segunda-feira, janeiro 29, 2018

Janelas de hospitais

Fonte da imagem: Fiocruz

Notícias preocupantes sobre o Brasil não faltam. O que está me chamando a atenção desta vez são os casos de febre amarela cada vez mais numerosos, incluindo mortes pela doença e pela vacina. Parece que o foco maior de transmissão se encontra em Minas Gerais e vai-se alastrando aos estados vizinhos, infelizmente.
Procurei me informar lendo artigos de especialistas e, pelo que entendi, os casos ainda estão limitados às zonas rurais, em áreas de matas e seus arredores, onde o vírus está sendo veiculado pelos mosquitos dos gêneros Hæmagogus e Sabethes. A doença ainda não se urbanizou – e espero que isso não aconteça –, ainda não infectou o Ædes ægypti, que é um potencial veículo transmissor.
Fiquei sabendo, também, que as pessoas acometidas pela doença são levadas a hospitais das cidades e estão sendo colocadas em isolamento. Aí reside um dos riscos de se desencadearem os casos urbanos. Se o doente estiver em estado grave e, portanto, isolado dentro de uma Unidade de Tratamento Intensivo, as chances são menores, pois acredito que todas essas unidades funcionam com janelas lacradas.
Mas e se o paciente for hospitalizado para ficar sob observação e cuidados especiais, num quarto comum, apenas separado dos outros, adaptado às pressas para servir de isolamento, como é bem possível de acontecer no meu Brasil que conheço tão bem? Quartos com janelas que podem-se abrir fácil e livremente, em tempos de calor insuportável, sem a interposição de telas, podem deixar entrar, junto com a brisa arrefecedora, os ávidos mosquitos Ædes ægypti. Uma vez saciados em sua volúpia por sangue, estarão infectados pelo vírus da febre amarela e aptos a inaugurarem o ciclo urbano da doença.
Não estou querendo aumentar a aflição do aflito, que é a situação do brasileiro neste momento. É justamente para evitar maiores aflições. Se virem quartos precariamente “arranjados” para isolar pacientes com febre amarela, não deixem a situação passar em brancas nuvens. Alertem quem de direito, para tomarem as devidas providências. Parece óbvio, mas é sempre bom alertar.

sexta-feira, janeiro 19, 2018

Coentro não dá rima pra mim, tô fora

Coriandrum sativum

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English version 
- Você não gosta de coentro? Eu não. Tenho uma intolerância visceral a esta folhinha que parece inocente e tão apreciada por tanta gente. Recentemente, fiquei sabendo que esta planta dá muito o que falar e que já foi até mesmo assunto para pesquisa genética, tão acaloradamente divide opiniões gustativas (links ao final do texto).
Segundo os pesquisadores, há dois fatores principais que podem estar relacionados ao fato de gostar ou não de coentro, embora não se tenha chegado a um veredicto definitivo. Um deles seria o hábito de usá-lo em pratos tradicionais de certas regiões do planeta favorecendo seus habitantes a se acostumarem e gostar dele. Mas mesmo nesses lugares, há pessoas que têm verdadeira aversão ao ingrediente, o que levou alguns pesquisadores a pensarem em uma causa genética como segundo fator.
Há tantos alimentos, tantos temperos que uns gostam e outros não, e ninguém se preocupa. Penso que, no caso do coentro, o que intrigou os cientistas foi a intensidade da aversão de quem não gosta, como eu. Por que essa repugnância tão forte?
No início dos anos 2000, usando o olfato e o paladar como parâmetros, o pesquisador em neurociência Charles Wysocki, do Monell Chemical Senses Center, na Filadélfia, Pensilvânia, testou centenas de gêmeos uni e bivitelinos, presentes em um festival de gêmeos em Ohio, e encontrou em cerca de 80% dos gêmeos idênticos a mesma reação à planta, contra cerca de 41% dos não idênticos, o que sugere um substrato genético para esta característica.
Na tentativa de identificar uma base genética sólida, dois outros estudos foram realizados, um por Lilli Mauer, da Universidade de Toronto no Canadá, em 2011, e outro pela equipe de Nicholas Eriksson da companhia 23andMe, na Califórnia, em 2012. Em ambos os estudos foram encontradas variantes em genes de receptores olfatórios e, na pesquisa do Canadá, também em genes de receptores de gosto amargo, relacionado às reações ao coentro.
Seria interessante que os cientistas estudassem mais sobre isso. Há um consenso de que a aversão seja causada pelo cheiro da planta. Apesar de eu mesma sentir uma aversão intensa ao cheiro dela, penso que há algo mais amplo do que isso. Creio que o aroma é o componente mais evidente, mas não é o único motivador dessa rejeição visceral. Pelo menos no meu caso, a magnitude da reação é muito maior, embora o odor que a planta exala tenha também um papel importante na aversão que me provoca.
Na casa dos meus pais, nunca tivemos queda por especiarias ou receitas culinárias elaboradas e bem condimentadas. Usávamos o essencial, ou seja, sal, alho e cebola, óleo de cozinha, às vezes uma salsinha, se tanto. E era muito bom! Quando muito, uma Pimenta Malagueta, que minha mãe adorava.
Abro parênteses: cá estou eu usando a primeira pessoa do plural, até parece que eu sou afeita à cozinha. Sou um fracasso. Fecho parênteses.
Por um determinado período, tivemos uma cozinheira mais despachada, que resolveu ela própria ir comprar os ingredientes para cozinhar. Com certeza, já estava cansada da monotonia gustativa lá de casa. Um belo dia, na primeira garfada, senti que tinha engolido algo estranho, mas não consegui definir muito bem se era o gosto ou o cheiro que tinha me desagradado. E a tal ponto me desagradou que tive que ir correndo ao banheiro para vomitar, coisa que tenho uma certa dificuldade para fazer, em outras situações nauseosas que se apresentam. Já comi alimentos de que não gostava, por educação, sem maiores problemas, mas desta vez, foi como se meu estômago estivesse dizendo, peremptoriamente: - Isto não!
Não consegui engolir mais nada que estava naquele prato pois percebi que havia um cheiro muito incômodo. Mais estranho ainda foi que ninguém na mesa sentia o tal cheiro no meu prato, só eu. Fui perguntar à cozinheira se havia alguma coisa diferente do habitual na comida e ela foi logo respondendo: - Ah, hoje comprei coentro e resolvi usar para temperar. Em seguida, ela pegou umas folhinhas que restavam e me deu para cheirar. Era exatamente aquele cheiro e eu tive que voltar correndo para o banheiro. Nem preciso dizer que nunca mais passei perto de coentro. E, ainda por cima, o episódio me rememorou uma outra vez em que passei mal após um jantar com frutos do mar... Aposto que devia ter coentro.
Com o resultado dessas pesquisas científicas, então, está explicado, tenho esse tal traço genético. Fiquei aliviada, não é fricote.   
       Passaram-se anos... de outra feita, confirmei a minha intolerância quando passei um creme de mão e minhas mãos foram ficando vermelhas e coçando... Nem estava me lembrando do coentro e nem sabia que podia entrar em composição de creme de mão. Devido à reação (tipo alérgica mesmo), tive curiosidade de ler os ingredientes: o danadinho do coentro estava lá.
Penso que essa aversão é a manifestação de alguma coisa mais complexa. Esperemos que venham mais estudos sobre isso.
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P.S.: os estudos genéticos realizados, que constataram a sensibilidade maior a aldeídos, me fizeram lembrar de um teste que era feito em aula prática de laboratório, quando estudei medicina. O professor nos fez cheirar uma substância que, se me lembro bem, continha aldeído, para nos mostrar que alguns sentiam o cheiro e outros não.
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Imagem por Franz Eugen Köhler, Köhler's Medizinal-Pflanzen - List of Koehler Images, Domínio público, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=255535
 Referências sobre os estudos:

quarta-feira, janeiro 17, 2018

Ser ou estar


Imagem do site:
http://cienciaeculturanaescola.blogspot.ca
English

Français

Este texto é para os que gostam de conjecturas linguísticas e também para quem gosta de divertidas extrapolações antropológicas e paleontológicas, daquelas regadas a café com leite pelando, acompanhado de pão com manteiga, lá pelas tantas, como costumávamos fazer na casa de meus pais, quando éramos jovens: irmãos, primos, amigos... Saudades.
Motivada pela leitura de comentários em um fórum linguístico que acompanho no Facebook, em que se discutia sobre os verbos ser e estar, fiz umas pesquisas na internet e penso que descobri um jeito de explicar melhor como usar os verbos 'estar' e 'ser' em português a pessoas que falam línguas que, aparentemente, não possuem o correspondente ao verbo estar, como o francês e o inglês, e que usam o 'être' e o 'to be' em situações em que usamos o 'estar'. Meu marido é bilíngue francês/inglês e se vira razoavelmente bem em outras línguas; ele compreendeu perfeitamente a conotação de transitoriedade do ‘estar’ e de essência do ‘ser’, mas na hora de empregar os verbos, ele às vezes troca um pelo outro. E não é só ele que faz essa confusão. Não tendo um verbo que condense o 'pensamento' correspondente na própria língua, fica difícil. Dá para compreender por que os anglófonos e os francófonos confundem:
Ela é triste: She is sad... Elle est triste.
Ela está triste: She is sad... Elle est triste.
Achei uma explicação bem boa sobre a "história" desses verbos num site web português e, considerando que a evolução do pensamento humano é semelhante nas diversas “culturas”, deduzi que o correspondente de 'estar' em inglês poderia ser 'stand' (não ‘stay’, como pensam alguns). No alemão 'stehen'. Vejam a explicação em link (1), que interessante! O verbo 'estar' vem de 'estar de pé' e isso tem a ver com transitoriedade.
            Tentando dar razão à minha dedução, pesquisei sobre o verbo ‘stand’ e, realmente, ele tem um uso semelhante ao de ‘estar’. Só que o uso mais comum é com o verbo 'to be'.
No dicionário Collins, está bem claro (2):
“… link verb
You can use stand instead of 'be' when you are describing the present state or condition of something or someone.
Examples:
The alliance stands ready to do what is necessary.
The peace plan as it stands violates basic human rights.”
Para o francês, infelizmente, ainda não encontrei correspondente (o que mais se encaixa é 'rester', que fica um pouco estranho, mas não fica de todo desconexo).
Um primo, daqueles chegados a tomar um café com leite fumegante – com nata! – e grande conhecedor de Latim, entre outras tantas línguas, o querido José Eduardo, enviou-me, além de várias referências confirmando a origem etimológica do verbo ‘estar’, uma página ótima para os francófonos se desemaranharem das tramas do português. Vejam só este link (3) de real utilidade (descontados os erros de francês).
            Aconselho também o verbo STAND do inglês, para ajudar os anglófonos a memorizar, pois parece visualmente com ESTAR e, se a pessoa tentar substituir por ele, numa frase correspondente em inglês e não encaixar de jeito nenhum, é porque o certo é dizer SER. O 'stand' às vezes fica meio forçado no lugar do ESTAR, mas não fica estapafúrdio, sem nexo.
Agora, vamos às extrapolações...
A origem de 'estar', então, remonta mesmo à expressão 'estar de pé', e isso explica o caráter de transitoriedade do verbo, em contraposição ao verbo 'ser'. Todas as posições são transitórias, mas o fato de a posição de pé ter evoluído para simbolizar a conotação de transitoriedade me intrigou.
Ninguém sabe ao certo, até hoje, o que surgiu primeiro: o bipedismo ou a inteligência superior, em relação aos outros animais, com o desenvolvimento da linguagem mais sofisticada, com capacidade de veicular símbolos, ideias e noções abstratas. Prevalece a ideia de que o bipedismo surgiu primeiro e permitiu o desenvolvimento da inteligência (uso das mãos, etc...).
De qualquer forma, quando a linguagem começou a se desenvolver, o bipedismo devia estar ainda em transição. Não devia ser fácil ficar muito tempo de pé. Só transitoriamente mesmo. Até hoje não somos completamente adaptados ao bipedismo, estar de pé não é nossa posição preferencial. Quem fica de pé por longos períodos de tempo, pode apresentar problemas e, se adicionadas condições climáticas menos favoráveis, a posição bípede prolongada pode se tornar mais incômoda e até mesmo prejudicial.
Então, no verbo ‘estar’ ficou embutida essa ideia de transitoriedade, relacionada à posição de pé. Olha a importância disso! Parece que a nossa linguagem está contando a nossa própria história de evolução! Isso é fascinante!
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Links relacionados: