente quando se trata de admissão à função pública, o candidato a um emprego deve preencher um formulário no qual, além de todas as perguntas relativas ao Curriculum Vitæ, tem que se classificar no caso de pertencer a uma fatia minoritária da população, marcando a opção que lhe couber segundo a língua materna, cor da pele, origem étnica e sei lá o que mais. Se fosse só pela igualdade de direitos, acho que a melhor conduta seria não perguntar nada disso. Aí sim, todos estariam sendo tratados igualmente, não?

Um desses grupos demográficos é o que eles chamam de “minorias visíveis”, definidas como pessoas outras que não autóctones, que não sejam da raça branca ou que não tenham a pele branca. Neste grupo se enquadram negros, mestiços, chineses, japoneses etc. E os meus amiguinhos, será que mesmo sendo canadenses terão que se enquadrar nessa categoria? Fui ler esta classificação no texto da lei e constatei que sim, eles serão classificados como fazendo parte das minorias visíveis. O critério é aplicado até a segunda geração, isto é, mesmo os nascidos no Canadá, se um dos dois genitores for imigrante.

Na minha opinião, as cores da pele, do cabelo e dos olhos são dados aceitáveis para constar em documentos de identidade, como complemento ao retrato, para não deixar dúvidas, pois é claro que a função de tais documentos é identificar. Mas etiquetar as pessoas conforme sua origem étnica, tipo físico e outros babados, para fins de inserção no mercado de trabalho, convenhamos que é um atraso monumental! Inaceitável num mundo que pretende ser desenvolvido.

Se esse é um procedimento difundido também em outros países, não é de causar surpresa que existam tantos conflitos. O ser humano ainda tem muito que evoluir!


[1] Aqui eu sou chamada de Maria, pronunciado Mariá no Canadá francófono, com a imutável tendência oxítona da língua francesa.
~//~
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sábado, abril 18, 2015

Intraduzível


Aviar uma receita só não é coisa relegada a segundo plano, porque as pessoas estão cada vez mais tomando remédios para tudo quanto há... e mesmo para o que não há. Mas tornou-se uma atividade paralela, digamos assim, nas farmácias de hoje em dia, que se transformaram em verdadeiras lojas de departamento. Acha-se de tudo, até mesmo estúdio de fotografia credenciado, com direito a tirar retrato para documentos oficiais.
Com o envelhecimento da população canadense, esses estabelecimentos também se transformaram em ponto de bate-papo para os mais idosos e aposentados, principalmente no final do mês, quando recebem suas pensões. Vem-se tornando cada vez mais frequente vê-los na sala de espera do laboratório da farmácia, aproveitando para pôr as notícias em dia, enquanto aguardam sua receita ser aviada.
                Há muitos itens dos quais a compra é mais vantajosa numa farmácia do que no supermercado. Uma vez ou outra, dou uma passadinha pelo departamento de produtos de higiene pessoal, para procurar por desodorantes como os que eu usava no Brasil, tipo spray sem gás comprimido e que não sejam antiperspirantes; daqueles modelos em que a pressão se faz apertando o próprio frasco ou, quando muito, com aquele tubinho com uma bombinha na tampa, para provocar o esguicho. A procura é quase em vão, pois os desodorantes são quase todos vendidos ou em aerossol, ou em bastões, aqueles detestáveis roll on, ou em cremes e loções.
Faço essa busca há anos e raramente encontro, mas não desisto. Existem algumas poucas marcas que oferecem o produto dentro das minhas exigentes especificações. Quando os vejo nas prateleiras, que é coisa rara, compro mais de um, para ter uma reserva, pois nunca sei se vou achar de novo. Confesso que isso se transformou quase numa obsessão, embora eu leve para o lado do divertimento, como um jogo em que se procura um tesouro escondido.
                Falar de desodorante parece um assunto insignificante e até impróprio, diria minha mãe em voz baixa, imbuída pela recatada discrição que o tema requer para alguém do início do século passado... Mas, desculpem-me, torna-se relevante para quem está com a mala cheia de vazios de sua terra natal, seja por metáfora ou pela realidade da mala vazia de fato, guardada já sem nenhum daqueles produtos trazidos da última viagem ao Brasil.
Reconheço que não deveria sequer pensar nisso, considerando tanta coisa que minha família envia, para satisfazer meus caprichos. O carteiro de nossa cidade já até conhece as embalagens do correio brasileiro. Mesmo se o endereço não estiver certo, os pacotes chegam ao destino – mas vai que o carteiro muda, melhor estar com o endereço escrito direitinho.
Esse negócio de se instalar num outro país depois de adultos, nos faz vivenciar um sem-fim de superações, com inopinadas etapas de adaptação e aprendizado, inimagináveis antes de passar pela experiência. A tal homesickness tem mil e uma formas de se manifestar e, às vezes, nos surpreende, como se não fôssemos os protagonistas da nossa própria história. Nem vou mencionar aquela palavra intraduzível, para não reavivar outros vazios.
É claro que há compensações, e não são poucas;  sempre há vantagens e desvantagens em viver aqui ou lá...
Pensando nessas e outras quimeras, enquanto procurava o meu produto nas prateleiras, escutei uma conversa confusa de um grupo de pessoas, vindo da mesma ala onde eu me encontrava. Olhei discretamente para o lado onde estavam e vi três homens que se alternavam na vã tentativa de explicar, em espanhol, o que queriam comprar. Duas jovens responsáveis pelo atendimento à clientela se debatiam ora em inglês, ora em francês, gestualizando formas de objetos e suas funções, sem sucesso. Realmente em apuros, as atendentes já começavam a falar alto, como se o problema dos rapazes fosse surdez. Eles, sem alterar o tom de voz, pareciam serenos e repetiam as mesmas frases várias vezes, como se pudessem se fazer entender, por força da insistência.
Outros clientes começavam a aparecer de todos os lados, com ares de indagação, ninguém se arriscava a entrar no embate linguístico, que permanecia em empate técnico. Um dos curiosos chegou a lamentar que só sabia falar “Hola”, não seria de grande serventia. Sem demora, veio a farmacêutica, triunfalmente a passos largos, pelo corredor, entre clientes e prateleiras. Ela deve saber espanhol, pensei. E todos aguardavam o desfecho, otimistas como eu.
Não, ela não falava espanhol, e foi aí que se deu o desempate; os três clientes estavam prestes a desistir e ir embora, somente com as parcas mercadorias que já tinham juntado no carrinho de compras.
Mas eu compreendia o que eles diziam, que estava fazendo ali parada? Peguei aquela comichão de tentar ajudar e lá fui eu, um pouco temerosa, praticar meu fraco “portunhol”. Feitas breves apresentações, anunciei a possibilidade de tentar traduzir alguma coisa. Eles eram mexicanos, ainda bem, pois eu acho que têm uma pronúncia mais inteligível. Felizmente, consegui o intento de ajudá-los. Os clientes foram me dizendo o que queriam e eu fui anotando a lista traduzida num papelzinho, não sem passar por alguma mímica, e entreguei às empregadas da farmácia, que não me deixaram ir embora enquanto tudo não ficasse resolvido. Ganhei meu dia por ter feito aquela boa ação.
Gracias, gracias, gracias...
Na primavera, verão e início do outono, período em que os agricultores daqui aceleram sua produção, mexicanos e outros estrangeiros originários de países da América Central são contratados para trabalhar nas fazendas canadenses: são os trabalhadores estrangeiros agrícolas sazonais. Aliás, como de costume, tudo aqui é sazonal. Quando chega o frio, eles partem de volta aos seus países, levando as economias que fizeram. Na curta temporada de calor do Canadá, eles ganham mais dinheiro do que se trabalhassem o ano inteiro onde vivem.
Creio que esta é uma boa estratégia do governo canadense. Pelo menos é a ideia que se tem por aqui: ao mesmo tempo que se garante o crescimento da produção do país, esses outros povos recebem ajuda. Antigamente, eram as famílias dos proprietários que trabalhavam nas fazendas; os filhos eram numerosos e davam conta do recado. Atualmente, falta mão de obra para uma produção agrícola cada vez maior e os empregados sazonais vêm preencher essa lacuna.
Não sei se esse método traz benefícios verdadeiros aos países desses trabalhadores, mas parece que sim, pois cada vez maior número de candidatos se inscreve, com o aval dos governos. Será que é bom mesmo?
Como as aves migratórias, no outono, eles voltam para o sul. Fico imaginando a alegria que sentem quando chegam em seus lares. Com que ansiedade suas famílias devem esperá-los, quanto afeto guardado durante meses! Deve ser uma grande festa, todo ano.
E eu, de volta às minhas quimeras, me lembro de uma conhecida e pragmática curiosidade, de um sul mais longínquo:
- E afinal, achou o desodorante? – cochicha Dona Esther, escondendo parcialmente a boca com a mão.
- Achei, sim, mãezinha. Besitos!

~/~
Publicado também pela KBR Editora Digital em 18 de abril de 2015
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sábado, abril 04, 2015

Em busca da lucidez

Crônica também publicada pela KBR Editora
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Tenho acompanhado o drama brasileiro tão atentamente pelas notícias dos jornais e pelas redes sociais, que estou me sentindo in loco. Num certo momento, vi o Brasil ficar praticamente dividido em dois: os que estavam do lado do governo eleito em 2014 e os que estavam contra. Ofensas mútuas, chacotas, vitupérios cruzaram o território nacional em todas as direções, como flechas envenenadas que chegaram a estremecer amizades. O país parecia uma grande família em conflito e estresse. Sofri muito com isso, tive uma “Quaresma” prolongada… assez, merci.

Enquanto isso, os depoimentos vomitados pelos mais que premiados delatores continuam revelando a lama em que estão atolados políticos, empresários, governos e funcionários. E novas operações de investigação estão descobrindo mais falcatruas, que parecem não ter fim. Um escândalo ainda não acabou de ser resolvido e outros já fazem manchete nos jornais.

Com isso, parece que a população entrou num processo semelhante a um ato de contrição, talvez algo como uma penitência, ou quem sabe, uma terapia familiar —abriram-se as cortinas para um segundo ato. Provavelmente atordoadas pela constatação do envolvimento de tanta gente em corrupção — seja pela direita, pelo centro, pela esquerda, no presente ou no passado — muitas pessoas estão concluindo, intempestivamente, que a contaminação é geral. Estão dizendo que todos os brasileiros nutrem o germe da degradação moral, com atitudes comprometedoras que já começam a brotar na interação entre pais e filhos e que se refletem na vida adulta. Li vários textos fazendo esse tipo de acusação, por vezes com conteúdo autopunitivo mesmo: os dardos agora se voltaram contra a brasilidade como um todo.

Além de injustificada e difamatória, enquanto atribuída ao povo de forma generalizada, acho essa conclusão nefasta, pois, ao colocar a atitude corrompida como regra geral, serve sordidamente para atenuar a culpa daqueles legalmente acusados.

Acredito que o autoexame seja um processo válido e de utilidade em muitos casos. Mas quando se trata da análise de um povo, prefiro deixar estudo e conclusões, para que sejam de algum proveito, aos estudiosos de Antropologia, Sociologia, whatever, com especialização na pesquisa sobre esse mesmo povo. No meu entender, o assunto é muito complexo, não basta fazer parte dessa população para dar diagnósticos e prognósticos.

Por curiosidade, fiz uma busca na internet por “percentuais de honestidade do povo”, achando que não encontraria nada. Pois não é que achei? Já foram feitas várias pesquisas em várias cidades do mundo, em forma de testes, e os resultados nas cidades brasileiras não foram dos piores. Mas não acredito na validade desses trabalhos, me pareceram superficiais.

Não conheço percentuais fidedignos de “honestidade do povo” e imagino que deva ser muito difícil avaliar esse parâmetro. Mas há fortes indícios de que ela ainda exista no país. Apesar de não ser assunto da minha área de pesquisa, posso afirmar que, felizmente, ainda há muitos brasileiros que têm dignidade. Prova evidente disso são esses mesmos textos e comentários que mencionei ter lido em jornais, revistas, blogs e redes sociais, em que os autores tentam a análise da situação honestamente, pois são honestos, advogando a urgência de um Brasil mais limpo.

Realmente, é preciso estabelecer tolerância zero para todo tipo de desonestidade, mesmo para atos do cotidiano que parecem inócuos, mas que na verdade estão contaminados pela perniciosidade. Como um caso que presenciei numa fila de banco no Brasil, já faz muito tempo, um exemplo desses atos do dia a dia que, apesar de “pequenos”, são na verdade tão desonestos quanto qualquer outro.

Estava eu aguardando pacientemente minha vez, no último lugar de uma fila de oito, quando chegou uma jovem senhora fazendo uma vistoria no ambiente, como se procurasse alguém. Rapidamente, ela vislumbrou uma pessoa mais à frente na fila. Apressando o passo, com um discreto sorriso nos lábios, se dirigiu a uma outra jovem que estava a dois clientes de ser atendida pelo  caixa. Após amáveis cumprimentos entre as duas, que falavam suficientemente alto para chamar a atenção de todos, eis que a recém-chegada baixou o tom da voz, ao mesmo tempo que entregava uns papeluchos à outra.

Notei que as pessoas na fila começaram a se movimentar com impaciência, como se dessem passos sem sair do lugar. Uma ou outra olhava para os que estavam atrás dela, como se estivesse sondando a disposição do outro para reclamar primeiro. Toda essa tensão se desfez quando ouvimos a jovem da fila dizer à amiga (da onça), alto e bom som, que lhe deixaria o seu lugar e que iria para o último lugar da fila; ela que, naquele instante, já era a próxima a ser chamada a qualquer momento. Teria sido alegado algum motivo de urgência?

Espantada, a amiga foi mudando de cor; de lívida passou a um rubor que quase parecia inspirar cuidados. Muito envergonhada, recusou a oferta, dizendo: “Eu que vou”. Tentava segurá-la no seu lugar mas a outra insistia, gesticulando veementemente para se desvencilhar e se dirigir ao último lugar. Em vista daquele impasse, a revolta dos outros transformou-se em vergonha alheia para a furadora de fila. Para pôr pano rápido, mais do que por bondade, alguém disparou:

— Valeu a lição, gente, vamos deixar as duas lá na frente!

Os outros aceitaram, sei lá se de bom ou mau grado. Por sorte da aprendiz de honestidade, dois caixas livres naquele instante chamavam o próximo, como um gongo que a salvava da vergonha de encarar os outros, saved by the bell.

De minha parte, posso dizer que ganhei o dia por ter presenciado a atitude heroica daquela jovem, que preferia se prejudicar a ser conivente com algo errado.

Antes fossem só casos como esse da fila. Acontece que o brasileiro honesto está passando por uma fase terrível, cercado, massacrado e roubado por criminosos de todos os lados: governantes e políticos em conluio com empresários corruptos, sem esquecer os criminosos de rua, que estão aniquilando o cotidiano do cidadão.

Mas não se pode abdicar da dignidade em hipótese alguma. É preciso abrir as cortinas para um terceiro ato e concluir a terapia, nos conscientizarmos de que nem estamos de acordo com desvios de conduta, nem com conflitos. Não é este o padrão que almejamos para a família Brasil.

Que possamos pensar e agir de forma lúcida para clarear os caminhos obscuros pelos quais tropeça a nossa nação.

Um bom domingo de Páscoa para todos!

sábado, março 28, 2015

Por que Cuba?

Foto by Maria do Carmo
A primavera é realmente um espetáculo maravilhoso! Principalmente quando é tão desejada, depois do longo e tenebroso inverno que tivemos na maior parte do Canadá. Ainda estamos padecendo com temperaturas abaixo do normal para o período, mas o silêncio glacial já começa a ser substituído pelo barulho das águas dos rios que degelam, pelos cantos e gritos das aves, por vezes até assustadores. A gente nem precisa de despertador, pois mal o dia começa a clarear, ainda com tênues alvores, e os alarmes da natureza disparam. Os pássaros deram para cantar tão forte nos últimos dias, que parecem estar reclamando do frio que ainda está fazendo. Eu, para dizer a verdade, já estou quase fazendo panelaço contra uma senhora que não é Presidente mas comanda tudo por aqui, a “Dame Nature”.
As aves migratórias já estão chegando para aumentar ainda mais a algazarra. Também os “snowbirds” estão voltando. Esse é o apelido dado àquelas pessoas que não aguentam mais passar o inverno nesse frio intenso e viajam para o sul dos Estados Unidos, onde permanecem por aproximadamente seis meses. São aposentados que têm um dinheirinho a mais para isso, claro. Alguns têm veículos recreativos enormes, que são casas muito bem equipadas. Outros têm casa própria ou alugam imóveis nos locais para onde migram.
Para os trabalhadores, pobres mortais, restam as curtas férias a que têm direito. Na maioria das províncias do Canadá, o empregado pode tirar férias de 2 semanas após 1 ano de trabalho numa empresa, e adiciona-se mais uma, num total de três semanas após 5 anos. A época em que se pode tirar férias varia segundo critérios de antiguidade e de acordo com períodos disponíveis autorizados pelo empregador.
Oba! Eu podia tirar duas semanas contínuas de férias em fevereiro e uma outra semana em setembro! “Vamos a la playa”! Lá fomos nós, em fevereiro de 2010. Foi a primeira vez que eu me permiti viajar para fora do Canadá, que não fosse para ir ao Brasil.
Por que Cuba? Eu nunca tinha pensado em ir lá. Várias razões foram-me apresentadas e é claro que a principal era dar uma pausa no rigoroso inverno canadense; mesmo uma curta pausa faz grande efeito. Cuba não é muito longe daqui, pelo menos em comparação à Pátria amada; eu tive que concordar com esse argumento do meu marido, pois contávamos com pouco tempo disponível. Não é necessário tomar precauções drásticas, ou seja, não são necessárias vacinas, que seriam fortemente recomendadas se fôssemos a outros países caribenhos ou ao Brasil. Acabei me convencendo também por causa dos preços – não é caro. É um dos destinos de sol preferidos dos canadenses. O Canadá foi um dos raros países ocidentais que não cortaram relações com Cuba.
Uma das providências a tomar antes de viajar foi passar numa loja, como nossa agente de viagem havia sugerido, para comprar itens de alguma utilidade. Nada de muito sofisticado, até mesmo escovas de dente seriam apreciadas pelo povo cubano. Segundo ela, eles são carentes de tudo. Inicialmente, eu achei aquilo um pouco estranho, será que eles não iriam-se ofender? Escova de dente? Mesmo assim, fiz o que fora recomendado.
Num voo direto de Montreal a uma daquelas ilhas a nordeste de Cuba, chegamos à nossa destinação, um all-inclusive resort, que faz parte de um complexo hoteleiro ali situado, onde passamos uma semana. Impressionante a quantidade de quebequenses, parecia uma festa no Quebec.
Havia dois “pesos” em Cuba, quando lá estivemos, não sei se ainda funciona assim. Para o turista, a taxa de câmbio estava a 1,00 Dólar canadense para 0,85 Pesos, no dia em que chegamos.
Os veículos no estacionamento do hotel chamaram minha atenção. Novíssimos! Pertenciam a diretores do resort e outros eram usados para levar os turistas a passeio na pequena ilha. Onde estavam os famosos carros antigos, que tanto vemos em fotos de Cuba? Eu não entendi e fiquei até um pouco desapontada.
Os funcionários, sempre com gentileza a toda prova, além de um profissionalismo impecável, tinham, muitos deles, formação universitária e eram poliglotas, falando no mínimo 3 línguas: inglês, francês e, obviamente, espanhol. Também nada a reclamar do sol e do mar que estavam esperando por nós. Fomos de sorte, tivemos bom tempo durante toda a semana. A areia branca e fina, o mar azul-turquesa intenso! Lindo!
Aquelas lembrancinhas sugeridas pela agente de viagem foram mesmo muito apreciadas pelo pessoal que trabalhava no hotel, ela tinha razão. Mas não posso me esquecer de um vendedor de bijuterias artesanais, que tinha autorização para vender dentro do território do hotel, ao perceber que eu falava "portunhol", que era brasileira, me pareceu mais à vontade em oferecer trocar suas mercadorias por qualquer coisa que pudesse ser útil. Fui correndo ao quarto buscar alguns daqueles itens que havíamos levado, meu marido foi logo separando várias camisetas e eu disse que daria tudo e não levaria nada em troca. Prudentemente, meu marido convenceu-me a trocar sim, senão seria esmola. A alegria nos olhos do vendedor, quando lhe entreguei o que tinha, foi algo tocante. E, afinal, eu também fiquei bem contente em poder escolher uma bela bijuteria.
Como em todo resort, também não faltaram atividades e animadores para divertir os hóspedes: shows, cursos de dança, ginástica etc etc. Para a minha surpresa, em quase todos os jogos de adivinhação e testes, os temas giravam em torno de músicas e filmes americanos: de que filme é tal música? Qual o ator principal de tal filme? Isso me deixou intrigada, dada a inimizade entre Cuba e Estados Unidos. E mais, toda a equipe do hotel que animava os shows e competições, tinha um jeito engraçado de dizer adeus à pessoa que perdia nos jogos; eles diziam: "Ciao, ciao, Mickey Mouse". Eu cheguei a duvidar de que eles detestassem tanto assim os americanos e até comentei intramuros minha impressão de que após a morte de Fidel Castro, os cubanos iriam voltar aos braços dos Estados Unidos. E nem foi preciso que ele morresse, as pazes já foram feitas. Acho que o povo cubano deve estar muito alegre com isso.
De acordo com o nosso guia de turismo, o investimento nestes hotéis era uma experiência que o governo cubano estava fazendo, com 50% pagos pelo Estado e 50% privado – de um outro país que ele não revelou. Suponho que fosse a Espanha, pois toalhas, copos, tudo era “Hecho en España”. Ele também disse que existia um contrato estabelecendo datas – depois de alguns anos eles decidiriam o que fazer – nacionalizar tudo, privatizar ou manter da mesma maneira. E todo esse relato foi feito numa conferência sobre Cuba, para os turistas – coisa oficial.
Pensando nisso agora, fico me perguntando que destino terão todos os investimentos que Dilma Rousseff fez e está fazendo na ilha com o dinheiro do povo brasileiro, ou seja, retirado do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social). Não entendo como e o quê poderemos lucrar. Mesmo porque se o governo do Brasil sonha em ter algum retorno, é bom lembrar que o governo da ilha se reserva o direito de nacionalizar tudo o que lhe caia nas mãos, seja o que for e quando bem lhe aprouver. Será que ficaremos a ver navios?
O hotel estava ótimo, mas eu estava muito interessada em reservar uma excursão para as cidades localizadas na ilha maior, porque queria conhecer a "verdadeira Cuba", nas palavras do próprio guia cubano. Havia várias opções de excursão, eu escolhi uma que oferecia mais opções para conhecer as pessoas e as suas tradições: 75 Pesos por adulto.
Não há população residente nessas pequenas ilhas da região nordeste de Cuba, apenas hotéis. A maioria das pessoas que trabalha ali vive na cidade de Morón. Para atravessar o mar e estabelecer a comunicação entre as pequenas ilhas e a llha maior, uma estrada foi construída com rochas dispostas nas partes mais rasas do oceano. É uma estrada muito sólida que tem resistido a muitos furacões, segundo o guia. A viagem dura uma hora e meia. Então, o pessoal que trabalha no hotel gasta três horas na estrada todos os dias. A estrada é rigorosamente vigiada para impedir a passagem de pessoas não autorizadas. Os cubanos não têm direito de ir a estas ilhas, a não ser que trabalhem lá. ISSO MESMO! Só com autorização especial do governo.
Nas cidades, finalmente vi os velhos carros americanos ainda em uso. Bicicletas são muito usadas e trishaws (rickshaws) são frequentes como táxi. Visitamos uma fábrica de charutos. As mulheres desempenham um papel importante nessa produção, havia apenas mulheres ali. Um detalhe: nenhum sorriso. Achei a passagem por esta fábrica constrangedora.
Tive a impressão de muita pobreza em todos os lugares que visitamos. Pudemos constatar que consumismo realmente não é o forte lá. As lojas são lamentáveis​​, não têm quase nada, tudo é bem diferente do que estamos acostumados a ver. Na entrada das lojas, havia sempre um agente de segurança que deixava entrar uma pessoa de cada vez, só quando quem já estava lá dentro saía. Tudo muito estranho. O contraste entre os resorts e o modo de vida dos cubanos é ultrajante. Acho que um dia, isso vai fazer algum efeito na mente daquele povo. Não sei...
Nas praças e nas ruas, vi muita gente sem fazer nada – jovens e menos jovens; eles não pareciam estar trabalhando. Talvez em férias? Duvidei do que o nosso guia tinha dito sobre a ausência de desemprego em Cuba. Eles nos abordavam, por vezes com muita insistência, pedindo nossos bonés ou nos oferecendo alguma coisa. E ficavam esperando... o pagamento.
Notei uma tristeza no olhar das pessoas, mesmo quando sorriam, como nunca vi antes e isso me incomodou sobremaneira.
Visitamos também uma refinaria de açúcar – com maquinaria do tempo de antes da “Revolución”. Fomos avisados de que, se tivéssemos sorte, veríamos a refinaria em atividade. Mas não tivemos. Quando chegamos lá tudo estava parado, não entendi muito bem por que razão.
Fim da excursão, voltávamos para o hotel, quando um dos turistas do nosso grupo fez uma pergunta, com uma coragem que surpreendeu a todos:
- Por que há tantas fotos de Che Guevara, em todos os lugares em Cuba, e tão poucas de Fidel Castro?
E o guia respondeu sem hesitação:
- É normal; é porque Che Guevara está morto. Quando Fidel Castro morrer, teremos mais fotos dele também.
Fiquei pensando: Será isso mesmo? Talvez, nem Che Guevara nem Fidel Castro...

Publicado também pela KBR Editora Digital em 28 de março de 2015
http://www.kbrdigital.com.br/blog/cuba1/