segunda-feira, dezembro 19, 2016

Feliz Natal e Próspero Ano Novo


Français

English

No mundo ocidental, que é o mundo onde nasci, cresci e sempre vivi, Natal e Ano Novo são festivos, tempo de trocar votos de felicidade. Mesmo que o ano tenha sido triste, duro, penoso, dramático; por isso mesmo, sentimos vontade de ter esperança por melhores dias. Aqui estou eu, de novo, para participar desta campanha em prol do otimismo.
Temos visto morrer os últimos bastiões de muitas ideias e feitos que transformaram o mundo no século passado. Temos visto, também, muitos novos e difíceis desafios, deste século em curso.
Nascida em meados do século XX, dele já estou-me considerando uma "sobrevivente". Não estou-me sentindo velha, apesar de a “máquina” vacilar, por vezes, mas é inegável que quem chega à minha idade já não é mais jovem, nem na cabeça, como alguns costumam dizer. Tendo vivido tantos anos, por mais distraída que uma pessoa possa ser, ela adquire uma experiência que só os velhos podem ter, obviamente.
No correr da minha trajetória, vi e estou vendo passar várias gerações. Olhem só... Eu conheci minha bisavó, que nasceu em 1877, imaginem. Ter convivido com uma pessoa daquela época, entre outras, dá um certo cabedal, não é? Mesmo que não quisesse, mesmo sem me debruçar obstinadamente nos livros de História, adquiri um conhecimento histórico consuetudinário não negligenciável. Grandes acontecimentos, descobertas, movimentos artísticos e da sociedade, avanços tecnológicos e científicos, guerras, tantos eventos ocorridos nos anos 1900, que os jovens de hoje conhecem pela boca de professores, pelo uso de aparelhos modernos, ou pela leitura de textos, foram presenciados por pessoas da minha geração, que estavam lá quando muitas dessas coisas aconteceram.
É natural pensarmos que sabemos muito, mas faz pouca diferença, na verdade. Acaba sendo muito importante para nós mesmos. Essa “era” vai caminhando para o seu fim, a face da Terra vai adquirindo novas faces, e também as ideias vão-se renovando. É inútil querer que as antigas prevaleçam. É normal e salutar que haja mudanças, que haja progressos na sociedade humana.
Espero que os jovens sejam capazes de descobrir a importância de seu próprio tempo, com seus próprios desafios, que não são poucos. Que não adiem aquilo que lhes cabe como agentes do futuro. Em muito pouco tempo, nós, os mais velhos, não estaremos mais aqui, nem para ajudar, nem para atrapalhar. Que eles se desapeguem dos ranços nefastos desse século que já passou, mas que estão ainda tentando, com fútil contumácia, manter seus estertores finais. Não que o passado seja de todo ruim, ao contrário, ele nos dá sabedoria.
Desejo aos cidadãos do ano que vem um futuro promissor. Que saibam usar sua energia para aperfeiçoar os acertos e não para insistir nos erros, seja lá onde for que julguem ter havido enganos. E, sobretudo, que tentem inovar, sem, no entanto, se esquecerem de um instrumento muito velho que nunca foi bem usado por nós, apesar de ter sido tão apregoado e de o ser ainda: o Amor. Para este eu não abro mão de fazer propaganda... “Quem tem ouvidos para ouvir, ouça” (Mateus 13:9)
A todos nós, enfim, que nos esforcemos para agir com solidariedade, tentando acalmar instintos belicosos, em vez de fomentá-los. Precisamos de nos unir, com objetivos comuns, para o bem da humanidade, para o nosso bem. As novas tecnologias da comunicação, que vão evoluindo rapidamente, podem nos ajudar muito, se não as usarmos com malignidade.
Que este momento especial do nosso planetinha, em sua órbita em torno do sol, mantendo a vida e a morte nesse círculo vicioso, tão atraentemente dependente dos raios solares, nos ajude a compreender quão ínfimos somos e, ao mesmo tempo, grandes por compreendermos isso.
Para finalizar, quero partilhar com todos a melhor energia de que disponho: a fé na VIDA sem morte, para além de tudo isso que podemos perceber. A comemoração do nascimento do Menino Jesus nesta época do ano foi muito bem escolhida, a analogia é muito boa. A luz do sol, da qual nos distanciamos (pela translação da Terra), e que deixou para nós o frio glacial, começa a ressurgir para o norte deste mundo, trazendo a esperança de volta a nossos corações.  
Feliz Natal e Próspero Ano Novo!

domingo, dezembro 04, 2016

Apoio à Lava-Jato




As investigações e punições, como vêm ocorrendo com a "Lava-Jato", vêm sendo fortemente recomendadas pela Organização das Nações Unidas (ONU).
Já ficou devidamente esclarecido que a situação de miserabilidade em que se encontram dois terços da humanidade se deve, em grande parte, à corrupção que grassa no planeta, principalmente nos países do terceiro-mundo, onde a população ignorante não é capaz de exigir seus direitos, sequer de ter conhecimento deles. A determinação feita pela organização é para que máximos esforços se façam para combater a corrupção.
Para tal, existem modelos de estrutura policial e judiciária que são recomendáveis, e estão sendo usados em vários países, para que as ações de investigação e punição não possam ser coibidas por interesses escusos nem sujeitas a embaraços. Assim tem agido a UPAC (Unité Permanente Anticorruption) no Quebec, bem como em todo o Canadá.
Não faz muito tempo, uma ex-vice Premier do PLQ (Partido Liberal do Quebec), entre outros, foi presa por corrupção, situação rara por aqui, e o Ministro da Segurança Pública disse que "é importante lembrar que não há absolutamente ninguém acima da lei, e que a UPAC deve fazer e faz seu trabalho de forma independente." (1)
Assim vinha agindo também a nossa "Lava-Jato", no Brasil. Agora com o absurdo desvirtuamento da proposta anti-corrupção analisada no Congresso Nacional, que a transformou em pró-corrupção, a estrutura policial e judiciária corre o risco de perder toda a sua função e utilidade. Espero que mais esta aberração brasileira seja corrigida a tempo.

sexta-feira, dezembro 02, 2016

Os moradores de nenhures

www.dicio.com.br/nenhures
Ce texte en français: https://maviemontfils.blogspot.ca/2016/10/les-habitants-de-nulle-part.html

Parece que está sempre acontecendo alguma coisa, em algum lugar, levando as pessoas a se mudarem de país. Embora em muito menor número que as catástrofes e guerras, também os chamados do amor, por alguém ou por uma profissão impelem à migração. No meu caso foi o amor... Qui prend mari, prend pays.
Nunca tinha imaginado que iria morar tão longe da minha terra natal. Não foi fácil deixar meus entes queridos e minha profissão. A escolha da felicidade me custou o luto de tudo aquilo que eu havia realizado na vida. Os dias que antecederam a viagem, com todos os preparativos, e o dia da despedida, foram de muita angústia. Os últimos instantes antes de partir foram cheios de emoção. Com direito a uma cena cinematográfica que não assisti, de dentro do avião, não pude ver meus familiares, muito longe, no terraço panorâmico do aeroporto. Meus olhos estavam por demais embaçados. Soube depois que acenaram, minha mãe com um lenço branco. Ela também chorava.
Nem todos da família puderam estar presentes ao meu casamento. Mandei o filme para que pudessem ver. Mesmo com todo o incontestável progresso da tecnologia de comunicação, morar do outro lado do planeta continua sendo muito longe. O amor, porém, perdoa e enaltece tudo.
Apesar dos pesares, esta é uma história alegre – vivo uma união feliz com meu marido. Posso visitar meu país de origem – quando posso. Após dezessete anos de exílio voluntário, acabamos achando isso quase banal. Sou de sorte, em vista dos terríveis casos de migração por motivo de tragédias, como temos visto, milhares de pessoas tentando escapar dos massacres e da fome. E muitas, provavelmente, não poderão nunca mais rever seus familiares, refugiados em outros lugares do mundo ou mortos em conflitos sangrentos.
Tampouco pude estar com minha mãe nos momentos antes de sua morte nem nos rituais de despedida desse mundo. Pude ver seu corpo morto, ao vivo... Vi, graças à internet. Meu lenço branco era de papel e não acenava.
Somos tão primitivos, tão dependentes ainda de nosso próprio peso... Não temos a leveza do pensamento que, em fração de segundos, pode viajar anos-luz. Chegaremos a esse estágio algum dia?
Recordações de uma passagem que me marcou, quando era ainda criança, vêm à tona, quando penso no exílio... ecos de momentos dolorosos da História da Humanidade. Sempre houve muitos imigrantes no meu país, mas testemunhei, em nossa casa, um caso em particular, em carne e osso, e tristeza. Uma costureira austríaca, que trabalhava a domicílio, nos possibilitou ouvir o sotaque da Segunda Guerra Mundial e suas consequências. Dona Gisela (pronunciado Guísela) e seu marido, um alemão, tinham deixado a Europa para se aventurarem do outro lado do Oceano Atlântico. Não tinham filhos. Os que restaram da família dele, continuaram a viver no que foi a Alemanha Oriental, sob o jugo da antiga União Soviética.
Não sei se é porque eu era pequena, achava Dona Gisela enorme, com mãos muito maiores do que os padrões a que estava acostumada. Sua voz fininha e sempre numa escala mais alta que o habitual, surpreendia mais do que sua pronúncia de estrangeira. A delicadeza dos modos era notável, ela não gesticulava muito, de forma que ocupava muito menos espaço que qualquer um de nós, apesar do seu tamanho extraordinário. Era uma boa pessoa, sem exageros.
A situação dos alemães, mesmo os inocentes, ficou muito difícil após a guerra. O desmantelamento da Alemanha nazista foi uma coisa necessária, ninguém questiona isso. Mas tentemos imaginar o povo alemão que sobreviveu num país completamente destruído, carregando um sentimento de culpa imenso, por causa das atrocidades cometidas pelo nazismo – sentimento de culpa que carregam até hoje, diga-se de passagem, mesmo os que nasceram após a guerra – e sendo subjugados por um outro regime louco, que foi o comunismo da União Soviética. Mais sorte tiveram os alemães do lado ocidental, não resta a menor dúvida.
Os que tiveram a chance de se refugiarem nas Américas e puderam refazer suas vidas foram privilegiados. Porém, devem ter sofrido muito com a nostalgia. Acho difícil escapar desse sentimento.
Abro parênteses: não me refiro aos criminosos de guerra que se esconderam no continente americano, pois não posso nem imaginar se tinham algum tipo de sentimento. Fecho parênteses.
Gisela mantinha contato com os parentes que ficaram na Europa. Isso devia ser um grande alento para ela. Ficara sabendo que a Alemanha já havia melhorado bastante, tinha-se erguido dos escombros. Seu orgulho ferido também começava a cicatrizar. Certa vez, ela disse em tom firme: “A Alemanha não tem mendigos” – dito “mêndigos” na sua pronúncia. Lembro que este comentário foi criticado, entre nós, como se fosse uma ofensa à nação que a recebera tão bem. Será que tinha sido tão bem assim mesmo? Talvez ela  tenha dito isso por ter medo de se tornar mendiga. Coitada... Compreendo o seu sentimento de insegurança; é praticamente inevitável, quando nos instalamos em um outro país, por mais acolhedor que ele seja, e mesmo que estejamos protegidos por um sistema de apoio. Principalmente se não temos filhos.
Quando o marido de Gisela morreu, ela quis voltar para a Alemanha. Seu cunhado, que tinha ficado lá, também viúvo, escrevera-lhe uma carta, manifestando o desejo de que se casassem. Ela foi e, ao chegar lá, não obteve permissão para ficar na Alemanha Oriental (a comunista), onde seu pretendente vivia. O governo a considerou velha demais para trabalhar, para ser produtiva. Não tendo outra saída, voltou para o país que a acolhera. Ela nos contou, aos prantos, a rejeição sofrida. Anos mais tarde, adoeceu, e quem cuidou dela, até a morte, foi uma família amiga, do país de adoção.
Uma história desoladora. E há muitas bem piores do que esta de Gisela.
É muito triste quando um povo perde tudo, até sua liberdade; é aterrador quando um Estado autoritário se apropria da alma das pessoas, que ficam sem ter nem como reagir. Até que se consiga um novo equilíbrio, muito sofrimento é necessário, na maioria das vezes. Temos que aprender com a História, pois ela se repete. A tirania estatal, seja de que ideologia for, leva à destruição. Todo mundo sabe disso, mas parece que somos lentos demais para reagir e o mundo continua cheio de guerras, lamentavelmente.
Naqueles tempos idos de minha infância, não podia calcular o desconsolo de um desenraizado como Gisela e tantos outros que abandonam sua Pátria, para se aventurarem em países distantes, sem nada em comum, nem mesmo a língua. Hoje, posso fazer uma tênue ideia disso, porque também mudei de país. Apesar de não ter sido por uma razão dramática. Dá para compreender o banzo dos negros que foram arrancados da África... e como escravos, situação mais grave ainda.
Apesar de ter sido bem acolhida e ter-me integrado razoavelmente bem onde vivo, nunca serei uma “pure laine”, tal como se orgulha tanto a população daqui. Nunca farei um amálgama perfeito com as pessoas do meu país de adoção, porque é impossível compartilhar nossas experiências e nossa identidade como povo; podemos nos contar nossas histórias, mas nunca será como ter o passado vivido nas mesmas circunstâncias. Por outro lado, sinto falta das minhas origens, da minha família, do lugar onde nasci e cresci. Sinto que já não é a mesma coisa, tudo mudou... talvez, eu mesma. Aqui e lá, existe um hiato, uma lacuna que não se pode preencher.
O tempo não volta atrás para que possamos vivenciar aquilo que perdemos com nossa ausência. O imigrante mora no limbo, espécie de nenhures. Não se integra completamente ao país de adoção e perde o elo com o país de origem. Em nenhures viverá o resto de seus dias.

E viva a América: versão um pouco diferente, mais curta