terça-feira, março 20, 2018

Aurora

© Maria do Carmo Vieira-Montfils
Français
(Os nomes próprios usados neste texto são fictícios, para proteger a privacidade das pessoas)
 
Aurora, nossa querida e saudosa Aurora, trabalhou durante longos anos lá em casa, desde antes do meu nascimento. Ela nos considerava, meus irmãos e eu, como seus netos brancos – de suas próprias palavras. Perfeitamente compreensível, ao contrário do que dizem muitos jovens hoje, que não tiveram essa experiência, tal como foi no passado, com gente do passado. Como é que se pode carregar um bebê que abraça o pescoço, troca afagos, dorme no colo, cresce nesse contato que só família tem, e depois dizer que não é família, porque são de classes sociais diferentes? Mesma coisa pelo ponto de vista da criança – minha posição neste caso. Alguém que nos carrega, que troca afagos, nos embala no colo, nos acompanha em nosso crescimento, como pode deixar de ser alguém da família?
Aurora e uma de suas filhas, Aureliana, moravam perto de nossa casa, depois se mudaram para um bairro mais afastado, mas permaneceram em Belo Horizonte, enquanto Matilde, sua outra filha, foi para São Paulo, por causa do trabalho do marido. Mesmo depois de aposentada e apesar de morar muito longe, Aurora nos visitava sempre que podia. Também íamos à sua casa, eram momentos cheios de ternura. Era uma amizade verdadeira, com afeto, ajuda mútua e saudades. Quando os netinhos de Aurora estavam de férias, iam para BH, e nos visitavam, invariavelmente, levados por ela e Matilde. Eles enchiam o ambiente de alegria, cheios de vida.
Mais tarde, jovem médica, pelos meados da década de 1980, fui estagiar num hospital de São Paulo, capital, para aprimorar meus conhecimentos e experiência numa área específica, de interesse para a equipe na qual trabalhava. Durante esse período, fiquei morando no alojamento para estagiários e médicos residentes, contíguo ao hospital. Assim ficou bem mais fácil, pois nunca tinha ido à megalópole antes, nem para passear.
Depois de algum tempo confinada na área hospitalar, resolvi arriscar-me a sair da “redoma” e enfrentar as ruas e avenidas da grande cidade, num domingo de folga. Decidi visitar a família de Matilde, que há muito tempo não via. Eles moravam em uma cidade satélite da Grande São Paulo.
Após analisar mapas da região e do metrô, bem como livretos turísticos, concluí que seria melhor telefonar para a casa de Matilde (ainda não existia comercialização de celulares, naquela época), para obter informações mais precisas, além de anunciar minha visita. Muito surpresa e emocionada, ela queria ir me buscar no hospital, mas com minha insistência, acabou me dando todos os detalhes de como chegar ao bairro onde moravam – eu teria que pegar o metrô e depois um ou dois ônibus, não me lembro mais –, ela e seu marido iriam me esperar no ponto onde eu deveria descer.
Tenho medo de muita coisa, mas fui destemida dessa vez. Segui as instruções rigorosamente e, apesar do estresse, cheguei lá. Quando os vi no passeio, no ponto indicado, desci do ônibus esbaforida, e foi abraço que não acabava mais. Os olhinhos dela brilhavam atrás dos seus óculos, com laguinhos de lágrimas tímidas, fugidias, reveladas pelas fungadas do nariz – as minhas também.
No trajeto até a sua casa, Matilde me disse que era mais seguro que eu ficasse entre ela e seu marido, de braço dado com os dois, para que os moradores do bairro vissem que eu era amiga deles. Tomei um susto, não imaginava qual o motivo daquilo, nem ousei perguntar, mas me senti protegida pelo casal. Olhei em volta e notei que eu era a única pessoa de pele clara. Havia muitos rapazes na rua, olhando de soslaio para nós. Eu me senti como uma personagem de algum filme americano, com cenário num daqueles bairros de negros usando gorros. Eu estava vestida simplesmente, com calça jeans – provavelmente não tão na moda como as deles – uma camiseta banal, tênis... A razão do estranhamento não ficou muito clara, mas percebi que ali estava se fechando um gueto.
Felizmente, não aconteceu nada. Dois quarteirões adiante, chegamos à casa dos meus amigos, sem incidentes. Passei o dia com eles, foi muito agradável, me senti em casa. Matilde insistiu para que eu dormisse lá, mas eu tinha que trabalhar cedo na segunda-feira, não podia ficar. Já era hora de voltar para o hospital. Quando fui me despedir de Matilde, ela me disse que iria comigo, não me deixaria ir sozinha, já de noitinha. Em vão, tentei dissuadi-la dessa ideia. Ela me dizia: - Sua mãe não gostaria que você fosse sozinha, a esta hora, numa cidade desconhecida. E lá fomos nós, juntas, até o hospital... Esse dia passou rápido, mas como marcou! Minha memória afetiva tem esse encontro em grande conta.
Às vezes, quando vejo as notícias do Brasil atual, penso que as relações humanas estão se deteriorando. Mas talvez não... De qualquer forma, acho relevante registrar casos como esse que vivenciei, tempos tão diferentes de hoje, mas que fazem parte da nossa história. Amizades como esta aconteceram aos milhões pelo país afora. Não podemos desprezá-las. Não podemos julgar mentalidades que estavam mergulhadas numa fase de transição da sociedade. Certo é que tampouco podemos eternizar essa transição, contribuindo para manter as desigualdades sociais. É preciso mudar a estrutura e parece que há um embrião se desenvolvendo nesse sentido.
Vamos avançar para melhorar as condições de vida de todos, honrando amizades sagradas que nos enobrecem e fortalecendo nossos elos, para evoluirmos sempre unidos. Desejo, fervorosamente, que a crise por que passa o país não seja em vão, que leve à correção dos desvios de toda ordem e das injustiças sociais, com todas as suas nefastas consequências.
Que venha um lindo arrebol de uma nova aurora para o Brasil!

segunda-feira, março 05, 2018

Reflexões para a Quaresma

"Pietà" de Manuel Bronze
Pastoral da Cultura
Diocese do Porto - Portugal

Passeando pela Internet em busca de textos inspiradores para a Quaresma, deparei-me com um documento lindíssimo da Diocese do Porto, em Portugal. Embora não tenha sido elaborado para o tempo da Quaresma, creio que vem a calhar, com os temas Morte e Esperança Cristã. Não se fala aqui em contextos limitados geograficamente, embora estes também sejam necessários. As reflexões deste documento são algo mais elevadas, são atemporais, se é que podemos fazer incursões nesses circuitos.
O link para o documento completo aqui está, vale a pena ler tudo:
Transcrevo, abaixo, um excerto que nos remete a uma reflexão profunda (não é de minha autoria, é um excerto do documento citado acima):

“Esperança cristã (excerto)
Estranhamente, a luz ténue da esperança cristã apresenta duas facetas paradoxais, em relação à morte. Por um lado, surge como salvação da morte e, nesse sentido, como condenação da morte, enquanto o que de pior pode acontecer aos humanos – e que é experimentado, sobretudo, na morte do outro que amamos; por outro lado, o caminho da esperança cristã só é possível através da morte, isto é, depois de dita a penúltima palavra sobre nós, pois é essa palavra que coloca um ponto final na nossa vida terrena e, desse modo, torna essa vida completa – mesmo que, na nossa perspetiva, pareça estar sempre incompleta. Ou seja, cada um de nós só será ele mesmo, sem mais possibilidade de alterar a sua identidade, quando morrer, por mais breve que seja o seu tempo de vida. Assim, a morte é inevitável, não apenas de facto – todos sabemos que morreremos – mas, em certo sentido, de direito – somos seres biologicamente finitos e, para o «encerramento» do nosso processo de construção da identidade pessoal, temos que morrer.
Isso não significa, contudo, que tudo termine com a morte biológica. Com ela termina, é certo, algo muito importante, essencial; termina a vida em liberdade, que nos permite escolher ser o que seremos; e interrompe-se a relação com os outros, fundamento da construção da nossa identidade. Mas não termina, por completo e para sempre, a possibilidade dessa relação, como condição de vida. Abre-se, isso sim, uma outra dimensão da vida, em que o que somos e a nossa relação aos outros atinge um outro patamar de existência. É aí que se torna explícito – dentro dos limites da nossa compreensão – aquilo que nos é dado esperar, enquanto cristãos, para todos os humanos.
Na relação concreta com a morte, os conteúdos da esperança cristã poderão definir-se, antes de mais, negativamente. De facto, não esperamos que, na morte, apenas morra o nosso corpo biológico. A ideia de separação entre corpo e alma, na perfeita continuidade da alma, é apenas uma negação da morte. Com a morte, apenas morreria uma parte de nós, a menos importante. Mas nós mesmos, enquanto alma, continuaríamos alheios à morte. Em realidade, a morte não seria real, apenas aparente e apenas problemática para quem estivesse demasiado apegado ao corpo.
Mas, sem morte, não há ressurreição. Portanto, a esperança cristã não pode negar ou contornar a morte, enquanto tal. Antes a assume na sua problematicidade e dramaticidade. Só não a acolhe como trágico destino, sem saída nem solução. A «saída» oferecida, que é o núcleo da nossa esperança, é precisamente a ressurreição.
Mas é necessário precisar o que se entenderá por ressurreição. Mais uma vez, convém começar negativamente. Não é ressurreição o regresso à vida, a revivificação, pois isso é, simplesmente, regressar a uma dimensão novamente sujeita à morte – às numerosas mortes quotidianas. Também não é reencarnação, pois acabaria por significar o mesmo, no interminável ciclo das vidas mortais – que, além do mais, anulariam por completo a possibilidade de uma identidade pessoal. A ressurreição é a transfiguração de nós mesmos numa outra dimensão de nós, que é uma outra dimensão da vida. Essa outra dimensão não podemos nós próprios realizá-la – apenas podemos preparar-nos para a acolher ou para a recusar. Porque essa outra dimensão é a dimensão de Deus, em que seremos nós mesmos, por pura dádiva gratuita do seu amor. Aquilo a que a tradição cristã chamou céu não será senão essa dimensão de Deus, em que a força do seu amor será tudo em nós – e nada mais. Mas será tudo, em cada um de nós, considerado pessoalmente, como ser único e irrepetível, que construiu a sua identidade enquanto ser corpóreo, de carne e osso. Por isso, a ressurreição não é pensável sem referência ao corpo, que foi o lugar e a possibilidade da nossa identificação. E a dádiva imensa de Deus será acolhida, de acordo com a identidade de cada um, no respeito pela liberdade com que construiu essa identidade.
Por isso é que esperamos, também, que a vida na dimensão de Deus seja, ao mesmo tempo, uma vida plena, na relação aos outros, que supera a interrupção dessa relação, introduzida na morte e que, legitimamente, tanto nos faz sofrer. Na dimensão da vida de Deus, seremos dados à vida – uma vida diferente da que conhecemos biologicamente – para darmos a vida, tal como a demos, no nosso percurso terreno. Porque a dimensão do amor de Deus é a dimensão da doação plena, da dádiva completa de si. Se aceitarmos viver eternamente para os outros, teremos vida eterna, nesse dinamismo de doação sem fim e sem limite. (...)
Sem entrar em pormenores descritivos, porque seria impossível e mesmo insensato descrever essa dimensão da vida, a não ser metaforicamente, poderemos dizer que o conteúdo da esperança cristã ainda torna mais dolorosa a experiência da morte dos outros, sobretudo do próximo que mais nos toca. Porque se o sentido da vida é a vida para o outro, o maior absurdo está na interrupção dessa relação ao outro que nos morre. Chorar, amargamente, quem nos morre, é um ato profundamente cristão. Só não o será o desespero completo, perante essa morte. Porque seremos salvos pela esperança. A perdição seria o desespero, simplesmente.
Mas, qual o fundamento dessa esperança? Não se tratará de pura ilusão alienante? Que razoabilidade pode possuir o que nos anima? Não será mera construção humana, para responder a um desejo que não consegue satisfazer de outro modo?
É claro que não podemos demonstrar pelas ciências naturais aquilo em que esperamos. É normal que assim seja, pois a dimensão da vida que esperamos não se pode demonstrar por esses meios. Como não podem, aliás, muitas dimensões importantes da nossa existência, entre as quais sobressai o próprio amor, que torna a morte mais dramática ainda. Mas essas dimensões podem, isso sim, ser acreditadas, constituindo essa fé a base da nossa confiança e, por isso, da nossa esperança. É claro que não se trata de uma fé cega, simplesmente para contornar a dolorosa questão da morte. De facto, há motivos para crer, e esses constituem a razão da nossa esperança.
Fundamentalmente, a base da nossa esperança é o próprio Jesus Cristo, ressuscitado de entre os mortos e primogénito na nova dimensão da vida, precisamente porque viveu dando a vida, até à doação extrema da morte. Ou seja, a ressurreição de Jesus, núcleo da fé cristã, é o fundamento da esperança de que seremos dados à vida, para além da morte, numa outra dimensão da existência – a dimensão plena de Deus. Por isso, verdadeiramente só pode partilhar a esperança cristã quem partilhar a fé cristã. Uma é impensável sem a outra – assim como ambas são impensáveis sem a caridade, pois é na doação da vida ao outro que se realizam a nossa fé e a nossa esperança.
Aliás, Jesus Cristo não é apenas o fundamento primordial da nossa esperança, mas também o revelador da verdadeira relação entre os humanos e a morte. De facto, enquanto verdadeiro Filho do Homem, Jesus assumiu completamente a condição mortal dos humanos, sem com isso declarar a morte como algo bom. De facto, ela não deixou de ser o último inimigo, que só a dádiva da «vida eterna» pode vencer. Mas essa vitória é tudo menos triunfal. A vida de Jesus e o seu desfecho manifestam, claramente – embora paradoxalmente – que o caminho da verdadeira vida é o caminho que passa pela morte, sem lhe fugir de modo ilusório. Mas, ao mesmo tempo, essa passagem pela morte não é uma passagem qualquer. Ela mesma é, em Jesus, uma dádiva livre e gratuita da vida. E só essa dádiva possui força – que é a força de Deus – para vencer verdadeiramente a morte. Porque uma vida dada livremente pelo outro, na morte, faz com que essa morte não possa roubar-nos a vida, pois esta adquire eternidade, na medida em que é dada. Assim sendo, a ressurreição de Jesus, que constitui fundamento da nossa esperança, é uma ressurreição que coincide com um determinado modo de morte – a morte como doação da vida pelo outro e ao outro (e, neste, ao próprio Deus).
Mas, para além deste fundamento crente da esperança cristã, poderíamos considerar o que significa, humanamente, ser-nos permitido esperar que a morte não tenha a última palavra sobre nós. Tal como tão bem têm formulado muitos escritores e pensadores nossos contemporâneos – e mesmo nossos conterrâneos – a impossibilidade dessa esperança apenas nos conduz ao absurdo, ao sem-sentido completo de todos os nossos desejos e aspirações, assim como das nossas realizações. Nesse sentido, poderíamos dizer que é mais humanizante esperar para além da morte do que desesperar com a morte. E é essa esperança que nos dará coragem para acreditarmos no ser humano, apesar de tudo – apesar da morte.”

quinta-feira, março 01, 2018

Good old days

© Maria do Carmo Vieira-Montfils


It has been so long since I live in Quebec and have been assimilated by its culture, that I can already use its motto “Je me souviens”, although the intensity of my memories here is not as extended nor as complex like that of “Québécois de souche”, obviously… I was not born here, my ancestors were not either. But we end up gluing to the tree bark and having a similar look.
At the end of February and in the beginning of March, the nostalgia from Sugar Times comes to whisper soft words in my ears and my heart is not deaf. As I drive inland through the country lanes – somewhere around here – I remember rustic sugar shacks, very rare nowadays.
The production of maple syrup is one of the first signs of spring... winter is coming to the end. The reality that we are part of the Earth is more obvious in these high latitudes. We are integrated in the rhythm of the Nature. The action begins in the maple forests, the sugar shacks are literally in full steam. The roots of the trees stretch after a long sleep and the sap begins to rise: it is new blood circulating.
Each year, the ritual of making maple syrup is renewed, an inherited Amerindian tradition much appreciated here. Today, there is a huge production by modern, industrialized systems. However, there are still a few old fashioned sugarhouses – very few. Essentially, it consists in making a hole in the trunk of the tree and put a bucket to collect the sap. Then the liquid is boiled in large containers inside the sugarhouse. By evaporation, the sap is concentrated in 100% natural syrup.
There is a typical sugarhouse vocabulary, connected to the phases of production and products – apart from syrup, we can make several treats – sweets.
In the good old days, in the weekend, families and friends met in sugarhouses for typical meals, playing accordion and singing folk songs, or simply having fun while helping to do the work. So many people who are no longer among us...
Walking in the woods during winter is not as easy as it seems, especially for someone who lives in the city and comes from a tropical country, like me. Winter clothing and boots represent a considerable burden when it comes to picking up all the water to take to the shack. When there is still a lot of snow on the ground, we do not know if the foot will sink or not, if we are walking on a broken branch, or on a rock. I found it difficult. Not having this custom, it is easy to imagine how slowly I walked and the laughter it gave rise to in people, my husband the first one. Result: I preferred to stay in the kitchen to wash the dishes. Outside, just to take pictures and breathe clean air.
The sugarhouse looks like a druid place, as if we were in a magic world, enjoying a delicious "potion" being prepared. We are involved by a sweet cloud, it smells sweet, and it tastes sweet. The sweet steam condenses at the ceiling and then we receive sweet drops on our bodies... friends and family together welcoming the spring in sweetness. In those days, when I used to go to an old sugar shack – my father-in-law's sugarhouse – the official stoker was my husband. We were the first to arrive there, very early, and the last to leave, at sunset – there was no electricity.
In these rustic places, it is the stoker who makes the maple sugarhouse warmer while the water turns into syrup. It is the stoker who works this miracle. Then, the miracles... they are endless... syrup turns into taffy, maple butter, candies... all sweetness of the world in the sugarhouse. Then... it turns into Spring!
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My pictures:
 https://www.trekearth.com/themes.php?thid=12123

Velhos tempos

© Maria do Carmo Vieira-Montfils

version en français
English version
 
Já faz tanto tempo que vivo no Québec e que venho sendo assimilada pela sua cultura, que já posso usar o seu lema, “Je me souviens”, embora a intensidade das minhas lembranças daqui não seja tão grande nem tão complexa como a dos “Québécois de souche”, obviamente... não nasci aqui, nem meus ancestrais. Mas a gente acaba se colando à casca da árvore e ficando parecida com ela.
No final de fevereiro e início de março, a nostalgia da “temporada dos açúcares” vem murmurar palavras doces nos meus ouvidos e meu coração não é surdo. Passeando pelo interior do país, em estradas rurais – nos arredores de onde moramos, na roça – eu me lembro das cabanas de açúcar rústicas, raras nos dias de hoje.
Gosto quando o “Temps des Sucres” chega, pois é sinal de que o longo inverno está acabando... É prenúncio da primavera! A obviedade do fato de sermos parte integrante da Terra é mais evidente nessas altas latitudes. A gente entra no ritmo da natureza. O burburinho começa nas florestas de ácer (maple/érable), as cabanas de açúcar literalmente a todo vapor. As raízes das árvores se espreguiçam depois de um longo sono e a seiva começa a subir: sangue novo que circula.
Todo ano se repete o ritual de fazer o “sirop d’érable” (maple syrup). É uma tradição herdada dos ameríndios e muito apreciada por aqui. Embora haja uma produção enorme usando modernos sistemas industrializados, existem ainda algumas poucas cabanas de açúcar que utilizam o antigo método: faz-se um orifício no tronco da árvore e coloca-se o balde para coletar a seiva. Em seguida, esta “água” é fervida em grandes recipientes, dentro da cabana. Por evaporação, a seiva é concentrada para se transformar no “syrup” 100% natural.
Há todo um vocabulário típico de cabana, relacionado às etapas da produção e aos produtos – além do sirop, podem ser feitas várias guloseimas doces.
Naqueles velhos tempos, nos fins de semana, famílias e amigos costumavam se reunir na floresta para se regalarem com pratos típicos, para tocar acordeon e cantar canções folclóricas, ou simplesmente para se divertirem, enquanto ajudavam nos trabalhos. Tanta gente que já se foi...
Andar na floresta no inverno não é tão fácil como parece, principalmente para uma citadina como eu que, além do mais, vem de um país tropical. As roupas e as botas de inverno representam uma considerável sobrecarga, quando se trata de sair coletando essa água toda para levar para a cabana. Quando ainda resta muita neve no solo, a gente não sabe se o pé vai afundar ou não, se vai pisar em algum galho quebrado ou numa rocha e se desequilibrar. Não tendo esse costume, pode-se imaginar a lentidão com a qual eu me locomovia na floresta e os risos que provocava, a começar pelos do meu marido. Resultado: preferia ficar na cabana para lavar a louça. Lá fora, só mesmo para bater fotos e respirar o ar puro.
A cabana de açúcar faz pensar em um lugar de druida, como se estivéssemos num mundo mágico, a nos deliciarmos com uma poção que está sendo preparada. Uma nuvem doce nos envolve, o cheiro é doce, um gosto açucarado nos invade o paladar. O vapor açucarado se condensa no teto e cai em gotas sobre nossos corpos... a família e os amigos juntos para acolher a primavera com doçura. Naqueles tempos, quando eu costumava ir a uma daquelas antigas cabanas de açúcar – a do meu sogro –, o “foguista” (bouilleur) oficial era meu marido. Éramos os primeiros a chegar, cedinho, e os últimos a ir embora, ao pôr do sol – não havia eletricidade.
Nessas cabanas rústicas, é o foguista que põe lenha na fornalha e também calibra a “poção” ao ponto certo... E a cabana de açúcar se torna acolhedora, enquanto a água se transforma em "sirop". É ele que opera este milagre, o foguista. Aí, os milagres não acabam mais... o sirop se transforma em caramelo, em creme, em bombom... toda a doçura do mundo na cabana. Aí... aí tudo vira primavera!
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Minhas fotos:
http://pt.trekearth.com/themes.php?thid=12123