segunda-feira, julho 18, 2016

Pelo sim, pelo não


Version en français


Não nos intimidemos, pois toda teoria, ideologia, filosofia, ia... ia... ia... dos humanos é elaborada e trata, exclusivamente, do que está ao alcance de todos, com a matéria e a energia de que dispomos na aparelhagem que forma nossos sentidos e que nos permite processar, dentro da nossa cachola, os dados aos quais temos acesso. Sem esquecer da intuição, esta matéria reconhecida mas desconhecida em toda a sua complexidade, nos reservando o potencial daquilo que ainda se encontra no campo da incognoscibilidade.

Se não temos embasamento à altura para compreender, melhor não concordar nem discordar... e melhor ainda é pesquisar sobre o tema, se quisermos tomar alguma posição.
Aulas de professores brilhantes, explanações escritas de filosofias e teorias são, para alguns, motivo de enlevo, levando ao risco de engajamento incondicional. Não é raro que isso aconteça. Mas esses pensamentos organizados e alinhados de forma a tentar compreender alguma coisa, ou com a finalidade de atingir algum objetivo, deveriam sempre ser encarados com um certo grau de contestação.
É importante estudar o legado dos filósofos e outros afins, sem dúvida. Além do aprendizado de como evoluiu e evolui o pensamento humano, é um modo de exercitar e provocar nossos próprios neurônios. Com o cabedal adquirido com essa aprendizagem, podemos alcançar novas proposições.
Mas se aceitamos o que lemos ou o que ouvimos como ponto fundamental e indiscutível, sem nos armarmos de uma certa oposição, corremos o risco de ficar à mercê de influências que passam a dominar nosso modo de pensar e compreender.
Pelo sim, pelo não, melhor desconfiar.

sábado, julho 09, 2016

Jovens e velhos

English version

Acho uma pena estarem usando o Brexit para exacerbar mais uma divisão entre os seres humanos: jovens e idosos. Considerando o pouco tempo de vida de um humano, acho risível começarem a criar mais motivos do que já existem para o conflito de gerações.
Tanta gente “idosa” no mundo que está tornando possível aos jovens embarcarem no "trem do progresso"; que sem os idosos, muitos jovens não conseguiriam o apoio necessário (e o sustento mesmo, muitas vezes). É preciso ir ver como as pessoas funcionam na vida real.
Os idosos, na grande maioria, têm filhos e netos, e pensam neles quando fazem suas escolhas. Constato isso diariamente, com gente com quem convivo. Digo isso sem constrangimentos e sem nenhuma intenção de me enobrecer, pois não tenho filhos.
Alguma coisa me diz que a escolha dos "velhos" ingleses foi feita justamente pensando nos seus jovens.
Além do mais, de um modo geral, se uma escolha feita por idosos favorece, de alguma forma, esse grupo etário, os jovens deveriam achar até bom porque eles serão idosos muito mais rápido do que imaginam. Falando como uma "ex-jovem", digo que, quando somos jovens, não temos essa impressão que é, no entanto, tão real.
Afinal, quem estava certo? O futuro nos dirá.

quinta-feira, julho 07, 2016

Roda pião, bambeia pião





                “Deixa o pião rodar”

Por mais tranquila que tenha sido a morte de minha mãe – se é que podemos falar em tranquilidade quando se trata de morte – por mais que saibamos que ela foi uma admirável longeva e que não poderíamos querer que ela vivesse mais do que os seus 99 anos e uns quebrados, tendo perdido qualidade de vida nos últimos anos; por mais que tenhamos nos conformado com a sua partida, há um luto real a sofrer, dure o tempo que durar. Há uma retrospectiva que a traz de volta, de tempos em tempos, mesmo que seja apenas na cabeça da gente... até que o tempo passe e deixe só uma cicatriz.
Já passei por vários tipos de luto; o da minha mãe parece ser o mais natural que estou atravessando, provavelmente pelo fato de ela ter vivido próximo do máximo que um ser humano pode viver e, portanto, ter sido o desfecho iminente previsível. Além disso, já tínhamos resolvido, ela e eu, todas as pendências afetivas entre nós. Obviamente, sempre haverá lágrimas por cair, quando penso nos beijos e abraços que poderiam ter sido mais frequentes e afetuosos, quando vem a vontade de dizer a ela, incontáveis vezes, que a amo...
As mães sempre são especiais para os filhos, dizer que a minha era especial é, no mínimo, coisa banal. Pois digo assim mesmo, a minha era especialíssima! Muito apropriado que eu assim a proclame, ela que era tão generosa em superlativos para com os outros. Entre tantas qualidades, hoje estou-me lembrando de que ela era portadora de uma capacidade de intuição extraordinária. Chegava a dar a impressão de que tinha aquilo que chamamos de “sexto sentido” ou, às vezes, até telepatia. Parecia um dom independente da sua vontade, ela não se esforçava, a coisa brotava como que do nada.
Sua “intuição” se manifestava no cotidiano e, às vezes, em sonhos. Sempre tentávamos interpretar como alguma coisa natural, por exemplo, algum tipo de transmissão de pensamento. A ciência ainda não conseguiu provar a existência desse fenômeno, tampouco descartar que isso seja possível; quem sabe algum tipo de onda seja emitida quando pensamos e possa ser transmitida a quem esteja na mesma sintonia e tenha habilidade de captar? Sabemos muito pouco para ter certezas, nossa ciência não passa de mera crença. Uma linda e promissora crença.
Por exemplo: um dia a ciência creu que o átomo fosse uma partícula elementar e afirmou isso; era uma crença, pois hoje sabemos que há outras partículas menores que o compõem, os prótons, nêutrons e elétrons, e outras menores ainda, os piões (píons), múons e neutrinos, formados por outras subpartículas. Tudo não passa de crença, a partir do que nossa ínfima inteligência consegue deduzir e perceber. À medida que evoluímos, novas ideias e novos elementos se descortinam. A metodologia é magnífica: postula-se a existência de uma partícula antes de comprová-la. É uma espécie de intuição que vai-se traduzindo em complexas equações.
Voltando à minha mãe... Desses episódios “especiais”, um caso me deixou intrigada. Não foi como nos outros em que ela aparentemente intuía. Na época, consideramos como um engano, talvez um lapso de comunicação.
Tinha eu obtido êxito em algum ponto do percurso normal da minha vida, uma etapa qualquer vencida, não me lembro mais qual, comum na vida de qualquer pessoa; mas para minha mãe, cada etapa que seus filhos venciam era motivo de muita alegria e agradecimento a Deus, como graça concedida. Ela havia, então, mandado celebrar missa em ação de graças.
Interessante é que, missa mesmo, não sei se mandava celebrar para tudo. Desta fiquei ciente, pois no dia da celebração, ela quis que fôssemos com ela, minha irmã e eu. Fazendo, agora, uma retrospectiva, concluo que isso já foi algo intrigante, pois não me lembro de que ela tenha insistido outras vezes para que fôssemos com ela a missas que mandava celebrar. E olhe que tinha “conta” na secretaria da Igreja Boa Viagem, em Belo Horizonte. Ela telefonava, marcava as missas e ia pessoalmente pagar a conta mensal.
Pois bem, fomos. Como de costume, o padre leu as intenções da missa em voz alta. Para nossa surpresa, o meu nome foi anunciado como de uma pessoa falecida, para cuja alma rogávamos a Deus perdão e salvação eterna. Ficamos perplexas, por alguns instantes. Em seguida, nos entreolhamos como se nos perguntássemos se tínhamos entendido a mesma coisa... Sem dizer nada, continuamos ali, até o final da missa; eu estava em estado de choque.
Segurei o choro tanto quanto pude, mas não consegui me conter ao chegar em casa. Minha mãe chorava também e me pedia desculpas. Coitada, ela não tinha culpa. Havia sido um mal-entendido; eram tantas missas em intenção de tantas almas na lista de minha mãe, que a secretária pensou que fosse mais uma e ali acrescentou meu nome. E, afinal, o que valia era a verdadeira intenção. Passou... aquele mal-estar se dissipou rapidamente, quase virou anedota. Eu estava viva.
Mas aquilo me marcou, não me esqueci. Mais tarde, anos depois, pensei se não teria sido um caso de intuição da minha mãe, daqueles que nem ela se dava conta do que se tratava. Estaria eu me distanciando da fé e ela, sem querer, me submeteu a um tratamento de choque? Não sei.
Considerando a nossa fraca ciência com jeito de crença, se o tempo é uma variável que nos ilude, e se existe alguma conexão com um estado de vida atemporal, pode ser que a intenção daquela missa tenha validade – eu creio que sim – para quando eu morrer nesta "ilusão" em que vivemos.
Do jeito que o mundo ao meu redor vai indo, ninguém mais acreditando em nada além do que somos capazes de perceber por aqui, tenho minhas dúvidas de que sobreviverá alguém de meus conhecimentos que se lembre de mandar celebrar missa em intenção de minha alma. Sendo assim, minha mãe já garantiu alguns pontinhos para mim. Ela fez o papel de um filho ou filha que não tive, que o faria. Mãe é mãe!

sexta-feira, julho 01, 2016

Young and old

Versão em português

I think it is sad to turn Brexit into one more division within human beings: now between young and old people. Considering the human short lifetime, it is ridiculous to start creating more reasons for conflicts between generations.
So many "old" people in the world are making it possible for young people to enter in the "progress train"; without the elderly, many young people could not have the necessary support. We have to consider how it works in real life.
The elderly people, in most cases, have children and grandchildren, and they care about them when they make their choices. I notice this every day with people I know. I am free of constraints saying this, without any intention to ennoble me, since I have no children.
Something tells me that those "old" English were thinking about the future of their young when they made their choice.
Moreover, in general, if a choice made by elderly people favors, in some way, this age group, young people should find it good because they will also be old much faster than they imagine. Speaking as a "former young", I say that when we are young, we do not have this feeling, which is, however, so real.
Finally, who was right? The future will tell us.