sexta-feira, agosto 10, 2018

TV Itacolomi


Vi uma publicação, em rede social, na página da prima Adriana, falando sobre Lamartine Babo num contexto bem carioca. Um pianista e compositor chamado Alfredo Sertã conta a história de como o Lalá compôs os hinos consagrados – embora extraoficiais – para os times de futebol do Rio [1].
O que muitos não devem saber é que Lamartine Babo, já famoso no Brasil inteiro, passou por BH, onde foi atração muito admirada. Sim, na 🎶 TV Itacolomi, canal 4, Belo Horizonte, Minas Gerais 🎶 [2]! Procurei em biografias dele na web e nada encontrei sobre isso. Só fui achar alguma coisa em uma página que fala sobre a TV mineira [3].
Pois me lembro bem dele sentado atrás de uma mesa em frente à câmera, contando anedotas, fazendo trocadilhos e cantarolando suas marchinhas de carnaval. Não me lembro por quanto tempo durou a tal programação em BH, mas também é exigir demais da minha memória. Só pode ter sido entre 1955 – ano em que nascemos a TV Itacolomi e eu – e 1963, que foi o ano em que ele morreu. Contam que Lamartine Babo ia de trem para BH, pois tinha muito medo de avião.
Outros artistas famosos também passaram pela emissora belo-horizontina, nessa época, como Chico Anysio, de cujo personagem me lembro também: o Santelmo. 
          E havia, claro, as produções locais, muito criativas, incluindo teleteatro e programas de auditório. Ao final deste texto, acrescentei alguns depoimentos de pessoas que se lembram da TV Itacolomi.
Naquele tempo, televisão era novidade, tudo era agradável de ver, até mesmo aquela imagem imóvel com a figura de um índio [4], que encarávamos pateticamente durante longo tempo, à espera do início da programação do dia. Quando ela aparecia, substituindo o chuvisco de fora do ar, sabíamos que, a qualquer momento, as transmissões poderiam começar. Os horários não eram muito rígidos, havia muita improvisação.
Depois, fiquei sabendo que imagem semelhante aparecia em todos os lugares e era usada para ajustar as câmeras. Aqui no Canadá, o cartaz também tinha um índio. E meu marido me contou que eles também ficavam olhando para ele, esperando a programação começar 😂.
Nos primeiros anos, as transmissões eram feitas a partir do centro de BH. Quantas e quantas vezes, ajustávamos a antena do aparelho de TV voltada para o lado do Edifício Acaiaca, onde ficavam as instalações da Itacolomi. É... sou antiga mesmo. Isso é do tempo em que a gente falava, brincando e sem acreditar, que um dia talvez conversássemos pelo telefone vendo a pessoa do outro lado.
~~~~ 
Testemunhos que colhi:

- George Lima: “A Itacolomi é um fenômeno, a meu ver, pouco estudado. A garra demonstrada supera qualquer avaliação que não a enquadre como extraordinária. Jornalismo, esportes, shows e dramaturgia. Esta com o Grande teatro Lourdes, Garrafa do diabo...
Tinha uma banda de crianças chamada "Bando dos Cariunas". Aqui em Brasilia tenho uma amiga que tocava acordeon. Maestro Elias Salomé.” 

- Luiz Ricardo Amédée Péret: “A TV Itacolomi canal 4 era o meu canal predileto na minha infância. Lembro dos programas Seu saber é pra Valer, Universidade Popular da manhã, desenhos, seriados, programas esportivos como o Bola na Área, Papo de Bola, os Jogos de futebol com o Fernando Sasso, Kafunga, Ronan Ramos...
Curiosidade: Teve na TV Itacolomi um programa que entrevistava casais. O homem e a mulher respondiam as mesmas perguntas, só que separadamente. Aquele casal que as respostas mais coincidiam vencia a competição. Papai e mamãe foram convidados a participarem do programa. E não é que eles venceram....rsrs. Ganharam o prêmio: papai uma gravata importada e mamãe um anel. Isto aconteceu no final dos anos 60. Este programa tinha uma parte musical com participação do Célio Balona.
”


- José Eduardo de Lima Pereira: “Minha irmã Rosinha, Rosa De Lima Pereira RSCM, protagonizou glorioso episódio nos estúdios da Itacolomi: foi vencedora de uma das rodadas das Sabatinas Maizena, programa produzido e apresentado por Bernardo Grimberg. Toda a família se instalava diante do aparelho Invictus de 21 polegadas para ver a Rosinha responder a todas as questões acadêmicas com aquela fleugma que sempre lhe foi peculiar.”
Bernardo Grimberg

- Célio Balona: “Amigo José Eduardo,tenho de TV Itacolomi,as melhores recordações...Tive dois programas lá,Balona é o Sucesso,aos sábados a tarde e um quadro no A Tarde é Nossa do saudoso Danilo Valle!!!Além disso tudo começou pra mim quando ganhei no programa Confiança no Sucesso o primeiro lugar e fui contratado pela emissora...Bons e inesquecíveis tempos!!!”
 
~~~~ 

quinta-feira, agosto 09, 2018

Persuasion

Photo: Bruna Carvalho
Faculdade de Medicina da UFMG
Versão em português

Of course, if we think about the population of Brazil, what I’m going to say here is about people from middle class or wealthier social classes. Unfortunately, few poor people reach high levels of study and few can afford it because they have a difficult real life with bills to pay; unless they have a scholarship, which is not very common.
I was talking to a friend who has been many times postgraduate in the area of Human Sciences, and I found interesting what she said about Brazilian students who become addicted to studying, perpetuating their stay in the university. They seem to be on an insatiable quest for something they often don’t know what it is about. She gave her own example, some years ago, and wonders if it would not be the academic environment that would have bewitched her for so long, more than the interest in expanding her knowledge. She confessed she found irresistible to keep dialogues and debates with people with the same kind of thoughts.
Maybe she was feeling insecure about getting into the labour market in a world that works in a way she did not agree with. She was not even attracted to work as a teacher, because she instinctively sensed this entire trend to be somewhat useless, precisely because there was a discrepancy between the academic world and the outside world. Until the day she decided to untie the umbilical cord that bound her to the embryonic student state and went to live her life. And she didn’t want to get involved with students or teachers in the same way, anymore.
This academic closure, in my view, looks very much like religious people in a cloistered convent. Inside, everything is sacred. In this isolation from the rest of the world, they cultivate ideas considered elevated and supposedly not understood by the human mass circulating outside... for whom the bell tolls, however.
But what impressed me most in her self-analysis was the fascination she showed for some teachers, which led me to the conclusion that she has not yet completely freed herself from those ties. I know there are brilliant and admirable teachers – I've had many – but the way she talks about them made me see an adolescent enchanted with her idols. I don’t know what this means in the psychological sphere, I will not dare to give my opinion in a field I don’t know.
Now, I'd like to tell you my own experience in the university environment, and this includes a tribute to one of my sisters-in-law, as a classmate. We did not study in the area of the Humanities, that is to say, "humanities" also, but in another approach: we were classmates in the Faculty of Medicine. I will write a text to honor her and my other sisters-in-law too, in the family. We have a very interesting life trajectory that is worth remembering. But what I write here is very specific; I don’t want to mix things up.
At that time, we were under Brazilian military dictatorship and the planet was surviving under the yoke of the “Cold War”; most people avoided talking about matters of ideology, on either side. There was fear in the air. Even so, sometimes a teacher dared to insinuate something, tried to exert influence on the students, in the way he thought.
I had my own thoughts, difficult to be influenced by others, I didn’t argue with unknown people, I was very quiet, introverted and timid, when I was young – since getting older, I am speaking too much. So, I could deeply disagree with opinions in discussion in the university environment, and I would not say anything if I was not invited to speak. The result is that it was very difficult for anyone to exert any kind of influence on me. I was always wary.
But my dear friend, who later became my sister-in-law, she did not overlook things that bothered her. If she thought the subject was out of place, or if she did not agree with the imposition of an idea, she would say what she was thinking without any reverential awe. Sometimes I was afraid of the consequences that frankness might bring to her, but nowadays I admire her very much for that. She was right. Being and acting like that, we do not run the risk of being hypnotized (literally) and, at the same time, it prevents others more susceptible at that moment, from being influenced; it triggers an alarm.
The mental power of the authority that holds the speech, as it is the case with teachers, is not negligible. They act daily. Usually, students enter the university still very young and with the determination to undergo an apprenticeship, so they are unarmed, they have lowered their guard regarding knowledge assimilation. They switch to the configuration vulnerable to influences "by default". They are, therefore, more subject to suggestion and psychological cooptation; once initiated at the very outset, effects may last for long time.
Not only people who didn’t study are vulnerable to psychological cooptation. Everybody is!
It is always good to keep on a certain degree of “spirit of contradiction”. And I’m not saying this just for the students. We must be attentive in all environments, especially nowadays, with social networks, where there are people who have the talent of forming opinions, attracting and even recruiting followers. Danger is everywhere.

segunda-feira, agosto 06, 2018

Made in Brazil

Temos uma lavadora de roupa encantadora, tamanho bom para nossa casinha que é pequena e só com dois moradores. Ótima, funciona muito bem. Após anos de uso, o tubo que conduz a água para fora da máquina rasgou, tivemos uma pequena inundação ontem, que controlamos a tempo, antes que causasse danos.
Bom, tudo isso para contar que precisamos olhar o número do modelo para comprar outra peça e... SURPRESA! A máquina é feita no Brasil. A companhia é americana, mas a máquina foi fabricada em Rio Claro, São Paulo.
As especificações estão escritas em inglês. Fui lendo... lendo... não me dei conta de que estava lendo o endereço em português. Foi muito engraçado; de repente, soltei aquele uai bem mineiro: Uai, Made in Brazil... e dei uma risada de criança feliz. Só por saber que aquela máquina veio de lá, da minha terra.
Apesar de tudo o que me entristece e envergonha no meu país, após tantos anos morando fora, o amor não acaba. Que coisa!

~~~~~~~~//~~~~~~~~~
https://maviemontfils.blogspot.com/2016/03/e-viva-america.html

terça-feira, julho 17, 2018

Tio Zizi

João Franzen de Lima,
prefeito de Belo Horizonte, 1947
(foto do Arquivo Público Mineiro,
fundo Jornal Folha de Minas)
Não vou escrever sobre a biografia do Tio Zizi, já há várias nos anais da História de Minas e do Brasil[1]. João Franzen de Lima era tio de minha mãe. Ela contava que ele foi como um pai generoso para eles, quando o pai dela morreu. Era adorado por eles.
Temos até uma espécie de anedota familiar, com relação à bondade desse tio querido. Minha mãe sempre foi muito apavorada, desconfiava de tudo e nos instruía para evitarmos toda e qualquer possibilidade de eventos trágicos.
Certa vez, ela estava orientando os filhos para não saírem da escola com ninguém, só com ela ou com meu pai. Ela explicava que havia pessoas más que sequestravam as crianças, as levavam para países longínquos e que nunca mais veriam os pais. Nós até estremecíamos. Ela dizia que, mesmo se alguém chegasse na escola e dissesse que ela ou nosso pai tinha mandado nos buscar, mesmo que dissessem nomes, endereços, qualquer coisa para provar que eram pessoas conhecidas, que não fôssemos com ninguém.
Nesta altura, um de meus irmãos saiu-se com uma alternativa, lançando uma das pessoas mais bondosas e corretas de quem ele se lembrou, colocando minha mãe em xeque: - Mesmo se for Tio Zizi? Ela caiu na gargalhada e saiu-se com outra: - Nem assim, porque pode ser um sósia dele. Claro, ela estava prevenindo alguma confusão que pudéssemos fazer com outra pessoa, pois não tínhamos convívio diário com ele.
Criança costuma ter um radar apurado para detectar a bondade, pelo que veem ou pelo que ouvem falar, e Tio Zizi foi o escolhido pelo meu irmão como exemplo de uma pessoa à prova de qualquer dúvida, com a qual não correria risco algum. E ele tinha razão.
Íntegro, de vasta cultura e curriculum vitae riquíssimo, Tio Zizi era uma pessoa amável, sem nenhuma empáfia. Sorte minha, eu o conheci, era simpaticíssimo. Se a bondade humana pudesse ter uma imagem, esta seria a figura dele.

~~~~~~~~~~~~//~~~~~~~~~~~~
 P.S.: Diga-se de passagem, quem tiver filhos pequenos, aproveite as dicas de orientação da minha saudosa mãe.
~~~~~~~~~~~//~~~~~~~~~~~~~~
[1] João Franzen de Lima (Wikipedia)